Crítica | Pennyworth – 1X10: Marianne Faithful

“Deus abençoe a Inglaterra.”

Das maiores surpresas neste ano, pelo menos no que tange às séries, acompanhar Pennyworth chegando à qualidade que enfim alcançou, escrevendo as histórias que escreveu e construindo os personagens que construiu. Nos dez episódios que compõem essa sua primeira temporada, Bruno Heller pensou temas relacionados ao que é importante para o homem, suas prioridades na vida e o que os movimenta enquanto seres, seja um impulso moralista ou não. A serviço do quê, portanto, encontra-se alguém justo como Alfred Pennyworth (Jack Bannon), personagem que conhecemos popularmente em vista do seu envolvimento com o Batman? Ele passou de uma crença primeiro na Coroa, depois passou por casos obscuros envolvendo sua necessidade por dinheiro, até chegar ao ímpeto vingativo decorrente do assassinato de sua noiva.

E agora? Dentre tantos passeios que a série, assim sendo, encaminhou para que chegasse a conclusões mais exatas, o encerramento da sua primeira temporada parece compreender uma só resposta para a missão humana. Em meio a um confronto ideológico que conquista os níveis mais alarmantes, os âmbitos pessoais surgem como a verdade mais importante, mais que qualquer outra coisa. Logo, comprova-se a qualidade dos dramas propostos pela série, os quais respaldam as ambiguidades permeando a cabeça dos personagens nesse clímax, entre lutar pensando no que acreditam e lutar pensando no que amam.

Num primeiro lugar, após o sequestro da Rainha (Jessica Ellerby), Pennyworth possui a oportunidade de retornar para casa, em troca de resgatar a mulher mais importante da Inglaterra. Alfred não encontra-se preocupado realmente com ela, contudo, importa-se em retornar para casa, ou seja, para os seus pais. Há esse potencial emocional que o episódio explora perfeitamente, até chegar ao ápice envolvendo a rixa entre o Sr. Pennyworth (Ian Puleston-Davies) e o seu filho, que existe em território secundário e progressivamente vai se revelando. Ao passo que seu pai é parte da Sociedade dos Corvos, o personagem principal é justamente o responsável por acabar com os planos do Lorde Harwood (Jason Flemyng). Heller compreende o peso em questão, sem desmerecer os momentos íntimos vigentes, e Danny Cannon envolve cena-a-cena com a preparação para a tragédia que encerra o episódio. A dramática conversa que termina a vida do pai do protagonista é um exemplar das contradições que tangem o extremismo.

“Dane-se o fim”, comenta Alfred enquanto uma das pessoas que mais ama ameaça cometer um atentado terrorista, querendo assassinar a Rainha e outros nomes poderosos do governo. Para o protagonista, não importa se ao final das coisas a Inglaterra se tornar mesmo um lugar melhor – muito provavelmente não -, em vista da barbárie cometida pelo seu pai, que está pensando na re-ascensão da Sociedade dos Corvos. O que importa é o próprio, vivo e colecionando memórias com seus parentes. No mais, em um episódio coeso, mesmo a trama paralela à principal compreende essas questões que contrapõem ideais grandiloquentes às verdades mais minimalistas. Quando Martha (Emma Paetz) e Thomas (Ben Aldridge) se rendem ao primeiro beijo entre eles – em meio a um senso cômico inerente -, é esclarecido que Heller quer colocar a intimidade como um ponto contrário a qualquer luta maior. O atentado contra a vida de Thomas, em um dos ganchos que a temporada criou, é justamente o contraponto a essa noção de que o que vale são as relações pessoais. Os fins, portanto, não justificam os meios, pois do que vale o mundo mudado sem você?

Pennyworth – 1X10 Marianne Faithful (29 de setembro de 2019)
Direção: Danny Cannon
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Paetz, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Dorothy Atkinson, Ian Puleston-Davies, Anna Chancellor, Richard Clothier, Jessica Ellerby, Danny Webb, Polly Walker
Duração: 50 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.