Crítica | PéPequeno

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A cada porção de anos temos uma animação que retrata uma complexa sociedade de monstros que têm medo dos humanos e uma parte desse medo é o resultado de péssima comunicação entre os dois grupos. Nessas ocasiões, os roteiros exploram o mal-entendido entre as partes (e claro, possivelmente a crueldade, ataques e destruição por parte dos humanos ou geralmente não-intencional do outro lado), sendo as diferenças, ao fim, parcialmente resolvidas quando um humano entra em contato com a “civilização perigosa” e dá início a uma fase de mudanças. Em safras do novo século, assim foi com Monstros S.A. (2001), depois com Hotel Transilvânia (2012) e aqui, com PéPequeno (2018).

A temática dessa obra, que se baseia no livro Yeti Tracks, de Sergio Pablos, também não foge muito às histórias de entendimento de diferenças e sobre lidar com novas ideias — temáticas caras às animações recentes, denotando um “espírito de época” bastante interessante de se observar. Aqui, Channing Tatum interpreta Migo, um Pé Grande que vive feliz em sua civilização, aprendendo com seu pai a difícil (e dolorosa) tarefa de tocar o gongo todas as manhãs para que o Sol nasça.

Toda a apresentação do espaço geográfico e dos personagens tem um belo ar convidativo aqui. A fotografia tem aquele contraste de luz solar sobre o gelo que sempre dá um efeito visualmente chamativo e a predominância do braco mais um pouco de filtro de azul marcam fortemente essas cenas. A sensação de frio e ao mesmo tempo de aconchego são conseguidas através da simples, mas bem escolhida paleta de cores já na sequência que abre o filme. No último ato, esse mesmo bom trabalho fotográfico volta a aparecer, aí também com inteligentes escolhas da direção para mostrar a fuga dos Yetis e o show de luzes da pequena cidade no pé de uma das montanhas do Himalaia.

Mas se essa oposição entre os mudos dos Pés Grandes e Pequenos pode ser identificada visualmente logo de início, o mesmo não acontece em relação ao texto. Os escritores nos fazem acompanhar um tipo cômico e desajeitado de “jornada do herói” via Migo, que se vê batendo de frente com as Leis das Pedras que o Guardião usa para proteger a Vila.

Num primeiro momento, acreditamos que a obra se desenvolverá uma saga que adapta o Mito da Caverna, mostrando as pessoas conhecendo coisas, tendo o poder de decidir sobre o que fazer de suas vidas e, como sempre, terem a clara noção das consequências que esses atos lhes podem trazer. Em PéPequeno, não é só o encontro de duas espécies e a aprendizagem que ambos precisam ter para conseguir se comunicar ou não matar um ao outro que está em jogo. Aí também entra a própria existência deles, que é colocada em cena, sempre com o bom humor que se espera de um filme para crianças (a problematização dos temas fica mesmo a cargo do público mais velho) e aquelas esperadas tramas de laços ou moralidades amenas entre as pessoas que esse tipo de obra geralmente traz.

O final do filme, infelizmente, é atropelado por uma escolha no mínimo questionável por parte do roteiro. O entendimento e aceitação da cidade inteira dos Yetis, que simplesmente compram a nova condição e partem para conhecer de perto os que claramente estavam ali para caçá-los, não é lá muito… inteligente.

Embora esse encontro esteja no filme para fazer valer (de maneira exagerada, convenhamos) a mensagem de união e convivência entre diferentes, tudo acaba sendo afogado pelo superlativo: todo mundo, de repente, está feliz demais em conhecer o “novo inimigo” e conviver com ele. Não dá para abraçar uma ideia assim de jeito nenhum. Mas de todo modo, PéPequeno se conclui com muita graça e traz uma daquelas sensações gostosas que alguns finais felizes apresentam. Técnica e tematicamente apreciável, o longa inverte uma já batida dinâmica entre humanos e Yetis (agora os humanos é que são tratados como a principal “lenda”) e nos mostra o processo de conhecer o trágico passado de uma História, entender que os tempos são outros e… abraçar as diferenças.

PéPequeno (Smallfoot, 2018)
Direção: Karey Kirkpatrick, Jason Reisig
Roteiro: Karey Kirkpatrick, Clare Sera (baseado na obra de Sergio Pablos)
Elenco: Channing Tatum, James Corden, Zendaya, Common, LeBron James, Danny DeVito, Gina Rodriguez, Yara Shahidi, Ely Henry, Jimmy Tatro, Patricia Heaton, Justin Roiland, Jack Quaid, Sarah Baker, Kelly Holden Bashar
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.