Crítica | Perdi Meu Corpo

Se seis personagens um dia procuraram por seu autor e, claro, significado, na obra imortal de Luigi Pirandello, porque um twist macabro – mas lírico – que coloca uma mão decepada procurando seu corpo, seria inimaginável? A animação francesa de Jérémy Clapin, em sua estreia em longas-metragens, baseada em romance de Guillaume Laurant, que co-escreveu o roteiro (e que foi responsável também por O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Uma Viagem Extraordinária), é uma jornada que procura discutir, ou pelo menos colocar em perspectiva, o conflito eterno entre o determinismo e o livre-arbítrio, entre o destino inevitável e nossa tentativa de fugir dele.

A premissa estranhíssima já captura a imaginação do espectador a partir dos primeiros segundos em que vemos a referida mão “escapando” de uma geladeira em um necrotério ou hospital e aprendendo a andar na ponta dos dedos exatamente como o Coisa (ou Mãozinha), da Família Addams. A combinação do que esperamos de algo assim, provavelmente um filme de horror, com uma leveza desconcertante que nos faz efetivamente torcermos pela mão silenciosa, mas muito esperta, carrega facilmente a narrativa sem que sequer uma linha de diálogo seja necessária. As aventuras dessa mão tentando retornar a seu “dono” a faz passar por espetaculares momentos que vão desde um pombo enxerido no telhado de um prédio, passando por endemoniados ratos no metrô em uma sequência legitimamente tensa, até sobrevoos na cidade à la Mary Poppins, formam todo o coração do longa, mas um coração que carece de significado sem que prestemos atenção às sequências em flashback para momentos diferentes na vida do jovem Naoufel (Hakim Faris).

Sendo inicialmente abordado sem uma estrutura imediatamente discernível, a vida de Naoufel vai pontilhando a jornada da mão que, não demora, e por dedução inescapável, concluímos que é a dele. Com isso, outra camada de curiosidade e leve mistério é acrescentada: como o jovem perdeu sua mão? Mas a resposta a essa pergunta não é o que movimenta a narrativa, mas sim a luta da mão contra seu destino, sua recusa em aceitar passivamente sua situação. Naoufel, por sua vez, visto nos referidos flashbacks para sua infância tenra em preto e branco quando capturava todos os sons com um gravador de fita cassete e um microfone e para seu passado recente em Paris como entregador de pizza, em uma peça pregada pelo destino (olha ele aí!), sem rumo, sem saber o que faze a não ser passar os dias em uma rotina inglória, mas que ele aceita sem reclamar. A mão e o Naoufel que conhecemos são bem diferentes e a convergência dessas duas linhas narrativas, por mais surreal que possa ser, estabelece a progressão da história e tudo o que precisamos saber sobre nós mesmo, vamos dizer assim.

O roteiro de Clapin e Laurant, no entanto, acabam caindo na armadilha do lugar-comum, com Naoufel enamorando-se por Gabrielle (Victoire Du Bois) e estabelecendo um relação, a partir do jovem entregador de pizza, que começa de maneira bonita, mas entra em um viés um tanto quanto perturbador, com ele “perseguindo” a garota de todo jeito possível e omitindo informações. É bem verdade que as habilidades sociais de Naoufel são próximas de inexistentes, mas a abordagem desse seu romance platônico é problemática não só por colocá-lo sob uma luz ruim, quase obsessiva, como também pelo simples fato de não ser interessante o suficiente ou mesmo definidor para os eventos que ocorrem a seguir, pelo menos não daquela maneira que olhamos e concluímos algo como “bem, não podia ser de outro jeito mesmo”. O lirismo tão bem construído no lado da mão e nos flashbacks para a infância de Naoufel se perdem consideravelmente nesse lado mais comum da história, ainda que Gabrielle seja acertadamente mantida distante, como um sonho inalcançável e não exatamente como uma personagem bem desenvolvida.

A grande vantagem, porém, é que não só a jornada da mão é, toda ela, muito bem trabalhada do começo ao fim, como os lindos 10 minutos finais funcionam como a proverbial cereja no bolo. Além disso, Clapin mostra um cuidado grande na forma como ele aborda o mundo a partir do ponto de vista do membro decepado, mantendo a câmera muito próxima da ação e, claro, do chão, por vezes ocupando a perspectiva em primeira pessoa (ou seria primeira mão?), além de estabelecer movimentos realistas tanto quanto o possível e extremamente humanos, como quando a mão senta na beirada de um prédio ou de um piano exatamente como seria na realidade. A forma como mãos variadas são também enfocadas e metaforizadas sem que elas pareçam intrusivas, merece aplausos, mantendo acesa e multiplicando a estranha premissa. Igualmente, a fotografia transita muito bem entre as duas narrativas, privilegiando tons mais escuros na jornada da mão e cores mais vivas no desabrochar de Naoufel, com os traços da animação em si, que parecem sair das páginas de uma HQ, em um processo digital que emula traços 2D. Há, também, um quê de caricatura nas figuras humanas ou, pelo menos, de arquétipos, inclusive no caso de Naoufel, o que ajuda a universalizar a narrativa e tornar a estranha história muito relacionável.

Mesmo tropeçando na história do romance adolescente, Perdi Meu Corpo é uma grata surpresa na categoria de animação de 2019 que trabalha o inusitado, o macabro e o tenso de forma lírica e repleta de significados, capaz de fazer qualquer um parar e pensar na vida e que caminho seguir, se é que podemos mesmo escolher o caminho. Jérémy Clapin, já em seu primeiro trabalho de monta, revela um manejo impressionante sobre sua arte e, arriscaria dizer, cria um moderno e bizarro clássico instantâneo.

Perdi Meu Corpo (J’ai Perdu Mon Corps, França – 2019)
Direção: Jérémy Clapin
Roteiro: Jérémy Clapin, Guillaume Laurant (baseado em romance de Guillaume Laurant)
Elenco: Hakim Faris, Victoire Du Bois, Patrick d’Assumçao, Alfonso Arfi, Hichem Mesbah, Myriam Loucif, Bellamine Abdelmalek, Maud Le Guenedal, Nicole Favart, Quentin Baillot, Céline Ronté, Deborah Grall, Pascal Rocher, Bruno Hausler, Jocelyn Veluire, Raymond Hosni
Duração: 81 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.