Crítica | Perdidos na Noite

A chamada Nova Hollywood já havia sido tecnicamente laureada com o prêmio máximo da Indústria Cinematográfica quando No Calor da Noite saiu da 40ª Cerimônia do Oscar, em 1968, com cinco das sete estatuetas a que concorreu, dentre elas a de Melhor Filme. Perdidos na Noite. Plano Crítico.

Everybody’s talking at me
I don’t hear a word they’re saying
Only the echoes of my mind
– Neil, Fred

A chamada Nova Hollywood já havia sido tecnicamente laureada com o prêmio máximo da Indústria Cinematográfica quando No Calor da Noite saiu da 40ª Cerimônia do Oscar, em 1968, com cinco das sete estatuetas a que concorreu, dentre elas a de Melhor Filme. Mas, apesar da temática e de sua abordagem direta e sem filtros, a obra de Norman Jewison ainda não representava com vigor aquela visão desglamourizada e pessimista dos centros urbanos dos EUA que passou a dominar os anos 70. Foi Perdidos na Noite, portanto, que realmente inaugurou essa tendência de reconhecimento desse movimento de certa forma inadvertido – mas orgânico – da produção hollywoodiana e que continuaria revelando cineastas que mudariam o cinema americano para sempre.

Baseado no romance homônimo que James Leo Herlihy lançara apenas quatro anos antes, o roteiro de Waldo Salt, que escreveria também Serpico e Amargo Regresso, aposta todas as suas fichas na relação de profunda amizade – fruto de coincidência, falta de opção e, francamente, desespero – entre dois homens desesperançosos ou, pelo menos, dois homens que representam duas fases diferentes de uma vida sem esperanças à margem da sociedade. O primeiro é um jovem e inocente texano que se veste com cowboy, larga seu emprego de lavador de pratos e se muda para Nova York para, usando sua boa aparência e o que acha ser um charme irresistível, tornar-se garoto de programa para viver do dinheiro de “madames” que ele aborda na rua. O outro é um golpista malandro do Brooklyn que vive em condição de absoluta miséria em um prédio condenado da cidade e que sofre de tuberculose ou outra doença semelhante.

Com apenas uma flechada, portanto, os míticos  arquétipos do vaqueiro e do malandro de rua espertalhão são feridos de morte, com as caracterizações de Jon Voight como o primeiro e Dustin Hoffman como o segundo acertando na mosca nessa desconstrução pesada e sem pudores de uma simbologia marcante na cultura americana. Se o Joe Buck de Voight ganha um limpo, mas exageradamente brega figurino com jaqueta de camurça à la Davy Crockett e chapéu de vaqueiro, com direito a um penteado “Príncipe Valente”, o Enrico Salvatore “Ratso” Rizzo de Hoffman é a decadência física e moral em pessoa, manco, com dentes e unhas sujos, roupa encardida e um cabelo ensebado, novamente representando “presente e futuro” de uma mesma pessoa, por assim dizer, com a inevitável e constante convergência dos dois personagens e a constante deterioração física de cada um deles.

O pareamento desses dois grandes atores formando uma dupla improvável, mas cinematograficamente perfeita, também espelha a arte, já que, na vida real, Voight, que então tinha em seu currículo apenas papeis ancilares, representando o começo de uma vida prolífica, com Hoffman já razoavelmente bem estabelecido em sua arte em razão principalmente de seu icônico papel de Ben Braddock em A Primeira Noite de um Homem apenas dois anos antes. Essa questão chega até ao ponto de Voight ter aceitado trabalhar pelo salário mínimo de ator para viver Joe Buck, sendo explorado na arte para viver o papel de um homem explorado pela vida (que ironia!), com o agente de Hoffman por seu turno, tentando convencer seu cliente a declinar o papel justamente para que ele não arranhasse sua imagem de bom moço. Portanto, o filme também ganha um lado metalinguístico interessantíssimo em retrospecto, que só acrescenta à sua qualidade e importância histórica.

John Schlesinger percebeu imediatamente o ouro que tinha em mãos com Voight e Hoffman criando personagens estranhos, desagradáveis até, mas inesquecíveis que são até engraçados quando visto juntos em razão da diferença gigantesca de altura e porte dos dois atores. E o cineasta britânico, que vinha de Darling: A que Amou DemaisLonge Deste Insensato Mundo, soube extrair o máximo dos dois, mantendo a câmera próxima a eles a ponto de incomodar, de esfregar na cara do espectador a inevitável queda vertiginosa dos personagens. E é importante que o filme faça isso, pois a produção não tem nenhuma intenção de apresentar uma Nova York sanitizada, com locações escolhidas a dedo para mostrar o que há de melhor. Ao contrário, a cidade – também um personagem importante – é um antro doente de sujeira e miséria que a fotografia do polonês Adam Holender, em um primeiro trabalho impressionante nessa cadeira, captura com um realismo assustador, apresentando um labiríntico submundo de onde Joe e Ratso simplesmente não conseguem sair.

Surpreende, assim, como o conjunto da obra, por mais destruidor que seja, deixa transparecer um raio de esperança para esses dois homens que só tem mesmo um ao outro – a relação deles nunca é mostrada como sendo mais do que uma amizade, mas o texto de Salt e a direção de Schlesinger inteligentemente levam o espectador à conclusão de que sim, há algo além – e que parecem, contra todas as probabilidades, estar contentes, ou pelo menos resignados com isso. Há migalhas discretas de felicidade sendo deixadas no rastro dos dois, uma delas a icônica canção Everybody’s Talkin’, de Fred Neil, com uma visão não exatamente otimista, pois seria exagerado e até mesmo errado chegar a essa conclusão diante da intenção da fita, mas que pelo menos deixa entrever um filamento de luz que, muito provavelmente é apenas um sentimento de que a coisa não pode piorar diante de um quadro de esquecimento completo pelo que esses grandes personagens passam, carregando consigo traumas do passado – no caso de Joe Buck vistos em flashbacks muito rápidos e “mutantes”, em uma forma muito inteligente de se mostrar a percepção da realidade por ele – que os moldaram para sempre.

A marcação de momentos de quebra de paradigma é sempre perigosa, mas Perdidos na Noite foi o choque de realidade que Hollywood precisava explicitamente reconhecer em suas premiações para ajudar a abrir de vez suas portas para uma nova e desafiadora abordagem por pelo menos a década seguinte. Grandes obras e grandes personagens como os que vemos aqui podem e deve ter esse efeito e a amizade de Joe e Ratso, com toda sua dor e tragédia, é inesquecível.

Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, EUA – 1969)
Direção: John Schlesinger
Roteiro: Waldo Salt (baseado em romance de James Leo Herlihy)
Elenco: Jon Voight, Dustin Hoffman, Sylvia Miles, John McGiver, Brenda Vaccaro, Barnard Hughes, Ruth White, Jennifer Salt, Gilman Rankin, Georgann Johnson, Anthony Holland, Bob Balaban
Duração: 113 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.