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Crítica | Perfect Blue

por Kevin Rick
1126 views (a partir de agosto de 2020)

Desculpe, quem é você?

Falar de Satoshi Kon sempre me deixa feliz de um jeito melancólico, pois o diretor japonês faz parte de dois “grupos” artísticos meio aflitivos, com o primeiro sendo sobre artistas que não recebem a atenção merecida. Considero Satoshi um dos melhores diretores de animação de todos os tempos, e o terceiro com mais impacto e genialidade no oriente, logo atrás da duplinha lendária do Estúdio Ghibli, e raramente vejo ele nessa conversa em discussões artísticas. Já o segundo é muito mais trágico, pois o cineasta faleceu aos 46 anos de idade, compondo uma longa lista de artistas geniais que deixaram nosso mundo muito cedo. E apesar disso, a curta filmografia de Satoshi está para sempre marcada na Sétima Arte como o legado maravilhoso de um diretor que adorava usar o Cinema para deturpar a realidade, o tempo e a perspectiva, já construindo um marco cinemático em sua estreia diretorial com o anime Perfect Blue.

A obra acompanha a vida de Mima Kirigoe (Junko Iwao), uma estrela pop que decide abandonar sua vida como cantora no trio CHAM para buscar uma carreira de atriz, por recomendação de sua agência, que não enxerga futuro na indústria musical para a personagem. Inicialmente, a fita assume esse discurso interessante do dilema artístico da protagonista, inserindo o elemento de suspense da narrativa com um fã obcecado pela figura de Mima, consequentemente sentindo-se traído por sua mudança profissional. Confesso adorar tramas de thriller e mistério em torno de pessoas obcecadas, apesar de ser um artifício raramente bem-feito ou que fuja do lugar-comum. Dito isso, Satoshi Kon utiliza essa premissa para nos oferecer um pesadelo completo.

Como eu disse, o diretor adora (des)construir a realidade em suas obras, e é interessante como ele parte da atmosfera convencional de uma perseguição lunática para um estudo de identidade da protagonista. Aliás, “estudo” é até um termo distante da experiência proposta, que mais assemelha-se à um mergulho onírico em torno da veracidade e da pergunta “quem é você(eu)?” de Mima. Em linhas gerais, a ideia parece ser simples, mas o que engradece a direção de Satoshi pode ser resumido na sutileza da construção imaginária e abstrata dos eventos aterrorizantes da protagonista.

Tudo existe em prol da ilusão, desde a aparência bizarra do perseguidor, o blog diário fictício de Mima, a figura fantasmagórica do seu passado como cantora, a trama detetivesca da série que a protagonista é atriz recorrente, além do próprio enredo trágico de sua personagem, fazendo uma ponte com Mima para confundir a audiência de quem é a intérprete. Aliás, a maneira como as filmagens nos sets trabalham com o próprio conceito de Cinema, ao ser um reflexo subjetivo da realidade, adiciona um toque metalinguístico ao terror que torna a experiência um grande espelho entre o fictício e o metafíctio, pois a série dentro do filme ganha uma linha real, trabalhando a dúvida do ponto de vista fictício para a audiência e para Mima.

É delírio em cima de delírio, twist atrás de twist, e a ambientação da animação mantém o público numa atmosfera de thriller, o que é fantástico, pois seria muito fácil a linguagem onírica sobrepor o horror da perseguição, já que a confusão assumiria o papel principal do discurso. Mas o fato é que a deformidade da realidade oferece questionamentos, mas nunca tira o espectador do clima de tensão e perigo. O entorno de Mima colorido (incialmente) é absorvido pela animação geral sombria e noir, e a direção tem um papel old school nessa ambientação, relembrando bastante slashers e até uma pegada hitchcockiana na cenas de assassinato, na ideia de sutileza em uma linha crescente do horror até o clímax.

Satoshi Kon utiliza o alcance artístico praticamente ilimitado da animação para oferecer o surreal na estética sombria e realista de um horror psicológico sobre obsessão, perseguição e loucura. Eu descreveria a duração da fita como a escalação vagarosa de um pesadelo, no qual a protagonista começa enfrentando a fama, a indústria artística e seu senso de propósito, acabando em conflito com um antagonista obcecado, e, por fim, o crescimento de todos esses terrores na sua distorção da realidade. O que é real? Quem é o assassino? Quem é Mima? Várias são as perguntas levantadas durante a jornada da obra, e após o desfecho, o que fica com o espectador é a sensacional experiência desorientadora e obsessiva na bela imaginação de Satoshi Kon.

Perfect Blue (パーフェクトブルー, Pāfekuto Burū) – Japão, 1997
Diretor: Satoshi Kon
Roteiro: Satoshi Kon (baseado no romance Pāfekuto Burū: Kanzen Hentai, de Yoshikazu Takeuchi)
Elenco: Junko Iwao, Rica Matsumoto, Shinpachi Tsuji, Masaaki Ôkura, Yôsuke Akimoto, Yoku Shioya, Hideyuki Hori, Emi Shinohara, Masashi Ebara, Kiyoyuki Yanada, Tôru Furusawa, Shiho Niiyama, Emiko Furukawa
Duração: 111 min.

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13 comentários

Victor Martins 13 de abril de 2021 - 18:11

Corre aqui, Aronofsky.

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Kevin Rick 13 de abril de 2021 - 18:39

HAHAHAHAHAHAHA

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JC 13 de abril de 2021 - 11:02

O tanto que já ouvi falar desse filme…mas até hoje não tive oportunidade de assistir.
Preciso corrigir isso…

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Kevin Rick 13 de abril de 2021 - 18:39

Assista!!

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Arthur Da costa palacio 13 de abril de 2021 - 10:22

Filmaço

O Darren Aronofsky é obcecado por esse filme

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Kevin Rick 13 de abril de 2021 - 14:10

Sim! Dá pra ver os vários elementos que ele utiliza em Cisne Negro. Filmaço mesmo!

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Arthur Da costa palacio 13 de abril de 2021 - 14:45

BTW, quando sai crítica de Neon Genesis Evangelion?👀

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Kevin Rick 13 de abril de 2021 - 19:18

Tô devendo né! hahaha Vai sair ainda, possivelmente nas próximas semanas!

Responder
Kevin Rick 13 de abril de 2021 - 19:18

Tô devendo né! hahaha Vai sair ainda, possivelmente nas próximas semanas!

Responder
Lucas Vila Nova 13 de abril de 2021 - 04:20

Dizem que o filme Cisne Negro plagiou a história dessa animação.

Responder
Kevin Rick 13 de abril de 2021 - 14:09

Plágio é uma palavra forte kkk Mas certamente existe inspiração na obra. Acredito que o próprio Aronofsky confirmou isso.

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Davi Lima 13 de abril de 2021 - 01:06

Cara apaixonado, tu e o Satoshi. Esse pesadelo usa o terror como artifício para se manter no onírico (acho que entendi certo kkkk), realmente parece uma experiência sensacional.

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Kevin Rick 13 de abril de 2021 - 14:08

É bem isso mesmo! O que mais acho interessante é como ele consegue manter a atmosfera inicial do terror da perseguição em enfoque, apesar da distorção da realidade. Ele vai trabalhando camadas irreais, mas nunca perde a construção da premissa. Não sei se me fiz tão claro, mas, vendo o filme, acho que um cineasta menos capaz tomaria a confusão como o elemento principal da obra, mas Satoshi a utiliza para dar injeções no pesadelo real, nunca fugindo da linha narrativa do início, mas expandindo ela, sabe? É sensacional.

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