Crítica | Perfume de Mulher

  • Há spoilers

Nunca parei para mentalmente enumerar as sequências mais inesquecíveis da Sétima Arte – seriam muitas e eu esqueceria de várias, provavelmente mais do que eu lembraria -, mas tenho para mim que a cena em que Al Pacino, vivendo o tenente-coronel aposentado e cego Frank Slade, tira Donna (a belíssima Gabrielle Anwar) para dançar tango ao som de Por una Cabeza em Perfume de Mulher seria facilmente uma delas. Não só a música é envolvente, como a sequência é magistralmente coreografada e Al Pacino mostra, novamente, o monstro dramatúrgico que é. Sozinho, esse momento já valeria todo o filme capitaneado por Martin Brest, mas há mais o que apreciar.

A história, baseada em romance de Giovanni Arpino, reúne um jovem estudante da prestigiosa Baird School, na Nova Inglaterra, com o amargo Slade por um final de semana prolongado em que o primeiro é contratado para tomar conta do segundo. O roteiro trabalha duas narrativas, uma que enquadra o filme, sendo abordada no começo e no final e outra que recheia seu miolo, mas ambas comunicando-se sem dificuldades como forma de criar o indelével elo entre os protagonistas. A narrativa que serve de prólogo e epílogo, por assim dizer, lida com Charlie Simms, vivido por Chris O’Donnell, o estudante de Baird que, sem querer, envolve-se na humilhação do diretor da escola e, diante de sua condição econômica bem diferente da de seus colegas, dentre eles George Willis, Jr. (o saudoso Philip Seymour Hoffman), torna-se potencial bode expiatório, com sua bolsa de estudos ameaçada. Não é esse problema que o leva a procurar o emprego temporário, mas é ele que nos leva à catarse necessária tanto para o jovem quanto para Slade. Recheando essa história, há a jornada de Slade pelo que ele imagina ser seus últimos dias de vida, já que seu plano é riscar uma lista de “coisas a fazer antes de morrer”. Para isso, ele leva o hesitante garoto, que, porém, nada suspeita, para Nova York e hospeda-se no Waldorf Astoria, então ainda o símbolo máximo de luxo na cidade, e começa a gastar dinheiro com o que a vida tem de melhor a oferecer.

Al Pacino é o dono do filme desde o primeiro segundo em que aparece diante da câmera e seu único(!!!) Oscar coroando sua profissão vem justamente daqui. Seu cego rabugento, irascível, machista e violento é absolutamente encantador, por mais incongruente que isso possa parecer. Apesar de conhecermos o ator, somos instantaneamente convencidos de sua cegueira em uma atuação genuína e muitas vezes hilária, o que automaticamente cria uma conexão com o Charlie de O’Donnell, já que o jovem ator é, basicamente, a claque para Pacino, com suas reações diversas às barbaridades que Slade fala sendo toda sua razão de ser no filme. E não falo isso em demérito a O’Donnell, mas convenhamos que, com Pacino literalmente mastigando o cenário a cada momento, ele não tinha muito o que fazer a não ser usar seus olhos azuis para mostrar-se assustado, comovido, intimidado, enraivecido e assim por diante ao longo da projeção, emoções que Slade, por sua condição, não pode mostrar da mesma forma.

Como é de se esperar, a química entre os dois – talvez justamente em razão dessa conexão – vai aumentando minuto a minuto e, não demora, o espectador é capaz de apreciar a dupla idiossincrática da forma que ela precisa ser apreciada: como pontos opostos, contrastes, como professor e aluno, aluno e professor em uma convergência de papeis belíssima que, claro, chega a seu ponto alto no discurso destruidor de Slade na escola de Charlie. Perfume de Mulher, ao utilizar a morte como pretexto, celebra a vida intensamente e Al Pacino é a encarnação desse sentimento em um papel que, diria, é tão intenso – apesar de bem diferente – quanto seu Tony Montana, em Scarface.

No entanto, exatamente como no icônico filme oitentista de Brian De Palma, Perfume de Mulher tem em sua duração seu calcanhar de aquiles. Não só o prólogo com Charlie na escola é longo e detalhado além da conta, como cada um dos itens da lista de Slade é abordado com todo o vagar possível, trazendo redundância temática para a narrativa. Chega um ponto em que ver Slade jantar ou dirigir uma Ferrari pelas ruas de Nova York torna-se apenas mais do mesmo em termos de enredo, sem que quase nada seja acrescentado ao desenvolvimento tanto da narrativa quanto dos personagens. Com isso eu não quero dizer de forma alguma, porém, que os diversos momentos da lista do ex-militar não são sensacionais, pois eles são. Como já deixei bem claro, Al Pacino está irresistível aqui. O ponto não é esse. A questão é que, em determinada altura, o roteiro de Bo Goldman não sabe podar as sequências, tratando todas com o mesmo grau de detalhe, algo que Brest, na decupagem, também não soube acelerar. Diria que entendo perfeitamente como deve ser difícil reduzir o tamanho das sequências com Pacino encarnando Slade, mas fica evidente que um trabalho mais duro e “frio” na montagem era necessário. Quando finalmente voltamos à Baird, para o epílogo, estamos cansados e o efeito do que Slade faz pelo garoto é inevitavelmente reduzido, ainda que seja capaz de fazer muita gente verter lágrimas de satisfação.

Perfume de Mulher é um filme devidamente apaixonado por ele mesmo e apaixonante por ser assim. Uma obra repleta de episódios inesquecíveis e de uma performance assustadora de Al Pacino que, porém, teria se beneficiado de mais velocidade. Por outro lado e traindo-me completamente, sei que se o filme tivesse mais uma hora de duração com uma versão estendida da sequência do tango, sairia da experiência com o mesmo sorriso no rosto que sempre saio ao revisitá-lo e que tenho no rosto nesse momento em que termino de escrever a crítica.

Ah, e para terminar, aqui está a sequência do tango para apreciação geral:

Perfume de Mulher (Scent of a Woman, EUA – 1992)
Direção: Martin Brest
Roteiro: Bo Goldman (baseado em romance de Giovanni Arpino)
Elenco: Al Pacino, Chris O’Donnell, James Rebhorn, Gabrielle Anwar, Philip Seymour Hoffman, Gene Canfield, Richard Venture, Bradley Whitford, June Squibb, Frances Conroy, Rochelle Oliver, Tom Riis Farrell, Nicholas Sadler, Todd Louiso, Matt Smith, Ron Eldard, Margaret Eginton, Sally Murphy, Michael Santoro, Julian Stein, Max Stein, Leonard Gaines
Duração: 156 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.