Crítica | Perigo Extremo (City on Fire)

Perigo Extremo é provavelmente mais conhecido como o filme que Quentin Tarantino copiou para fazer Cães de Aluguel, o que não só é uma inverdade, como retira os méritos de Ringo Lam e de seu primeiro longa realmente autoral, não mais como diretor de obras de terceiros e que influenciou o cinema de Hong Kong, incluindo e talvez especialmente Conflitos Internos, de Andrew Lau e Alan Mak e O Matador, de John Woo. Portanto, para afastar logo de uma vez eventual expectativas de comparação com o primeiro filme de Tarantino, basta dizer que sim, Perigo Extremo foi inspiração, claro, mas que daí a concluir de maneira afobada que houve “cópia” já são outros quinhentos.

Na obra, que se aproveitou da fama que Chow Yun-fat adquirira em Alvo Duplo, do ano anterior, o ator vive Ko Chow um policial infiltrado no submundo do crime que relutantemente aceita a missão de tentar desbaratar uma gangue de ladrões de joias fingindo ser traficante de armas de fogo, bens escassos para a profissão escolhida pelos marginais e que leva a um hilário (mas mortal) roubo de joia à ponta de faca mais no começo da projeção. No entanto, o diretor, que criou a história convertida em roteiro por Tommy Sham, não tem pressa alguma em acertar o foco de suas lentes. Ao contrário, ele trabalha em uma progressão lenta, que toma estradas sinuosas para chegar onde quer.

E essa jornada é estranha, para ser bem sincero. Trabalhando linearmente, Lam começa antes mesmo do envolvimento de Ko Chow na história, abordando o assassinato de outro policial infiltrado na máfia de Hong Kong, a existência da gangue das joias e a necessidade de se substituir o agente falecido por Chow imediatamente, o que, porém, não leva efetivamente ao impulsionamento narrativo que esperarmos. Ko Chow é uma espécie de “malandro”, vivendo como se ser infiltrado no submundo do crime fosse uma profissão como outra qualquer, o que empresta uma leveza que não tem lugar na história proposta. Além disso, há grande enfoque na vida pessoal de Chow, com a introdução de sua namorada, de um pedido de casamento que escandalizaria os politicamente corretos de hoje com a postura machista do sujeito e uma contínua abordagem do personagem como se ele não fosse mais do que um bon vivant que por acaso é policial e que mais por acaso ainda vive no fio da navalha entre duas forças opostas, mas sem nem perceber de verdade.

Contrastando essa aparente leveza – que nem é tão leve assim já que há uma execução à queima-roupa de dois policiais por bandidos diferentes – a bela fotografia de Andrew Lau emula os filmes noir, emprestando uma camada suja e sombria dos meandros marginais da então colônia britânica, o que aumenta ainda mais o abismo que separa o filme do personagem de Chow Yun-fat. É como se seu Ko Chow fosse uma anomalia, um comediante em meio a um drama pesado, sem que haja uma verdadeira cola narrativa. Mas, interessantemente, isso só continua até certo ponto.

Quando Chow passa a efetivamente incorporar o agente infiltrado que é, passando a negociar com a gangue e ao mesmo tempo a fugir da divisão policial que desconfia de suas ações, Perigo Extremo começa a realmente ficar interessante. A cenografia passa a ganhar mais destaque, notadamente na hoje famosa cena macabra do cemitério em que Chow literalmente enfia o pé em uma cova e tira uma caveira de lá, algo que é amplificado pela bela, mas ao mesmo tempo opressiva fotografia noturna, com direito a tomadas aéreas em plongée.  As perseguições também ganham mais ritmo e sensação de perigo, como a do metrô em que Ko Chow luta para despistar dois policiais de sua cola, em uma bela demonstração de agilidade da equipe de dublês.

É também a partir desse ponto que a conexão do protagonista com o bandido Fu (Danny Lee), da gangue das joias, dá um relevo interessante ao filme, muito mais importante e útil para a história  do que o relacionamento de Chow com sua namorada. Os laços de amizade desafiam os lados em que cada um está na vida e embaralha as cartas de forma a tornar a ação final em um armazém eficientemente tensa e dramática, ainda que Lam exagere absurdamente com a força policial que segue atrás da gangue.

Perigo Extremo é um filme que demora a se achar e perde tempo demais para armar uma narrativa que não tem nada de complexa. Quando, porém, a obra acha seu norte, a ação torna-se interessante em um crescendo constante e explosivo que prenderá o espectador no sofá até o fim. Seus sucessores dentro da temática de “policial infiltrado” até podem ser melhores, mas eles provavelmente não existiriam sem essa pequena pérola de Ringo Lam.

Perigo Extremo (Lung foo fung wan // City on Fire – Hong Kong, 1987)
Direção: Ringo Lam
Roteiro: Sai-Shing Shum (Tommy Sham), baseado em história de Ringo Lam
Elenco: Chow Yun-fat, Danny Lee Sau-yin, Sun Yueh, Carrie Ng, Roy Cheung, Maria Cordero, Fong Yau, Victor Hon, Kong Lau, Elvis Tsui, Wong Kwong-Leung
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.