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Crítica | Perigo por Encomenda

por Leonardo Campos
10 views (a partir de agosto de 2020)

Há muitas vantagens e desvantagens em conferir um filme muito tempo depois de seu lançamento. Na seara das desvantagens, deixamos de lado a nossa faceta de pessoa inserida nas atualidades, nos debates do contemporâneo, quentes e evidentes, algo que nos permite fazer parte de determinadas discussões acaloradas nas redes sociais, sem parecer alienado. Por outro lado, quando conferidos com algum distanciamento, alguns filmes se tornam mais interessantes do que eram em seus momentos históricos de lançamento. Perigo por Encomenda não é uma grandiosa obra-prima da estética, tampouco na expressividade de questões dramáticas, terreno que envolve diálogos, conflitos de personagens e desenvolvimento da ação.

É um filme para entretenimento, observado como uma produção para ser esquecida assim que os créditos finais se apresentam. Ao menos foi o que li, inclusive em críticas de nomes já estabelecidos no campo da reflexão cultural, na ocasião de busca por informações sobre a produção, pois havia terminado um livro sobre a história das bicicletas e acompanhado uma reportagem sobre ciclismo e meio ambiente. Pensei ser uma classificação muito redutora, coisa da nossa crítica de cinema nem sempre bem preparada, voltada exclusivamente para os elementos externos de uma narrativa cinematográfica, mas sem levar em conta as suas potencialidades diante do contexto histórico que a sustenta. Dizem que para determinadas ilações, é preciso ter algum background, então também é possível que Perigo por Encomenda por causa das leituras recentes que remontavam ao contexto abordado pelo filme. Será?

Com direção de David Koepp, cineasta guiado pelo roteiro escrito em parceria com John Kramps, Perigo por Encomenda nos apresenta, ao longo de seus frenéticos 91 minutos, a trajetória cotidiana do carismático Wilee (Joseph Gordon-Levitt), mensageiro que montado em sua bicicleta, corta as ruas de Nova Iorque como se estivesse num videoclipe da era MTV. É tudo muito agitado, colorido, sonoramente sofisticado, tudo em prol do entretenimento do público que deseja acompanhar as peripécias que serão colocadas no caminho de um jovem cheio de obstáculos para driblar. Na gíria popular, ele é um “fixeiro”, ciclista que trafega com a bicicleta sem freios e com algumas outras alterações estruturais que a tornam “envenenada”, uma verdadeira máquina de transporte para alguém que atravessa o caudaloso trânsito novaiorquino.

Tal como o personagem de Kevin Bacon em Quicksilver – O Prazer de Ganhar, Milee é um rapaz envolvido numa modalidade formal de educação, isto é, o curso de Direito, diploma em via de ser entregue, pois será preciso apenas a realização do exame que aqui no Brasil, chamamos da famosa prova da OAB. No filme dos anos 1980, o protagonista abandona a formalidade depois de uma derrocada financeira e profissional, algo que no desenvolvimento de Perigo por Encomenda, é apresentado de maneira diferenciada, mas com necessidades dramáticas relativamente parecidas. Nada é mais interessante para Milee que atravessar a cidade, computar o máximo de entregas como se estivesse num game com acumulação de pontos e manter contato com Vanessa (Dania Ramirez), sua ex-namorada, também ciclista entregadora.

O paralelo com a narrativa protagonizada por Kevin Bacon também ganha um elo na relação de Milee com seu antagonista, Manny (Wolé Parks), outro jovem ambicioso que cobiça não apenas a fama de excepcional de seu concorrente, mas a ex-namorada que o rapaz tenta reconquistar de alguma forma ao passo que o filme se desenvolve. Para incrementar o time de coadjuvantes ou presenças meramente figurativas, mas importantes, temos o agente de trânsito bobalhão que não acerta nenhuma ao tentar controlar as rápidas incursões de Milee em seu deslocamento pela cidade. Aqui, as autoridades não cumprem devidamente o seu trabalho, seja por incompetência ou corrupção. No quesito competência, o agente de trânsito descumpre as suas funções mais básicas. O lado corrupto fica por conta Bobby Monday (Michael Shannon).

É graças ao personagem de Shannon, um policial envolvido num viciante esquema de jogos que o leva a uma derrocada imensa, que o filme se chama Perigo por Encomenda. Ele se torna o grande desafiador de Milee ao tentar de toda maneira, tomar o envelope de uma das entregas mais rentáveis do rapaz no dia específico de desenvolvimento da narrativa. Com a inserção dos efeitos visuais da equipe supervisionada por Paul Linden, acompanhamos essa jornada interessante, repleta de elementos expostos na tela, como se estivéssemos diante do Google Maps and Navigation, mesclado com as previsões e cálculos de Milee diante de cada passo dado nas bifurcadas ruas da cidade, sempre tomadas por automóveis, motociclistas, pedestres, semáforos e sinalizações quase nunca obedecidas conforme as previsões legais.

É um recurso que pode soar como puro entretenimento, mas traz para o filme questões muito interessantes para discussões sobre mobilidade urbana, comportamento juvenil e modalidades de trabalho no contemporâneo, era da chamada uberização das relações empregatícias, análogas aos regimes escravocratas. É como se o século XX resgatasse práticas de submissão do tenebroso século XIX. Instigante observar que se visto apenas na seara da diversão, Perigo por Encomenda pode ser erroneamente pensado como apenas mais uma aventura sobre um jovem extravasante numa bicicleta que funciona como expressão da radicalidade de sua atual existência. O filme é isso, mas diferente do mencionado na introdução desta reflexão, pode ir além, pois uma narrativa não se esgota necessariamente no momento em que os créditos sobem.

Conferir a narrativa de aventura com muitos momentos de ação é também refletir sobre a uberização que tem afundado atualmente as relações de trabalho no capitalismo cada vez mais opressivo e obscuro. E o filme apresenta, mesmo que sem a devida intenção, a maneira como os jovens envolvidos neste segmento, acreditam gozar dos privilégios de não ter um patrão. Nessa falsa crença, eles imaginam ter controle de todo o processo de agendamento do trabalho, ilusão que é bem a cara do neoliberalismo. O que muitos como Milee não percebem é que estão inseridos na mais profunda precarização do trabalho, um segmento onde muitos são menores, não possuem contrato ou qualquer documento que assegure um acidente de trabalho.

As empresas que se responsabilizam pelos aplicativos criam a intermediação entre as partes e julgam fazer o bem numa era de altas taxas de desemprego, mas esse cenário de informalidade só favorece aos grupos que lucram em cima das baixas taxas pagas aos seus empregados que trafegam numa via de ilusões, movidos pelo adulterado combustível do capitalismo tardio: vão além dos seus limites físicos, pois é preciso bater a meta para ser um campeão, creem no livramento do chefe ou dos horários fixos tradicionais, mas descambam na própria lógica da tecnologia que os define por análise dos usuários, dentre outras particularidades que demonstram um cenário bem ilustrado em Perigo por Encomenda: você pode até acumular alguns trocados para conseguir se manter, mas no final do dia, a garantia maior são alguns machucados que podem deixa-lo no hospital, à beira da morte, num custo adicional para os sistemas de saúde de ordem pública. É uma conta que não fica barata para ninguém.

Ademais, para funcionar bem enquanto entretenimento, o filme conta com a edição da dupla formada por Jill Savitt e Derek Ambrosi, setor que calcula bastante cada milímetro dos enquadramentos da direção de fotografia de Mitchell Amundsen, igualmente movimentada, tendo em vista dar conta das acrobacias que não partem exclusivamente dos efeitos visuais computadorizados. Os figurinos de Luca Mosca trajam bem os personagens diante de suas funções dramatúrgicas urbanas e com alta exigência de desempenho físico, elementos que configuram peças fundamentais da narrativa, acompanhadas pela trilha sonora pop, o que aqui significa, dinâmica e polifônica, assinada por Dave Sardy, equipe responsável por trazer para o resultado final do filme de David Koepp, a badalação de um videoclipe com a atmosfera de um videogame divertido e agitado, tal como trânsito das travessas novaiorquinas.

Perigo por Encomenda (Premium Rush) — EUA, 2012
Direção: David Koepp
Roteiro: David Koepp, John Kramps
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Kelvin Whui, Kym Perfetto, Lauren Ashley Carter, Lyman Chen, Marc Bicking, Mark J. Parker, Matthew Rauch, Michael Morana, Michael Shannon, Mikey Miles, Naeem Uzimann, Nancy Eng
Duração: 91 min.

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