Crítica | Perry Mason – 1X01: Chapter One

Perry Mason não é um personagem muito conhecido no Brasil ou em outros países que não sejam os Estados Unidos, mas, lá, ele é uma verdadeira instituição, com seu autor, Erle Stanley Gardner, tendo escrito nada menos do que 82 romances (sendo que dois publicados postumamente) e quatro contos entre 1933 e 1973, com o advogado/detetive ganhando seis longas pela Warner entre 1934 e 1937, uma adaptação radiofônica que durou 12 temporadas entre 1943 e 1955 com nada menos do que 3 mil episódios, uma série de TV de nove temporadas e 271 episódios entre 1957 e 1966 estrelando Raymond Burr no papel-título, um revival mal-sucedido de apenas 15 episódios entre 1973 e 1974 com Monte Markham e um inacreditável revival da série original dos anos 50 e 60 com nada menos do que 26 telefilmes novamente com Burr como Mason entre 1985 e 1993, com mais quatro com personagens coadjuvantes depois do falecimento do ator em 1993. Ufa!

Portanto, não foi surpresa alguma quando o retorno de Perry Mason às telinhas patrocinado pela HBO, 10 anos depois que Robert Downey Jr. comprou os direitos sobre o personagem e tentou vivê-lo, tendo que abrir espaço para Matthew Rhys em razão de problemas de agenda, foi um sucesso absoluto de audiência, o maior em dois anos da produtora, dois anos esses, aliás, bem movimentados, com grandes produções que foram soterradas pelo detetive de quase 90 anos de idade. Perdendo Nic Pizzolatto como showrunner em razão da 3ª temporada de True DetectiveRolin Jones e Ron Fitzgerald (ambos com Weeds e Friday Night Lights no currículo) embarcaram no projeto e encabeçaram o que parece ser uma “história de origem” para o famoso personagem.

Não que o episódio inaugural comece exatamente do começo, ao contrário até, mas ele oferece uma riqueza de detalhes sobre a vida pregressa de Mason que parece ter como objetivo estabelecer uma personalidade muito própria a ele e diferente do vasto material televisivo que veio antes. Aqui, o clima noir permeia toda a obra, com uma Los Angeles suja e corrupta entre o final de 1931 e começo de 1932, com um crime macabro envolvendo o assassinato de um bebê. Mason é contratado pelo magnata Herman Baggerly (Robert Patrick) para investigar paralelamente à polícia graças à intermediação do amigo de sua família Elias Birchard ‘E.B.’ Jonathan (John Lithgow iluminando os cenários como de costume), que se compadece por seu estado deplorável, com roupa maltrapilha, entrega à bebida e a quase pobreza absoluta que coloca a propriedade de sua família – uma fazenda caindo aos pedaços – em perigo.

O episódio é mesmo introdutório de Mason e não do caso em si, já que ele só ganha foco de maneira marginal ao longo de toda a duração, com exceção dos minutos finais em que a ação entre bandidos ganha ênfase, com revelações importantes para o espectador, mas não para o protagonista. Seja como for, a contextualização da Lei Seca, do divórcio de Mason, que tem um filho que não pode ver, de seu passado obscuro no exército e de seu caso de conveniência com Lupe (Veronica Falcón), dona do aeroporto do outro lado da cerca de sua casa, vestem muito bem o personagem que Rhys tenta construir, sendo emblemática a cena em que ele revira as sacolas de pertences de mortos no IML local para escolher uma gravata nova, que ele “compra” do legista. Além disso, sua moral é no mínimo dúbia considerando o esquema de extorsão que ele e seu colega de profissão Pete Strickland (o sempre bonachão Shea Whigham) tentam impor a um dono de estúdio de cinema.

Com uma fotografia escura que emula visualmente o estado físico e psicológico do protagonista, além da podridão da cidade que o cerca, o episódio é muito eficiente em reconstruir o centro de Los Angeles nas imediações da localização original do famoso Angel’s Flight, um funicular de cor berrante que ligava as ruas Olive e Hill e que hoje é uma atração turística a um quarteirão de distância. Os interiores são também cuidadosos, especialmente a casa dos Dodson, pais do bebê morto e que pagaram um resgate que parece ser bem mais alto do que sua condição financeira permitia, além das instalação dos estúdio que Mason tenta chantagear, mas com resultados menos do que ideais só para usar um eufemismo.

A pegada, porém, é violenta e bastante gráfica a começar do próprio bebê que ganha alguns segundos tenebrosos de exposição detalhada que eu confesso não sei se eram necessárias para amplificar a atmosfera de ruína moral da cidade. Mas talvez faça parte da tentativa da dupla de showrunners de realmente diferenciar esse Perry Mason especialmente da versão que Raymond Burr viveu por anos a fio, além de trazer elementos que talvez sejam mais esperados – não saberia dizer bem o porquê – pelo público moderno.

Com um elenco coadjuvante de alto gabarito, mas que funciona organicamente para destacar ainda mais Matthew Rhys em seu trabalho meticuloso para ser seu próprio Mason, o episódio inaugural de mais esse revival de Perry Mason, 27 anos desde a última vez em que ele apareceu nas telinhas, promete muita diversão sombria para quem tiver apetite por um noir clássico com doses extras de violência gráfica. Eu sei que fiquei curioso!

Perry Mason – 1X01: Chapter One (EUA, 21 de junho de 2020)
Showrunners: Rolin Jones, Ron Fitzgerald (baseado em personagem criado por Erle Stanley Gardner)
Direção: Tim Van Patten
Roteiro: Rolin Jones, Ron Fitzgerald
Elenco: Matthew Rhys, Shea Whigham, John Lithgow, Juliet Rylance, Nate Corddry, Gayle Rankin, Andrew Howard, Eric Lange, Veronica Falcón, Robert Patrick
Duração: 56 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.