Crítica | Perry Mason – 1X02: Chapter Two

Este aqui definitivamente não é o Perry Mason de nossos avós e pais. Não só essa versão exacerba o lado detetivesco do personagem, sequer mencionando se ele é ou não advogado como nos livros e séries, como a minissérie oferece uma narrativa de origem, mas sem começar do começo e sim dando estofo e um peso grande para o personagem abatido e sofrido de Matthew Rhys que vemos na telinha.

Isso fica muito evidente logo na tomada inicial, um flashback para a Primeira Guerra Mundial com o soldado Perry Mason levando seus comandados para o fronte em uma excelente sequência que lembra os melhores filmes de guerra, desde o clássico moderno O Resgate do Soldado Ryan até o recente 1917, passando pelos sensacionais Glória Feita de Sangue e Sem Novidade no Front. A brutalidade é chocante, assim como o impacto em Mason que vê seus colegas sendo mortos e despedaçados ao seu redor, com uma condução soberba de Tim Van Patten. Quando retornamos para o presente, vemos o já detetive quase em estado de mendicância, em uma tomada que por alguns segundos nos deixa dúvida do que está acontecendo, somente para revelar que ele aguarda a abertura da loja de costura para investigar a origem do fio que retirou dos olhos do bebê assassinado, algo que nos relembra do macabro por um lado e, por outro, mantém a potência e o horror da cena de guerra.

E a estirada narrativa do episódio continua com o corte seguinte para o verdadeiro teatro da irmã Alice McKeegan, líder da Assembléia Radiante de Deus, uma das igrejas evangélicas que começaram a tomar a Califórnia nos anos pós-Crise de 1929 por razões óbvias. Apresentando oficialmente Tatiana Maslany na série, o momento é, em termos visuais, o exato oposto das sequências no fronte e na calçada em Los Angeles, com muita luz, muito branco, muita empolgação e muita energia, algo que fica palpável pelo suor na testa da personagem inspirada na irmã Aimee Elizabeth Semple McPherson, considerada como pioneira no uso de tecnologia moderna de massa em missas.

É também aqui que o promotor público Maynard Barnes (Stephen Root) e o policial Paul Drake (Chris Chalk) são apresentados. O primeiro faz as vezes de rival do advogado veterano E.B. Jonathan, vivido por John Lithgow, com os atores soltando faíscas nos enfrentamentos diretos, mas sempre educados e o segundo é um personagem clássico dos livros de Erle Stanley Gardner e que, como policial de tino detetivesco que ele não pode exercer por ser negro, certamente será vital para as investigações de Mason e a inevitável incriminação dos detetives corruptos. São duas adições de peso ao elenco que, com Maslany na equação, torna a minissérie desde já um evento imperdível.

Assim como a continuidade dos flashbacks para a guerra vai fazendo o espectador entender não só o que fez Mason ser expulso das Forças Armadas, como também contribui para que seu espírito destruído, entregue à bebida, falido e sem forças sequer para amarrar direito uma gravata seja contextualizado. E é claro que sua moralidade fica balançada, algo que o primeiro episódio já havia demonstrado, mas que, aqui, começa a ganhar outros contornos, como sua pequena conspiração com E.B. ou sua disposição em furtar provas ou plantar testemunhas falsas para livrar seu cliente. Essa dualidade do personagem, que Rhys encarna com excelência, talvez seja um dos aspectos mais fascinantes da série, que torna a aproximação e identificação com Mason mais penosa e não completamente sem custos éticos e morais do próprio espectador.

Estruturalmente, a minissérie tem evitado empilhar mistérios. Não só o envolvimento dos detetives já foi determinado, como agora sabemos mais do casal Dodson cujo filho foi morto. Eles podem não ter envolvimento direto no assassinato, mas suas reputações já foram devidamente destruídas pela polícia querendo um culpado a todo custo, sem pesar as consequências. Agora como isso se encaixa com a igreja evangélica e a personagem de Maslany (ela olhou diretamente para Mason por reconhecê-lo?) para além de Matthew Dodson ser filho bastardo de Herman Baggerly, teremos que esperar ansiosamente para descobrir em um delicioso processo de descortinamento de crime que não economiza das imagens pesadas, na violência gráfica e em caracterizações e reconstruções de época de se tirar o chapéu.

Certamente esse novo Perry Mason trará estranhamento para quem for apegado ao original, mas não há dúvida de que o caminho que a série desenvolvida por Rolin Jones e Ron Fitzgerald está sendo muito bem pavimentado em mais um exemplar de gabarito da HBO. Só nos resta chafurdar com prazer nesse lindo lamaçal angeleno dos anos 30.

Perry Mason – 1X02: Chapter Two (EUA, 28 de junho de 2020)
Showrunners: Rolin Jones, Ron Fitzgerald (baseado em personagem criado por Erle Stanley Gardner)
Direção: Tim Van Patten
Roteiro: Rolin Jones, Ron Fitzgerald
Elenco: Matthew Rhys, Shea Whigham, John Lithgow, Juliet Rylance, Nate Corddry, Gayle Rankin, Andrew Howard, Eric Lange, Veronica Falcón, Robert Patrick, Tatiana Maslany, Stephen Root, Chris Chalk
Disponibilização no Brasil: HBO
Duração: 56 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.