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Crítica | Perry Mason – 1X03: Chapter Three

por Ritter Fan
281 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Perry Mason se passa em 1930, quase 100 anos no passado, e é absolutamente patético notar como as críticas sociais aplicáveis perfeitamente à época ainda ressonam hoje em dia, estando presentes na realidade do cotidiano de todos nós. Se o circo midiático ao redor do macabro assassinato do bebê do primeiro episódio é lugar comum e algo que se espera da imprensa sanguinária, sensacionalista e facilmente manipulável por aqueles em posição de poder, a abordagem sobre o “papel” da mulher na sociedade é algo que tende a passar despercebido e até encarado com naturalidade.

Emily Dodson é adúltera. Ela mesmo reconhece isso e sente o terrível peso de suas ações, inclusive declarando-se culpada desse “pecado” em pleno tribunal. Não ajuda em nada que seu amante teve envolvimento no sequestro e morte de seu filho, mas é o mero fato de ela ter traído o marido que a coloca sob os holofotes. A decorrência é lógica: se ela fez o que fez com o coitado do marido inocente, então ela obviamente cometeu o hediondo assassinato. A forma como o terceiro episódio de Perry Mason lida com essa questão é kafkiana e realmente desesperadora. Emily está presa e já condenada pela mídia, pelo promotor público Maynard Barnes e por suas próprias colegas de encarceramento. Ela não tem saída e a únicas pessoas que enxergam isso com clareza parecem ser Irmã Alice, em uma postura que aparentemente contraria os manda-chuvas de sua igreja (inclusive sua mãe) e Della Street, assistente de E.B. que é o símbolo da resistência silenciosa.

Se o espectador tinha alguma dúvida sobre o labirinto de Emily, ela é dissipada completamente quando Della a encontra sendo torturada pelos policiais corruptos e assinando o que muito claramente é uma confissão. E a própria mãe adúltera pecadora não tem sequer forças para revidar, para negar o que fez, para minimante encarar com dignidade sua posição. No que diz respeito a ela, o jogo acabou e sua culpa é tamanha que só lhe resta aceitar passivamente tudo o que jogarem em cima dela.

Ah, mas hoje em dia isso não aconteceria! Sim, claro. Hoje em dia em Oz ou em Nárnia, talvez. Muito talvez, aliás… O que se cobra da mulher na sociedade dita moderna não é muito diferente do que se cobrava dela na época da série e deixar de enxergar isso é simplesmente ignorar um dos pontos que Perry Mason vem marcando desde seu início. E é muito interessante como os showrunners não tentam suavizar a questão no que diz respeito ao personagem titular. Não só ele conspirou off camera com E.B. no episódio anterior para vazar as cartas comprometedoras de Emily com seu amante somente para libertar Matthew, como ele é tão cego pela busca pela solução do crime que ele não percebe as consequências negativas imediatas para a mãe presa.

A outra forte crítica social que gira em torno do preconceito racial e que é representada pela forma como Paul Drake é tratado pelos detetives corruptos também ganha bom destaque aqui, com o policial inclusive sofrendo pressão de sua própria esposa, mas não por medo da ameaça nada velada de Ennis, mas sim pela conformidade com o status quo. Em outras palavras, Paul não deve fazer absolutamente nada, curvando-se aos corruptos, não porque sua esposa e seu filho nascituro podem sofrer consequências, mas sim porque ele não deve criar marolas para sua situação social, que é melhor do que a de afro-descendentes que são faxineiros, porteiros etc. Mais uma vez vemos os showrunners dificultando tudo para o espectador. Pelo menos essa pressão errônea que Drake sente o leva ao caminho certo, fazendo uma breve parceria com Mason que coloca o detetive na direção certa, finalmente compreendendo que os bandidos que foram encontrados mortos não estavam sozinhos e não foram mortos por George Gannon.

Mas talvez o ponto alto do episódio tenha sido o diálogo entre Perry Mason, todo sujo e desgrenhado e a Irmã Alice toda angelical e poderosa, recebendo vitaminas (será mesmo?) de forma intravenosa. O palavreado pesado de Mason surpreende os demais presentes, inclusive o médico que cuida de Alice, mas a própria Alice vê valor ali e responde à altura, mas sem desrespeitar o detetive. No contraste absoluto, a conexão foi formada e Tatiana MaslanyMatthew Rhys conseguem brilhar mais ainda em seus respectivos papeis.

No entanto, como se isso não bastasse, ainda somos brindados com um teatro evangélico que leva a Irmã Alice ao que pode ser um transe ou um ataque epiléptico ou algo do gênero que a direção de Tim Van Patten brilhantemente deixa na ambiguidade, mantendo o espectador tão confuso e perdido quanto a plateia ao redor. A promessa de ressurreição do bebê Charlie e  a tomada final com Alice no bote, boiando em mar calmo, aponta para uma narrativa cheia de simbologia e aprofunda o mistério exatamente no momento em que ele começa a ser solucionado.

Perry Mason vem se mostrando surpreendente. Não só o que a série vem entregando é incomum em termos de protagonista, com um homem de moral dúbia (só para usar um eufemismo), pisoteado pela vida e aparentando um mendigo, como a cada episódio da curta minissérie – que já quero que seja a primeira temporada de várias – novos e diferentes elementos são acrescentados à história principal, sem deixar a peteca da crítica social cair sequer por um minuto. Não sei se o bebê Charlie ressuscitará, mas com certeza o nonagenário Perry Mason ganha uma nova vida com o que parece ser mais um grande acerto da HBO.

Perry Mason – 1X03: Chapter Three (EUA, 05 de julho de 2020)
Showrunners: Rolin Jones, Ron Fitzgerald (baseado em personagem criado por Erle Stanley Gardner)
Direção: Tim Van Patten
Roteiro: Rolin Jones, Ron Fitzgerald
Elenco: Matthew Rhys, Shea Whigham, John Lithgow, Juliet Rylance, Nate Corddry, Gayle Rankin, Andrew Howard, Eric Lange, Veronica Falcón, Robert Patrick, Tatiana Maslany, Lili Taylor, Stephen Root, Chris Chalk
Disponibilização no Brasil: HBO
Duração: 60 min.

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6 comentários

Alan 8 de julho de 2020 - 13:25

Sei que sou um peixe fora d’água, mas o que vale é a conversa.

Desde o começo eu não estou curtindo tanto a série. Amo a temática, a minha “formação” literária é noir da década de 30 a 50, principalmente com autores americanos. Muito tempo depois que fui descobrir o cinema dessa época, que sou completamente apaixonado. Porém, a série não desceu muito bem. Estão ali todos os elementos que cansei de ler e ver em outras obras.

Conheço pouco do Perry Mason, mas esse possível prelúdio já me desagrada, pois tirou a essência do personagem (talvez eu deveria ser menos “puritano”, sei que a culpa é minha).

As atuações são acima da média, alguma muito boas. A ambientação de época é boa, apesar do primeiro episódio ter cenas na rua que pareciam que estavam sendo feita por uma emissora minúscula, de tão fajuta que foram.

Acho que a mim, o roteiro que não me prende. Esse terceiro episódio teve horas que eu pensei que o diretor e roteirista de Green Book que estavam a frente do episódio (isso não é um elogio :).

A minha parte de fã desse tipo de história que me fez voltar ao segundo e terceiro episódio e que talvez me leve a voltar ao quarto e quem sabe ir até o final da série. Porém, a minha parte crítica desde a metade do primeiro já pede para deixar de lado.

Acredito que pelo menos o quarto episódio eu verei, mas já está naquela “verei quando me lembrar, se me lembrar”.

Aos que ficam e que estão gostando, saibam que eu tenho inveja de vocês.

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planocritico 8 de julho de 2020 - 13:56

Mas você não gostou do roteiro ou da mudança de essência? Ou os dois? Pois você começa dizendo que tem tudo que as obras noir têm, então considerei como elogio. Sobre a essência, não tenho apego alguma a Perry Mason, então não consigo dizer se mudou ou se efetivamente mudou, isso me causaria incômodo. O que eu vejo é que esse Perry Mason aí da série eu estou gostando muito.

E eu não entendi a comparação com Green Book. Pelo racismo? Pela maneira como Paul Drake volta atrás?

Abs,
Ritter.

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Alan 8 de julho de 2020 - 16:22

Ficou confuso mesmo.

O que me prende é a temática noir, em vários momentos é uma homenagem ao estilo noir. Isso é o que me agrada demais. Porém, a execução em alguns momentos não me agradam ou não me prendem.

Me incomoda o fato do Perry Mason ser um exímio advogado e não um investigador. De alguma forma isso mexe com os meus neurônios. Talvez, se o personagem fosse o Marlowe ou o Lew Archer eu ficaria mais receptivo. Não sei.

A comparação com o Green Book foi a forma extremamente didática para tratar de assuntos polêmicos, achei simplista demais e forçado. A fala feminista da assistente do advogado sobre a Emilly foi um texto pronto, quase um control C control V de alguma rede social. Não estou falando que não deve ter crítica social, acho que deve ter, mas achei muito forçado, muito piegas.

Sobre o Drake voltar atrás também achei uma cena que já vimos centenas de vezes e foi mais do mesmo. Primeiro momento ele fica com pé atrás, depois é ameaçado, ai a companheira fala algo contrário a moral do personagem que todos já sabem, corta para ele ainda em dúvida, mas temendo a dúvida e no final ele vai para o caminho dos corretos.

Essa estrutura é usada a exaustão, o que não é pecado, mas alguns conseguem fazer que isso seja de forma mais sutil, orgânica. Já no Perry Mason foi tudo em um episódio.

Enfim, não estou gostando mais do desenvolvimento da história, das escolhas de roteiro e direção.

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planocritico 9 de julho de 2020 - 15:50

Ah, entendi seus pontos. Eu não me incomodo em nada com Mason ser um investigador particular aqui. Acho até que combina mais com a proposta. Vai que ele já é um advogado e só não quer exercer a profissão por ter PTSD e talvez com a morte do E.B. isso acabe acontecendo? Sei lá, estou chutando aqui e, mesmo que isso não aconteça, não me importo em nada.

Sobre a questão dos textos “de rede social”, sim, consigo ver exatamente o que você diz na série e de fato você tem razão em salientar esse ponto. Talvez o roteiro não esteja sabendo inserir os assuntos de maneira mais fluida na história e aí fica sem “espaço” para algo mais elaborado do que algumas frases soltas. Vamos ver se isso melhora.

Já sobre o Drake, é um clichê, mas faz sentido depois da pressão que ele sofre não do policial, mas da esposa. Aquilo eu achei bem inusitado e diferente, eu diria.

Abs,
Ritter.

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welligton 6 de julho de 2020 - 23:50

serie ta muita boa ate aqui

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planocritico 7 de julho de 2020 - 18:49

Muito boa MESMO.

Abs,
Ritter.

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