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Crítica | Perry Mason – 1X05: Chapter Five

por Ritter Fan
136 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Aqueles que porventura tenham virado o nariz para o “Perry Mason detetive particular sujo e desgrenhado muito diferente do original” não sabem o que estão perdendo. O capítulo cinco da sensacional minissérie da HBO vem confirmar aquilo que eu já vinha dizendo em críticas anteriores: trata-se, definitivamente, de uma história de origem. É aqui que nasce o Perry Mason como o conhecemos dos romances de Erle Stanley Gardner e de seus filmes e séries de TV clássicas e essa origem é de se aplaudir de pé.

Afinal, os showrunners Rolin Jones e Ron Fitzgerald não tiveram pressa alguma em trabalhar seu protagonista, estabelecendo-o vagarosamente como um homem financeira, pessoal e moralmente falido que praticamente não tem mais força de vontade para nada a não ser fazer bicos de detetive particular aqui e ali e que vive em sua fazenda de família caindo as pedaços, vestindo-se com ternos puídos e tendo um caso de conveniência com a dona da pista de pouso em frente que, não coincidentemente, quer comprar sua moradia. O jogo foi muito bem jogado ao longo de quatro episódios que também colocaram em cena, com destaque, o orgulhoso advogado E.B. Johnson e sua espertíssima e sofisticada assistente Della Street, tendo Mason com o terceiro vértice desse triângulo improvável.

É o suicídio de E.B. que, ironicamente, faz todas as peças se encaixarem à perfeição. Vemos Perry e Della trabalhando em sincronia para transformar a morte escolhida em morte por causas naturais por uma questão de respeito ao advogado e também para enganar a seguradora – há a justiça e há o que é certo, afinal de contas -, descobrimos que E.B. há muito não via seu filho e netos, o que automaticamente leva Perry a visitar seu próprio filho e a perceber que não quer acabar como seu amigo e empregador, como que se víssemos o nascimento de um novo propósito em sua vida. Por outro lado, com a indicação de um advogado “amigo do promotor” para substituir E.B. na defesa de Emily, vemos Della firme na missão de conseguir alguém que realmente abraçará a causa e não um vendido que entregará tudo de bandeja para a acusação. Essa combinação astral e a capacidade de Della de pensar rápido, sua rede de conhecimentos e sua compreensão de que fazer o certo – e não exatamente o que a lei manda – é realmente o caminho a seguir, levam ao nascimento meteórico de Perry Mason, o advogado.

Alguns poderão dizer que tudo foi rápido demais, conveniente demais. E eu compreenderei, ainda que discordando veementemente. Tudo precisava acontecer assim. Tudo foi construído para acontecer assim. O suicídio de E.B. foi o ponto de virada e Perry Mason e Della Street já tinham toda a construção que precisavam para se juntarem nessa empreitada que, se pararmos para pensar, era inevitável e perfeitamente lógica. Ah, mas ela conhecia um assistente da promotoria que queria derrubar Maynard e que aceitou “passar cola” da prova da Ordem para Mason! – alguns gritarão revoltados. E SIM, eu responderei feliz. Não há nada nessa minissérie que aconteça de forma limpa, bonita e de acordo com a lei. A conversão de Mason de detetive particular a advogado não poderia de forma alguma acontecer de acordo com as regras, pois aí sim a premissa da narrativa ser pervertida. E também não seria nada interessante que ele passasse por todo um longo processo natural, por assim dizer, até chegar ao juramento que faz ao final. E sim, Della Street foi estabelecida como uma pessoa dinâmica, com uma rede de contatos extensa e eu ainda diria que, se duvidar, o assistente da promotoria, assim como ela, é gay, e que ela o conhece justamente por essa circunstância que, na década de 30, ainda era um escândalo absoluto (não que não seja ainda hoje na mente de alguns). As peças estavam todas lá apenas esperando para serem pinçadas e encaixadas no quebra-cabeças e elas o foram sem movimentos em falso e, ainda por cima, com Matthew Rhys e Juliet Rylance simplesmente arrebentando em suas respectivas performances.

Claro que, narrativamente, o roteiro de Eleanor Burgess promoveu outros três acontecimentos que casaram com a epifania de Della em relação a Perry, algo natural em capítulos de mudança de status quo como este. Vemos a Irmã Alice usar sua influência para fazer com que sua igreja, custe o que custar em termos de reputação, pagasse a fiança de Emily; vemos o detetive corrupto Ennis inadvertidamente converter Pete, de um cara interessado apenas em dinheiro e mulheres, em alguém que fará o que for necessário para colocar esses bandidos atrás das grades e, finalmente, vemos a esposa de Paul Drake finalmente entender que não é mais possível aceitar a segregação passivamente, dando o último empurrão no marido para fazer o que é certo. Há até mesmo tempo para vermos um excelente momento em que Tatiana Maslany faz um paraplégico andar como prelúdio da promessa de sua personagem de ressuscitar o bebê Charlie e como uma metáfora para o próprio Perry Mason renascendo, em uma condução exemplar de Deniz Gamze Ergüven na direção não só usando belíssimos jogos de sombra nessa sequência, como também sabendo equilibrar os tempos de tela de cada personagem e de cada linha narrativa.

Faltando apenas três episódios para acabar – e já digo logo que a minissérie deixará saudades se não se tornar uma série – Perry Mason promove grandes alterações que, porém, estavam lá o tempo todo e só precisavam de mais uma tragédia para acontecerem. Não é sempre que vemos uma obra de origem tão densa e tão magnificamente desenvolvida como esta aqui. Agora é só relaxar e esperar Perry, Della, Pete e Paul trucidarem com os vilões.

Perry Mason – 1X05: Chapter Five (EUA, 19 de julho de 2020)
Showrunners: Rolin Jones, Ron Fitzgerald (baseado em personagem criado por Erle Stanley Gardner)
Direção: Deniz Gamze Ergüven
Roteiro: Eleanor Burgess
Elenco: Matthew Rhys, Shea Whigham, John Lithgow, Juliet Rylance, Nate Corddry, Gayle Rankin, Andrew Howard, Eric Lange, Veronica Falcón, Robert Patrick, Tatiana Maslany, Lili Taylor, Stephen Root, Chris Chalk
Disponibilização no Brasil: HBO
Duração: 56 min.

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