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Crítica | Perry Mason – 1X08: Chapter Eight

por Ritter Fan
1492 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Considerando o finalzinho do oitavo episódio, em que vemos os futuros de Perry Mason, Della Street, Pete Strickland e Paul Drake serem devidamente delineados – inclusive com o aparecimento de Eva Griffin, a primeira cliente do advogado nos livros de Erle Stanley Gardner em uma excelente referência que faz a ponte perfeita entre a origem que vimos aqui e o cânone literário -, fica evidente que os showrunners tinham esperança de que a minissérie seria transformada em série, o que, ainda bem, acabou realmente acontecendo. Não que ela não pudesse acabar neste ponto, mas seria um enorme desperdício de potencial se ficássemos só com os oito excelentes episódios que marcam a transformação de Perry de detetive desgrenhado em advogado engenhoso.

Considerando que o episódio anterior montou o quebra-cabeças completo do assassinato do bebê Charlie, cabia ao derradeiro capítulo encerrar o caso perante o Tribunal, uma tarefa dificílima considerando a quantidade de informações que ainda não haviam sido introduzidas para o juiz e os jurados. No entanto, o roteiro que os showrunners Rolin Jones e Ron Fitzgerald escreveram com Kevin J. Hynes é brilhante ao escapar das armadilhas corriqueiras do gênero.

Usando inteligentemente, e por duas vezes seguidas, o encenamento de sequências enganosas, primeiro dando a entender que o detetive Joe Ennis realmente estava depondo, somente para a cena cortar para o treinamento de Perry em sua casa e, depois, usando um flashback sobre o sequestro do bebê para mergulhar no depoimento verdadeiro de Emily Dodson, o texto da trinca de escritores combinado com a magnífica direção de Tim Van Patten, que capitaneou cinco dos oito episódios, laça o espectador com enorme eficiência, quebrando a expectativa de linearidade, longos discursos e perguntas e respostas quentes, com debates entre os dois lados do caso. A dicotomia entre a verdade e a Justiça é o mote do episódio e da série como um todo. Como Mason afirma, lendo o lema acima do juiz, primeiro vem a verdade, depois a busca pela Justiça, mas ele mesmo sabe que a verdade verdadeira, aqui, é impossível de ser provada, de ser materializada de maneira coerente e tudo é, no final das contas, um jogo.

Um jogo sujo, na verdade. Afinal, a única verdade provada por Maynard Barnes é que Emily cometeu adultério e ele joga então com o machismo e a misoginia do júri, dos repórteres e da opinião pública em geral para condenar a acusada apenas com base nisso, deixando evidente que, se o adúltero fosse um homem, esse tipo de argumentação jamais seria aceita, quiçá sequer tentada. Maynard sabe que Emily é inocente, mas ele tem um caso em tese fácil e ao mesmo tempo chamativo nas mãos e condenar alguém, mesmo que a verdade seja deixada de lado, é muito melhor do que não condenar ninguém. E, lógico, toda a atenção positiva que ele puder amealhar para si mesmo ajuda em sua campanha pela prefeitura…

A questão é que a sujeira, nesta série, existe dos dois lados, algo que ficou evidente ao longo de toda a temporada, mas que, aqui, ganha uma ilustrativa e perfeita mini-reviravolta. Perry revela toda sua insegurança quando arregimenta Pete para subornar um dos jurados justamente para chegar no resultado que ele, sem saber, chegaria de qualquer forma. Se a verdadeira Justiça simplesmente não é possível, então ela precisa ser alcançada de alguma outra maneira, mesmo que moralmente condenável, mesmo que completamente criminosa. Fica para o espectador decidir se o que Perry fez é justificável e o que isso faz dele, valendo notar que seu estratagema literalmente mafioso ficou trancafiado a sete chaves, sem que Della e Paul soubessem.

Mas quem disse que a sujeira é exclusiva do mundo jurídico da série? Não só a Igreja da Irmã Alice passa a ser investigada a partir das provas reunidas por Perry e equipe, como o lado religioso da temporada é reservado para seu final, com uma outra pequena reviravolta em que vemos a asquerosa Birdy McKeegan não só demonstrar completo descaso sobre o paradeiro de sua filha, como também – e principalmente – manipular a fragilizada Emily e seu bebê “ressuscitado” para reconstruir sua religião manipuladora. Quando sentimos vontade de pular na tela para enforcar alguém, quer dizer que o objetivo do roteiro foi plenamente alcançado…

O que me faz tirar a nota máxima do episódio de encerramento da temporada é a necessidade que os showrunners sentiram de não deixar pontas soltas. Entre as pazes entre Perry e Lupe, o assassinato de Ennis a mando de Holcomb, a sequência que mostra Pete testemunhando sobre a igreja no caso movido por Hamilton Burger, o encontro de Perry com Alice e a já mencionada armação para o futuro de Perry Mason e associados, o bombardeio de informações foi talvez muito grande e talvez desnecessário de existir dessa forma. Pode ser implicância minha, mas a vitória de Perry acaba perdendo a força com o dénouement estendido que é encaixado no final, ainda que, paradoxalmente, seja gratificante ver alguns dos desdobramentos, como o afogamento de Ennis e Della ditando as regras para Perry.

Seja como for, Perry Mason é mais uma grande aposta da HBO que pagou dividendos quase que imediatamente. Uma série introdutória exemplar de um personagem clássico que o  revitaliza, torna-o social e politicamente relevante para a época em que vivemos e hipnotiza o espectador com um elenco de se tirar o chapéu e uma reconstrução de época de fazer o queixo cair. Mal posso esperar para ver o que o futuro reserva para Perry Mason.

Perry Mason – 1X08: Chapter Eight (EUA, 09 de agosto de 2020)
Showrunners: Rolin Jones, Ron Fitzgerald (baseado em personagem criado por Erle Stanley Gardner)
Direção: Tim Van Patten
Roteiro: Rolin Jones, Ron Fitzgerald, Kevin J. Hynes
Elenco: Matthew Rhys, Shea Whigham, Juliet Rylance, Nate Corddry, Gayle Rankin, Andrew Howard, Eric Lange, Veronica Falcón, Robert Patrick, Tatiana Maslany, Lili Taylor, Stephen Root, Chris Chalk, Justin Kirk
Disponibilização no Brasil: HBO
Duração: 56 min.

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15 comentários

Jose Claudio Gomes de Souza 30 de agosto de 2020 - 10:17

Ritter, confesso nos 2 ou 3 primeiros episódios eu fiquei meio cético, achando meio assim mais ou menos. Mas insisti e, depois que ela prendeu minha atenção, não consegui parar mais de ver (eu esperei todos os episódios para maratonar). Muito boa a sacada de mostrar a “origem” de Perry, algo que, mesmo nos livros, é meio obscuro. Ambientação, atores, o clima noir, tudo excelente! E a transformação de detetive em advogado foi muito bem construída. O que eu acho melhor, os personagens conseguem nos deixar com aquele gosto de querer mais, de acompanhar como será agora a carreira de Perry Mason e seus associados (por sinal, que bela equipe, hein?!). Abraços.

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planocritico 1 de setembro de 2020 - 15:47

Eu adorei já na largada. E, na medida em que a coisa foi andando e ficou claro que era uma história de origem, a temporada ficou melhor ainda. Uma das melhores séries novas de 2020, sem dúvida alguma.

Abs,
Ritter.

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Ítalo Gabriel 19 de agosto de 2020 - 16:16

Uma das coisas que eu mais amei em toda a série é mostrar nuances sem precisar falar muito ou falando quase nada, a cena que os repórteres vão saindo do tribunal já antevendo o resultado é um dos exemplos que mais gostei. E durante todo o percusso da série é muito bom ver como ela introduz humor mesmo em momentos dramáticos e mesmo assim não quebra o tom, essa cena é um dos exemplos… Adorei o juiz perdendo a paciência enquanto o último corre como se fugisse de um cachorro hahahahaha.

PS: É impressão minha ou a barriga do Joe se meche no último enquadramento da cena mesmo o personagem já estando morto?

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planocritico 20 de agosto de 2020 - 14:29

Sim, sim. É uma série de poucas palavras, mas muito poderosa.

Sobre o Joe, não reparei mesmo, mas é possível!

Abs,
Ritter.

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Mojo 18 de agosto de 2020 - 09:45

E eis que Perry Mason deixou de ser pra mim só uma ótima música do Ozzy… Não conhecia nada do personagem, exceto pela citada música e algumas referências aqui e ali e adorei a série!! Atuações e ambientação incríveis, ótimos personagens (Della Street me cativou), enfim, só elogios pra essa adaptação. As críticas ficaram no mesmo nível da série, espero que mantenham essa pegada noir suja e decadente nas temporadas seguintes. Abs

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planocritico 21 de agosto de 2020 - 15:14

Obrigado, @Mojopgr1980:disqus !

Essa série foi realmente incrível. Até agora, a melhor série nova de 2020 para mim!

Abs,
Ritter.

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Fernando 13 de agosto de 2020 - 22:35

A série foi excelente na minha opinião, e acompanhei as críticas dos episódios aqui no site, parabéns pelo trabalho.
Sei que acabei agora de assistir o último episódio, mas já quero a segunda temporada.

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planocritico 16 de agosto de 2020 - 03:02

Obrigado, @disqus_eK35SawtSW:disqus !

Eu também já quero a segunda temporada!

Abs,
Ritter.

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Felipe Brandon 13 de agosto de 2020 - 04:17

Mais um episódio estupendo dessa (agora série). Como o colega falou ali abaixo, a questão do suborno foi algo muito bem colocado, fazendo com que o Mason não seja convertido da noite pro dia em um paladino da justiça. O fato de que ele chegaria ao mesmo resultado sem o suborno, mostra que ele está no caminho certo e que futuramente ele não mais precise recorrer a isso. (Ou não, ele não precisa ser certinho e polido e eu adoro isso).
Seguindo a minha saga de botar fogo nos personagens que odeio, ainda quero a mãe da Alice morta. Mas pelo menos os refrescos vieram com a morte, um tanto quanto ousada, do Ennis.
Concordo com vc Ritter (em mais uma excelente crítica como sempre e não vou me cansar de elogiar), que o que veio após o julgamento foi longo demais, tinha informação demais, aconteceram coisas demais. Porém tudo bem, não foi gratuito mas tirou um pouquinho da “vitória” no julgamento.
Ah e antes que eu esqueça, adorei ver a cara de tacho do Maynard e vou adorar ainda mais ele não ganhando a eleição para prefeito.
Que venha a segunda temporada!

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planocritico 13 de agosto de 2020 - 11:12

O Maynard estava ótimo mesmo e ele acabou muito enfurecido. Sensacional! E, claro, não ficaria nem um pouco triste se Mamãe McKeegan sofresse combustão instantânea…

E o lado “sujo” do Perry Mason eu espero muito que continue. Acho que faz parte de toda a atmosfera da série até e tirar isso seria um crime. Podemos ficar revoltados e tal, mas é o que o material apresentado pede que seja feito.

E obrigado pelos elogios, meu caro!

Abs,
Ritter.

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Daniel 12 de agosto de 2020 - 11:25

Será que Eva Griffin será o caso da próxima temporada? ou foi só uma brincadeira do roteiro? Acho propício já que trata-se do primeiro caso de Mason nos livros

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planocritico 12 de agosto de 2020 - 11:34

Eu mencionei sobre Eva no primeiro parágrafo, mas acho que foi só um easter-egg. Imagino (é apenas um chute, claro) que a 2ª temporada terá algum salto temporal para já apresentar Mason estabelecido no mercado.

Abs,
Ritter.

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Claudio 11 de agosto de 2020 - 09:44

Excelente o caminho do Zé na sua transformação em Perry Mason, gostei da série e achei toda jornada bem factível.
Achei particulamente interessante o lance do suborno, mostrando que nosso herói não teve uma epifania onde recuperou a moral perdida e se tornou um paladino da justiça. O fato de no final ele não precisar disso será importante para aumentar a confiança do recém formado advogado, afinal as mudanças não ocorrem da noite pro dia.
Achei a história da ressurreição do Charlie, por mais que tenha servido para dar um fim a jornada da irmã Alice, sua mãe e da Emily, um artifício que destoou da série, no final não teve maiores consequência para a história principal e acho que poderia ser abordada de uma forma diferente, aumentando o peso da pastora no enredo.
Por fim uma coisa besta mas que me incomodou…. é de praxe a defesa dar a última palavra, o fato do Barnes encerrar o julgamento achei um artifício que realmente não precisava, todos entendemos que mais que o assassinato a Emily tava sendo julgada pela sua infidelidade, foi um recurso expositivo e com um erro técnico que uma série desse nível não poderia cometer.

Parabéns pelas críticas é muito bom acompanhar uma série podendo discutir os episódios, continuem o excelente trabalho.

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planocritico 11 de agosto de 2020 - 13:43

O suborno do jurado foi uma jogada de mestre dentro da narrativa, pois teve justamente esses objetivos de manter a moralidade dúbia de Perry e de impedir que já aqui ele se transformasse no super-advogado que resolve tudo só com sua capacidade no Tribunal.

Sobre a ressurreição, minha leitura é que a série é mais do que sobre Perry Mason e aborda a corrupção como um todo. Não só a corrupção por dinheiro, mas a corrupção moral. Essa linha narrativa jogava com a manipulação da população, incluindo e especialmente Emily, além da destruição da crença da própria Irmã Alice. E, de certa forma, é um “comentário” sobre a “ressurreição” de Perry Mason.

Sobre seu incômodo no julgamento, senti o mesmo na hora. Achei que tudo ia acabar com o discurso de fechamento de Perry e, quando o Maynard se levantou eu soltei um “ei, pera lá”. Mas eu entendi o ponto: apesar do didatismo, fechar com Perry significaria fechar com um olhar positivo. Fechar com Maynard serviu para jogar água fria no que Perry falou tão bem.

E obrigado pelo prestígio e por acompanhar as críticas aqui!

Abs,
Ritter.

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Claudio 11 de agosto de 2020 - 14:48

Penso igual você em relação a ressurreição só acho que poderia ser abordado de outra maneira. O suborno realmente foi sensacional, jogada de mestre como você disse.
Quanto a acusação terminar, entendi a intenção, mas foi muito forçado, nada que tira o brilhantismo da série, e que venha a segunda temporada

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