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Crítica | Perry Mason – Livro 1: O Caso das Garras de Veludo, de Erle Stanley Gardner

por Luiz Santiago
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Os primeiros passos de Erle Stanley Gardner na literatura não foram bem-sucedidos. Publicando sob diferentes pseudônimos (como Charles Green, Kyle Corning e Grant Holiday) ele tentou algumas histórias policiais, de terror e até de ficção científica, mas não conseguia emplacar de verdade uma aventura que fizesse o gosto do público e disparasse em vendas. Isso mudaria para sempre em março de 1933, quando conseguiu colocar nas bancas O Caso das Garras de Veludo, primeira aventura com o seu mais famoso personagem, o advogado (que aqui age mais como detetive) Perry Mason.

Quando Eva Griffin entra no escritório de Mason, logo no início do livro, o leitor sabe que virá um grande problema pela frente. O cenário típico dos filmes noir e a característica de dama fatal que Eva encarna chamam a atenção do público e da secretária de Mason, a assertiva Della Street. A birra que a secretária tem para com Eva desde o primeiro contato é justificava ao longo do volume, uma vez que a cliente é uma mentirosa compulsiva e uma grande atriz. Ela sabe da capacidade profissional de Perry Mason e chega à conclusão de que se arrastá-lo para o centro da grande intriga em que está metida, ele fará de tudo para livrar a si mesmo e, no processo, livrar ela também.

O que me deixou feliz nessa construção é que o autor não trata o protagonista como um bobinho apaixonado. Mason não apenas resiste às investidas sedutoras de Eva Griffin como também joga duro com ela. Ele sabe onde está colocando os pés, prevê que Eva lhe trará problemas sérios e não cultiva nenhuma falsa expectativa em relação à bela mulher. Quando a situação aperta e, no processo, ele se vê como suspeito de um assassinato, fica claro que entende que Eva irá falar dele para a polícia na primeira oportunidade que tiver. E esse é um ponto de virada interessantíssima no livro, porque o autor consegue disfarçar o que seria o clímax da obra e estende esse ponto máximo por mais algumas páginas, até que a segunda parte do problema seja definitivamente resolvida, deixando algumas migalhas estratégicas para “resolução em elipse posterior à última página”.

O meu único “senão” diante do caso está na presença da senhora e da senhorita Veitch. O dilema em torno do casamento é válido (embora o ex-marido da jovem tenha se deixado levar muito facilmente para o meu gosto), mas a postura final das duas me pareceu pouco orgânica, especialmente as linhas de diálogo da Sra. Veitch, com um tom de exposição que não faz muito bem ao livro. A forma como o autor estrutura o caso em torno delas, no entanto, é extremamente divertida. Mason assume todas as características de um detetive durão das novelas pulp e lança mão dos mais diversos recursos para conseguir se colocar à frente da polícia, ter acesso a documentos e, a partir daí, encaminhar o caso.

Mesmo com a atmosfera fortemente detetivesca dada ao protagonista nessa aventura de estreia, Gardner não se esquece de que Mason é advogado. Caminhos legais são constantemente abordados no decorrer do livro e o final é marcado por uma jornada de “defesa da cliente em apuros“, basicamente o que teria sido o livro se Eva não fosse uma astuta mentirosa. A definição de Della para essa femme fatale tem uma enorme precisão aqui: “ela é toda garras e veludo“. E mulheres assim, especialmente na ficção, têm o poder de tornar casos difíceis em praticamente impossíveis, arrastando também alguns inocentes (ou quase isso) no processo.

Perry Mason – Livro 1: O Caso das Garras de Veludo (The Case of the Velvet Claws) — EUA, 1933
Autor: Erle Stanley Gardner
Publicação original: William Morrow
224 páginas

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