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Crítica | Perry Mason – Livro 3: O Caso das Pernas Fabulosas, de Erle Stanley Gardner

Um golpe com muitas implicações sérias.

por Luiz Santiago
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Imaginem a quantidade de golpes nos quais as pessoas caem diariamente. Mesmo com tantas informações, com tanto histórico, alertas e comunicação sobre o modus operandi de criminosos, máfias ou simplesmente aproveitadores com certo aparato legal, ainda existem pessoas que são enganadas, imaginem nos anos 1930, onde todo esse conhecimento era muitíssimo menor. O que Erle Stanley Gardner explora aqui em O Caso das Pernas Fabulosas (obra também conhecida como O Caso da Fotografia Misteriosa e O Caso das Pernas da Sorte) é justamente um desses eventos, onde um aproveitador chamado Frank Patton passa de cidade em cidade selecionando belas mulheres com a promessa de um contrato cinematográfico. O “teste de elenco” é uma sessão de fotos que destacam as pernas dessas jovens aspirantes a atriz.

Com o apoio das Câmaras de Comércio desses lugares, Patton consegue o dinheiro, tira as fotografias e depois simplesmente desaparece. E é num revés para um desses golpes que conhecemos o problema, ainda nas últimas páginas de O Caso da Jovem Arisca, quando Della Street lê para Perry Mason um telegrama enviado por uma mulher de nome Eva Lamont. Neste terceiro livro da série, temos a continuação direta daqueles eventos, e conhecemos quem de fato enviou o telegrama e qual é a situação em questão. No início, o caso de um golpista que consegue se safar muito facilmente após pegar o dinheiro da Câmara de Comércio de uma cidade e esmagar os sonhos de jovens ingênuas parece algo comum, mas rapidamente escala para uma situação intricada, perigosa e que coloca Mason em maus lençóis.

No livro anterior, Gardner refletiu brevemente sobre o fato de Mason ser um advogado famoso e, por isso mesmo, conhecido de policiais, detetives (particulares ou estatais), procuradores ou cidadãos comuns. Essa fama acaba fazendo com que muita gente em apuros vá procurá-lo, mas nunca são pessoas com problemas simples e esses casos acabam saindo dos eixos muito rapidamente, uma vez que todo mundo tenta resolver o problema à sua maneira ou simplesmente se põe a mentir sobre tudo. Aliás, nesses três livros da série, tenho observado como o autor usa o recurso da mentira a seu favor. Seus personagens são verdadeiras raposas, sempre procurando evitar contato com a polícia e quase nunca confiando no advogado. Quando, enfim, resolvem confiar e falar a verdade, é praticamente tarde demais — ou melhor: só resolvem falar porque se veem em apuros, num cenário muitíssimo perigoso, onde percebem que não dá mais para continuar mentindo. Esse é o ponto onde a trama chega ao patamar crítico, com cara de “tarde demais“.

Em O Caso das Pernas Fabulosas, Gardner tenta algo um pouquinho diferente. A despeito da enorme simplicidade da trama geral e de um confusão desnecessária na segunda metade, com os personagens pegando avião, saindo do lugar onde deveriam estar e estendendo a história um pouco mais do que deveria, a trama dá destaque a um cliente de nome J.R. Bradbury, que inicialmente contrata Perry Mason para reparar um “golpe das pernas” aplicado ao seu interesse amoroso, Marjorie Clune. E o que começa com uma tentativa de aplicar a justiça a um golpista acaba se tornando um labirinto de ações suspeitas em torno de um assassinato. o autor coloca nesse cliente inicial um espírito de detetive, opinando sobre as coisas, tentando resolver o caso e inclusive tentando interferir no modo como Mason organiza a defesa. É um homem difícil que o leitor acaba gostando por um tempo e depois desgostando demasiadamente.

Do meio para o final, o livro perde um pouco o seu tom mais forte de entretenimento. Talvez a falta de personagens muito fortes (Bradbury é subaproveitado), como tivemos nas obras anteriores, tenham um bom peso nisso, mas o fato é que a história do golpe e o assassinato subsequente não ganham uma boa rede de ações, apenas picuinhas ligadas a personagens com quem a gente pouco se importa. Esse afastamento dura pelo menos até o bloco final, onde Mason, literalmente prestes a ser preso, acaba resolvendo o caso em seu próprio escritório, fazendo uma “confissão” para três detetives e para a pessoa que era a  verdadeira culpada por todos aqueles problemas. É uma boa resolução, mas parece colocar o pé no freio antes de trazer coisas mais intensas, como se quisesse resumir a um único espaço toda a narrativa de horrores e interesses que levou às suspeitas da polícia e à beira do fim da carreira de Perry Mason.

Perry Mason – Livro 3: O Caso das Pernas Fabulosas (The Case of the Lucky Legs) — EUA, fevereiro de 1934
Autor: Erle Stanley Gardner
Publicação original: William Morrow
Edição lida para esta crítica: Thorndike Press (1999)
320 páginas

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