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Crítica | Perry Mason – Livro 8: O Caso da Sobrinha do Sonâmbulo, de Erle Stanley Gardner

Interesses sonolentos.

por Luiz Santiago
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À medida que avançamos na série literária Perry Mason, percebemos que o escritor Erle Stanley Gardner é obrigado a forçar uma quantidade muito grande de situações para ajustar o romance policial ao Universo da lei. Na verdade, se analisarmos cuidadosamente, desde o terceiro livro, O Caso das Pernas Fabulosas, entendemos que, para os crimes terminarem em uma batalha de tribunal — gerando aquelas cenas clássicas onde o advogado brilha com suas perguntas e métodos nada ortodoxos — será necessário um longo caminho de situações improváveis ou relativamente forçadas, como comentei anteriormente, a fim de afunilar essas narrativas em direção ao mesmo lugar. Só que é aquela coisa: nós nos importamos com isso? Bem, eu não me importo, desde que as histórias entretenham e, mesmo em sua sequência de improbabilidades, tenha uma coesão interna e uma boa sequência de eventos, com o final compensando a espera.

Em O Caso da Sobrinha do Sonâmbulo, conseguimos apenas algumas doses desse bom lado narrativo, pelo menos até o terço final do volume, onde surge uma profusão de personagens em situações que deixam o leitor com muitos pontos de interrogação não esclarecidos. Tudo começa com Edna Hammer visitando o escritório de Perry Mason. Ela está muito preocupada com seu tio, Peter Kent, que é sonâmbulo, e que recentemente foi pego com uma faca, indo em direção à esposa, da qual deseja se divorciar. Esse episódio dificulta o processo, e a esposa de Kent fará de tudo para que o divórcio lhe seja extremamente lucrativo. Mas este não é o único problema do velho desafortunado. Ele também tem um parceiro de negócios que está querendo lhe arrancar dinheiro. E, para piorar tudo, na madrugada em que Kent faz uma viagem às pressas, para outro Estado, a fim de se casar novamente às escondidas, seu meio-irmão Philip Rease é assassinado.

Esse livro tem uma particularidade que não é tão evidente nos anteriores: um grande número de tramas acontecendo ao mesmo tempo. Logo no início da obra, três ou quatro casos se apresentam para o advogado, que acaba assumindo o do sonâmbulo, mas que voltará a uma dessas ofertas iniciais a fim de construir a ponte necessária até o objetivo do momento. Há uma interação maior entre partes aparentemente soltas e, especialmente no início do livro, tudo isso está colocado de maneira instigante, como se pudesse fazer parte do problema levantado nas primeiras páginas. O assassinato, desta vez, demora um pouco para acontecer. O leitor fica ansioso para o que pode ocorrer com os personagens ou a quem pode atingir o ataque. A vítima mais provável é Kent, e até mesmo Edna, ligada a superstições e astrologia, parece correr máximo perigo. Mas esses dois se tornam suspeitos, quando o crime acontece, e há algumas revelações envolvendo-os que deixam o leitor de boca aberta.

A obra elenca uma femme fatale cheia de trejeitos melosos, alguns personagens covardes e apostas bastante arriscadas do advogado. A investigação lida com dois homens da lei, uma polícia hostil a Mason e mais clientes do que a história realmente precisa. Chega um momento em que o leitor pede por parágrafos mais calmos, onde possa se concentrar em uma das linhas investigativas e descobrir algo diferente, conhecer melhor este ou aquele indivíduo em cena. É nesse ponto que o livro começa a perder um pouco de sua qualidade, já que isso afeta a nossa compreensão do andamento geral da história, especialmente no final. A revelação do assassino é consideravelmente anticlimática aqui, mas não é totalmente decepcionante. Ela fica apenas no meio do caminho em termos de entrega do que tinha sido prometido. E o autor está tão preocupado em manter a máquina rodando que, ao final, já abre uma pasta para aquele que será o seu caso seguinte, envolvendo um bispo gago. Clientes e casos é o que não faltam para Perry Mason. O homem precisa tirar umas férias.

Perry Mason – Livro 8: O Caso da Sobrinha do Sonâmbulo (The Case of Sleepwalker’s Niece) — EUA, março de 1936
Autor: Erle Stanley Gardner
Publicação original: William Morrow and Company
223 páginas

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