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Crítica | Perry Rhodan – Livro 2: A Terceira Potência, de Clark Darlton

por Luiz Santiago
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Grande Ciclo: Via Láctea — Ciclo 1: A Terceira Potência — Episódio: 2/49
Principais personagens: Perry Rhodan, Reginald Bell, Clark G. Fletcher, Eric Manoli, Lesley Pounder, Allan D. Mercant, Crest, Thora, Professor Lehmann, Dr. Frank M. Haggard.
Espaço: China (Deserto de Gobi, região da recém-criada Terceira Potência), EUA (Nevada), Hong Kong, Austrália (Port Darwin) e Egito (Cairo).
Tempo: julho de 1971

Com uma escrita bem mais próxima do romance convencional que a de seu parceiro K. H. Scheer (que deu início à série Perry Rhodan com Missão Stardust), Clark Darlton desenrola de maneira quase inacreditável — pela quantidade de coisas que trabalha e pelo tom sério e imponente a que dá sequência — o que aconteceu após a chegada da nave Stardust à Terra, retornando de sua revolucionária viagem de exploração ao lado oculto da Lua.

As coisas não estão (e não ficam, para falar a verdade) muito bem para Rhodan e seus parceiros. Exceto a “dissidência” do grupo, Fletcher, que não concorda com a criação da Terceira Potência e quer sair de lá o mais rápido possível, ir para casa, ver a esposa e acompanhar a chegada do filho, todo o grupo está firmemente comprometido com a causa representada pelo Comandante da nave, e esse status torna todos eles procurados e “inimigos do mundo” — embora Perry Rhodan seja o verdadeiro monstro aos olhos das grandes potências, e é sobre ele que cai as ameaças e a responsabilidade por tudo aquilo, o que na verdade é um direcionamento justo e verdadeiro, já que a ideia e a defesa inicial para a formação de um potência neutra, que graças à tecnologia dos arcônidas é capaz de impedir que as nações no poder destruam o mundo, partiu dele.

O espelho para a realidade aqui é muito claro e fico imaginando o impacto que um leitor deve ter sentido ao ler esse livro no final de 1961. O olhar que o livro traz para a geopolítica do mundo daquele período é extremamente crítico e se vale das tecnologias já conhecidas e dos conflitos bem estabelecidos entre nações armadas até os dentes para nos dar um pequeno vislumbre de como seria do processo da destruição da humanidade através de uma guerra nuclear. Enquanto lia, fiquei imaginando que se não fosse Perry Rhodan e a tecnologia arcônida, teríamos aqui o cenário de futuro devastado que vemos em outro clássico da ficção científica, Um Cântico Para Leibowitz.

O que mais chama a atenção e também irrita o leitor é a teimosia das potências: um culpando o outro e sempre pensando o pior, de modo que atravessamos o livro lendo ultimatos que parecem algo infantil e percebendo o quão ridícula é a posição de algumas nações quando se fala de manutenção de poderio econômico, territorial e militar. Nossa geopolítica atual (2020), com forte destaque na seara de influências para EUA, Rússia e China nos remete consideravelmente ao cenário que temos aqui, com a diferença de que hoje não vivemos num ambiente de Guerra Fria e certos governantes preferem mesmo é fazer showzinho por rede social. A retratação dos líderes políticos e chefes militares no livro não ignora a mistura de nacionalismo cheio de absurdos e também de uma cegueira diante de um conflito que, se levado a cabo, pode por um fim à espécie humana. No mundo real nos aproximamos de algo assim e é interessante ver como uma boa ficção científica como esta usa do espírito político de uma época para criar um ótimo gancho de desenvolvimento narrativo.

Por um breve momento, o livro nos faz questionar a ação de Rhodan e seus companheiros. A corrupção pelo poder e a facilidade de utilizar a tecnologia impressionante dos extraterrestres para um franca dominação do planeta são possibilidades levantadas, tendo respostas em cantos diferentes do volume, com Rhodan agindo como um verdadeiro terrano (aliás, a chamada de atenção para isso, no livro anterior, foi uma das reflexões mais legais da obra, a meu ver. Ela nos faz pensar por que na maioria de todas as narrativas conhecidas sobre planetas que já conquistaram o Universo, não os ouvimos chamar-se pelos adjetivos pátrios, mas sim pelos planetários). Os outros tripulantes da nave seguem o mesmo exemplo de lealdade para com esta ideia. Isso podemos comprovar isolando um dos personagens, basta considerar a excelente missão de Bell na parte final do livro, procurando a ajuda do doutor que desenvolveu o soro anti-leucêmico e escapando por um triz de diversos ataques e armadilhas em sua viagem do Deserto de Gobi para um porto no norte da Austrália.

Embora eu não tenha gostado do tratamento rápido e meio apagado dado a Fletcher na reta final e tenha pequenos outros problemas no tratamento para alguns personagens militares, comunicação entra os países e exploração da questão geopolítica do mundo nos momentos pré ativação dos mísseis, meu maior problema com o livro foi a demonstração da tecnologia humana para representar pensamentos em uma tela, não como ondas, gráficos ou algo do tipo, mas sim com imagens, uma variação super avançada do detector de mentiras. Nesse Universo de Perry Rhodan temos diversas demonstrações de uma tecnologia humana mais à frente do que na realidade (a própria viagem à Lua é uma prova disso), mas até esse momento os autores vinham demonstrando uma exposição interessante para tais conquistas. Essa máquina, no entanto, chuta a lógica de tratamento tecnológico dada para os dois livros. É uma cena curta, mas pelo impacto que gera (sendo a causa da morte de Fletcher) não é algo que a gente consegue ignorar ou minimizar.

A Terceira Potência é uma aventura sobre como evitar uma 3ª Guerra Mundial e de como se tornar inimigo número um do mundo. Uma narrativa fortemente politizada e que mostra a criação de uma nova potência, uma força neutra diante dos interesses econômicos e hierárquicos da Terra, mas que ambiciona algo grande. Algo que nem os mais poderosos ou os mais ricos países conseguiram até o momento. A paz… conseguida através da força, com Rhodan humilhando os líderes e fazendo todo o arsenal nuclear das potências falhar em sua missão destrutiva. E por mais paradoxal que seja, o livro nos expõe um dilema claro: ou era isto, ou seria o fim da humanidade.

A maior parte dos homens ainda considera Perry Rhodan um traidor, mas algumas pessoas sensatas já começam a compreender que ele só visa ao bem da humanidade. E esses homens dirigem-se à ABÓBADA ENERGÉTICA, que nem mesmo o fogo cerrado mais intenso consegue romper.

Perry Rhodan – Livro 2: A Terceira Potência (Die Dritte Macht) — Alemanha, 15 de setembro de 1961
Autor: Clark Darlton
Arte da capa original: Johnny Bruck
Tradução: Richard Paul Neto
Editora no Brasil: Ediouro (1975)
192 páginas

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