Home Diversos Crítica | Perry Rhodan – Livro 24: Na Selva do Mundo Primitivo, de Kurt Mahr

Crítica | Perry Rhodan – Livro 24: Na Selva do Mundo Primitivo, de Kurt Mahr

por Kevin Rick
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Grande Ciclo: Via Láctea — Ciclo 1: A Terceira Potência — Episódio: 24/49
Principais personagens: Perry Rhodan, John Marshall, Son Okura, General Tomisenkow, Coronel Raskujan, Thora, Reginald Bell, Tako Kakuta
Espaço: Vênus, Terceira Potência
Tempo: julho de 1981

Todo o arco em Vênus é envolto por tensão. Por mais que exista uma atmosfera de previsibilidade que paira as histórias (um elemento muitas vezes injustamente visto como negativo), tanto Clark Darlton em A Fuga de Thora, W.W. Shols em Chave Secreta X e agora Kurt Mahr no vigésimo quarto livro, trabalham uma narrativa inquietante e aflita. Na Selva do Mundo Primitivo continua diretamente os eventos do volume anterior, que terminam com Thora e Tomisenkow presos pelo Coronel Raskujan, enquanto Rhodan, Marshall e Okura continuam sua árdua jornada até a base de Vênus em um barco inflável.

Como meu colega Luiz Santiago disse na crítica do livro anterior, é muito bacana acompanhar nosso grupo de personagens em uma aventura que eles constantemente sofrem derrotas, surras e contra-ataques inesperados. Dá um sentimento de periculosidade à narrativa, além de que a ambientação natural e tecnologicamente nula concebem o tom de maior risco e vulnerabilidade. Obstáculos como insolação, fome, febre e animais hostis ditam uma história mais, digamos, arraigada dramaticamente. Por não termos bombas nucleares ou destróiers extraterrestres, é como se a ameaça em uma escala menor, íntima e objetiva aumentasse o nível de angústia da leitura.

O que o texto de Kurt Mahr faz de melhor é ignorar o núcleo de Bell e companhia na Stardust-III, focando inteiramente em duas linhas narrativas extremamente próximas em estilo de sobrevivência – daí o ótimo título da obra. A escolha do autor, além de retirar um bloco que não se encaixa tão bem na linguagem mais pé-no-chão do volume, progride substancialmente o ritmo da jornada. A maneira como a narrativa transita entre as duas tramas acontece organicamente e de modo agradável, quase que ininterruptamente, tanto por serem similares em estilo quanto pelas ótimas correlações de Kurt. Por exemplo, quando a linguaruda da Thora conta para Raskujan que Rhodan está em Vênus, isso diretamente impacta (e dificulta) a jornada do protagonista, ao mesmo tempo que um soldado que escapou com a ajuda de Tominsekow auxilia Rhodan.

São situações que podem parecer óbvias de um ponto de vista de ligação narrativa, mas às vezes sinto falta de histórias mais fechadinhas na série, com uma única linha narrativa – algo frequente nos primeiros livros -, ou então como aqui, em que as tramas estão bem juntinhas. Claro que depende do livro, do autor e do estilo dado à aventura, mas Na Selva do Mundo Primitivo se beneficia bastante do escopo menor e de poucos blocos (algo cada vez mais incomum na série que só aumenta o número de personagens), para entregar uma aventura densa e compacta. Aliás, esse cunho encorpado abre o espaço para Kurt esticar algumas sequências. Podemos ver isso na longa escapada de Tominsekow e Thora, divertidamente dando errado – nada dá certo para os personagens nesse livro! -, mas principalmente a do trajeto na água de Rhodan, Okura e Marshall. Toda a circunstância do percurso se beneficia da estrutura mais amarrada da obra para se ter um escalonamento de tensão, justamente porque Kurt consegue alongá-las e extrair o máximo possível dos obstáculos, ou então simplesmente ir sobrepondo uma dificuldade com outra dificuldade.

Além disso, a total fragilidade de Perry durante grande porção do livro, praticamente um inútil em várias situações, alimentam a experiência sofrível da equipe. Posso estar me repetindo, mas, novamente, o contexto de vulnerabilidade e sobrevivência, especialmente pensando no invencível líder da Terceira Potência, realmente dão um sabor diferente para as histórias do PerryversoO fato de que Okura e Marshall são mais importantes dentro da missão que o protagonista é mais um detalhe bacana dentro do volume, tanto para demonstrar a importância dos coadjuvantes quanto para descontruir a imagem messiânica de Rhodan. Conflito e atribulações, como eles são importantes em uma aventura…

No mais, só tenho alguns probleminhas no clímax da base venusiana. Além de toda a situação acontecer com extrema correria, indo na contramão das longas e atribuladas sequências do livro, existe um momento de tremenda estranheza no ato final. Depois de uma torturante jornada, Kurt utiliza um parágrafo para curar Perry com a tecnologia da base, e depois mais ou menos uma página para resolver o conflito do livro. Não só apenas a facilidade dessaborosa da situação, como também o menosprezo no fechamento da experiência claudicante e tensa anterior, causam uma mudança abrupta que me deixou um tantinho decepcionado. Mas não retira o mérito da maravilhosa leitura que foi acompanhar nossos personagens sofrendo a cada minuto da aventura. E no finalzinho, Na Selva do Mundo Primitivo tem dois momentos que abriram um sorriso no meu rosto. Primeiro que Tominsekow se manterá em Vênus (como parte dos planos de Rhodan, obviamente), deixando as portas abertas para uma possível história de colonização, e, por fim, um surpreendente diálogo terno e carinhoso entre Perry e Thora que dá nova dimensão pessoal e coletiva para os caminhos trilhados por uma ârconida cada vez mais humana.

Em sua caminhada em direção à barreira energética da fortaleza de Vênus, conseguiram por mais de uma vez lograr a morte, que parecia certa. Depois disso, operando no ambiente seguro da fortaleza, não tiveram a menor dificuldade em terminar, num golpe, as insensatas lutas pelo poder que vinham sendo travadas entre os colonos involuntários de Vênus. Libertando Vênus, o campo de atividade de Perry Rhodan volta a deslocar-se para a Terra, onde o Supercrânio dá início ao seu jogo nefasto…. O SUPECRÂNIO é o título do próximo volume da série Perry Rhodan. 

Perry Rhodan – Livro 24: Na Selva do Mundo Primitivo (Im Dschungel der Urwelt) — Alemanha, 16 de fevereiro de 1962
Autor: Kurt Mahr
Arte da capa original: Johnny Bruck
Tradução: Richard Paul Neto
Editora no Brasil: Ediouro (1976)
128 páginas

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