Home Diversos Crítica | Perry Rhodan – Livro 6: O Exército de Mutantes, de W. W. Shols

Crítica | Perry Rhodan – Livro 6: O Exército de Mutantes, de W. W. Shols

por Luiz Santiago
325 views (a partir de agosto de 2020)

Grande Ciclo: Via Láctea — Ciclo 1: A Terceira Potência — Episódio: 6/49
Principais personagens: Perry Rhodan, Reginald Bell, Tako Kakuta, Homer G. Adams, Allan D. Mercant, Crest e John Marshall.
Espaço: Terceira Potência (Deserto de Gobi), Londres (Reino Unido), Nova York (EUA), Tóquio (Japão), Groenlândia, Lua
Tempo: Janeiro de 1972

Ligado à Marinha alemã (no setor de construções) nos anos finais da 2ª Guerra Mundial, W. W. Shols abraçou a carreira de escritor assim que finalizado o conflito, destacando-se na escrita de faroestes, policiais e ficção científica, mantendo-se engajado nas discussões do Science Fiction Club Deutschland mesmo após a sua aposentadoria, no final dos anos 1960. O Exército de Mutantes foi o primeiro livro que Shols escreveu para a série Perry Rhodan, e nele reforça o poder e a relevância da Terceira Potência nesse novo recorte da História da humanidade, após o primeiro contato amigável com uma civilização alienígena (os arcônidas) e os já esperados contatos (ou melhor… tentativas de invasão) com outras espécies.

Em essência, podemos ver que se juntam num mesmo livro eventos para os quais fomos preparados ou brevemente apresentados na dupla O Crepúsculo dos Deuses e principalmente Alarme Galático, livros da série que dão conta da superação da primeira grande barreira da Terceira Potência, que era a inserção de um Estado independente na comunidade internacional. Aqui em O Exército de Mutantes, começam de fato as lutas diretas de uma jovem nação reconhecida, que precisa lidar imediatamente com um problema muito complicado. As finanças do novo território. Dos muitos acontecimentos desse livro, aquele que parece mais deslocado é o que guia a contratação de Homer G. Adams, um gênio das finanças recém-saído da prisão, como a solução para os problemas econômicos de Rhodan e seus amigos. Todo o capítulo que o apresenta e que acompanha a sua trajetória até o resgate vindo do Deserto de Gobi me pareceu uma mistura do primeiro ato de Disque M Para Matar com algum enredo de espionagem, coisas que funcionam mais como atos de intensidade para a história do que como passagens que acrescentam coisas relevantes ao enredo.

Mesmo depois de estabelecida a General Cosmic Company (GCC), em Nova York, e suas ações na Bolsa + contratos realizados em favor da Terceira Potência, temos indicações rápidas, mas precisas, sobre Homer, sua memória fotográfica e sua grande capacidade de trabalho na economia. Isso nos faz questionar a apresentação no estilo de drama policial incompleto, com direito a uma deslocada sequência de avião sequestrado, que além de ter problemas de andamento no início e no fim, se torna um elefante branco no meio do livro.

Já a abordagem sobre a formação de uma estrutura hierárquica, trabalhista (por assim dizer) e de funcionamento mais burocrático da Terceira Potência está entre as melhores coisas do volume, assim como as cenas ligadas à nova raça invasora da Terra, que mais uma vez serve como propaganda positiva para Rhodan e seu projeto. É dado para o leitor um princípio de crítica e contestação para as ações mercadológicas e acionistas de Homer, ao mesmo tempo que nos é apresentado a selva impiedosa que é a Bolsa e o mundo dos gigantes negócios no mundo. Mesmo não sendo livre de críticas, o caminho escolhido pela GCC (leia-se Terceira Potência) é o menos pior, agressivo e desonesto possível, algo que numa discussão mais acalorada nos colocaria numa divisão política, econômica e jurídica vista em qualquer país do mundo ainda hoje, trazendo a polêmica pergunta: certos tipos de crime são “perdoáveis” quando realizados para o bem geral de uma massa de pessoas, se comparados ao mesmo tipo de crime cometido para benefício próprio?

É o tipo de pergunta que não tem resposta fácil e que pode ser direcionada para uma explanação mercadológica simples e já resignada (de que certos acordos envolvendo dinheiro são impossíveis, portanto, quem realmente quer fazer a diferença em grande escala, sem apelar para qualquer tipo de força, tem que jogar à margem ético-moral do sistema), para um caminho filosófico e problematizador, num caminho de punição. Como disse, são ações que podemos observar em todo lugar. O que Homer faz em nome da Terceira Potência é moral e eticamente questionável, mas o benefício não é, em essência, para a Terceira Potência. É para o planeta inteiro. E essa ação, que tira o grupo do lado dos “mocinhos sempre certinhos”, trouxe um novo ingrediente para a saga. É a primeira vez que temos o registro de algo não puramente elogiável vindo da Terceira Potência.

Alguns até podem adicionar à lista o tipo de “segregação” realizada para a população do novo Estado, mas na minha opinião trata-se de algo completamente diferente. A Terceira Potência não é um Estado comum. Não nasceu de uma ocupação comunitária de um espaço com terras férteis e habitáveis, com pessoas de todos os tipos. Desde o pouso da nave comandada por Rhodan no local, no final de Missão Stardust, todos os indivíduos que habitaram a região, a cúpula, foram indivíduos extraordinários. Primeiro os astronautas com diferentes áreas de especialidade, acompanhados de dois alienígenas. Depois um respeitado cientista. E por fim, os mutantes. Não estamos falando aqui de uma segregação no sentido verdadeiro da palavra, porque a Terceira Potência acaba até sendo um empreendimento “particular”. Sim, tem intenções planetárias, foi formada para o bem dos terráqueos, mas para que funcione cada vez melhor, não pode contar com pessoas comuns, apenas com indivíduos extraordinários. É como se fosse um Estado-Corporação. Apenas os de melhor currículo são admitidos. Não há problema nenhum aí.

O perigo de invasão permanece ativo, mas a ameaça imediata foi controlada. Ao mesmo tempo que gera desconfiança no leitor, todos esses mutantes juntos apresentam um começo de organização mais controlada, talvez até mais séria da Terceira Potência. Os problemas, nesse livro, se tornaram mais bem formulados e fiquei feliz em vez o autor trabalhar um tipo de ação que torna complexa a discussão sobre os meios utilizados por Rhodan e seus aliados para conseguirem o que querem, seja por um tipo específico de fraude monetária e fake news até o sequestro de pessoas. Particularmente gosto muito de heróis ou grupos de heróis que não ficam o tempo inteiro fixos do lado dos “anjinhos” no espectro moral. Todos nós sabemos que isso é impossível, e ver esse tipo de coisa representada na literatura dá um sabor diferente à história. No meu ponto de vista, torna ela ainda melhor.

Perry Rhodan ampliou o círculo de seus colaboradores. Agora são 18 pessoas dotadas de capacidades extraordinárias, que valem mais que um Exército. Essas pessoas chegaram bem na hora, pois logo haverá nova invasão do espaço. INVASÃO ESPACIAL – é este o título do próximo volume da coleção Perry Rhodan.

Perry Rhodan – Livro 6: O Exército de Mutantes (Das Mutanten-Korps) — Alemanha, 13 de outubro de 1961
Autor: W. W. Shols
Arte da capa original: Johnny Bruck
Tradução: Richard Paul Neto
Editora no Brasil: Ediouro (1976)
104 páginas

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais