Crítica | Perversa Paixão

O rádio é uma das mídias mais subjetivas que existem. Por meio de suas ondas, podemos passar muitas horas a ouvir vozes que nos permitem construir, imageticamente, as pessoas que as entoam. É algo muito parecido com a literatura, recurso narrativo que nos proporciona a construção dos personagens e espaços de acordo com as descrições da obra lida. Há histórias divertidas de pessoas que construíram seres humanos “idealizados” com base nos profissionais que empostaram as suas respectivas vozes em programas de rádios.

No terreno da ficção, isso acontece com Evelyn (Jessica Walter), a desequilibrada ouvinte do personagem de Clint Eastwood, narrativa que parece antecipar Atração Fatal e os filmes de mulheres transtornadas em busca de ceifar a vida dos homens que supostamente as utiliza de maneira descartável.  Lançado em 1971, o filme demarca a estreia de Eastwood, primeira aparição muito convincente e segura, por sinal, numa trama tensa e cheia de altos picos de tensão trabalhados cuidadosamente.

Escrito pela dupla formada por John Heims e Dean Riesner, Perversa Paixão nos apresenta o cotidiano de Dave Garner (Eastwood), um radialista que comanda um programa bem sucedido, intitulado KRML. Constantemente, o galanteador que já usou a sua fama do rádio para sair com várias mulheres, recebe uma ligação da misteriosa ouvinte que insiste em pedir para que ele toque Misty, de Errol Garner. A mulher, com voz igualmente sedutora, faz o possível para conquistar o seu ídolo.

Apaixonado por música, Garner parece ser uma versão ficcional do próprio cineasta, assumidamente interessado no universo musical que veicula em seu programa de rádio do filme. Depois de algumas investidas, Evelyn, a dona da voz rouca que liga todas as noites e pede a música citada anteriormente, aparece e consegue levar o mulherengo para a cama. O que ela não esperava era ser dispensada, pois na visão do radialista, ela queria apenas uma aventura.

No entanto, Evelyn demonstra que deseja ir além e como é “renegada”, adentra por uma via obsessiva, com direito aos delitos mais ameaçadores contra as propriedades de Garner, antecipação das vidas que serão ceifadas por apenas estar no lugar e na hora errada dos planos da mulher instável. Ela também não aceita que Dave reate com a sua antiga namorada Tobie (Donna Hills), “verdadeiro amor” da vida do personagem.

Com base no que a indústria cinematográfica nos apresentou depois, Perversa Paixão vai mesclar momentos de tensão com a análise de personagens instáveis, com conflito diante de situações inesperadas. Evelyn, desempenho dramático de Walter que se tornou influenciadora de Betsy Palmer como a mãe do maníaco Jason em Sexta-Feira 13, faz o espectador suar frio. A mulher obcecada surge aleatoriamente e assusta sem necessariamente precisar de jump scare para dar início ao movimento de tensão diante dos conflitos.

Dirigido com firmeza, o suspense ganha notoriedade pela direção de fotografia de Bruce Surtee, responsável por manter às vezes o distanciamento e não interferir tanto nas ações dos seus personagens, bem como pela trilha de Dee Barton, bem característica dos anos 1970. Todos estes segmentos, por sua vez, funcionam bem graças ao roteiro que dosa a tensão com equilíbrio, sem recorrer aos possíveis excessos de uma narrativa deste quilate.

Perversa Paixão — (Play Misty For Me) Estados Unidos, 1971.
Direção: Clint Eastwood
Roteiro:  Dean Riesner, Jo Heims
Elenco:  Clint Eastwood, Donna Mills, Jessica Walter, John Larch, Irene Hervey, Don Siegel, Clarice Taylor, Duke Everts, George Fargos
Duração: 101 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.