Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Turma da Mônica – Clássicos do Cinema: Pesadelo Na Rua do Limoeiro

Crítica | Turma da Mônica – Clássicos do Cinema: Pesadelo Na Rua do Limoeiro

por Leonardo Campos
14 views (a partir de agosto de 2020)

O mestre Wes Craven, artesão dos medos, construiu uma carreira com criações muito peculiares, sendo Freddy Krueger e Ghostface, dois nomes marcantes de sua trajetória enquanto cineasta que mesmo não assumindo o papel de roteiristas em todos os seus filmes, imprimia alguns elementos próprios de sua cinematográfica em cada produção que assinava. A metalinguagem, em especial, é um dos pontos altos de sua obra. Os filmes da franquia Pânico e O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger, sétima incursão de Freddy nos circuitos de exibição cinematográfica, definem-se como casos emblemáticos. Ao longo de O Pesadelo Na Rua do Limoeiro, paródia da Turma da Mônica, os membros da equipe de Maurício de Sousa adentram no universo dos pesadelos mortais do antagonista slasher e entregam para os leitores um bom exercício metalinguístico, desde os aspectos estéticos ao desenvolvimento da história.

Lançada em abril de 2014, a edição trimestral veiculada nas bancas desde 2007, intitulada “Clássicos do Cinema”, aborda não apenas o antagonista Freddy Krueger, mas ainda abre espaço do meio ao final, para uma sátira igualmente divertida e eficiente ao clássico O Poderoso Chefão, um dos filmes mais respeitados da história do cinema, dirigido por ninguém menos que Francis Ford Coppola numa fase brilhante de sua ilustre carreira. O que mais se destaca, no entanto, é o processo intertextual com A Hora do Pesadelo, da capa ao segmento de abertura, com foco ainda na tirinha tripla de desfecho, também voltada ao universo do maníaco das lâminas no lugar dos dedos e com o suéter listrado, emblema de sua valiosa imagem no legado do cinema posterior aos anos 1980. Com projeto editorial de Alex Yamaki, a história começa com o uso da tonalidade azul dentro dos quadros de desenvolvimento dos personagens.

Percebemos que Mônica tagarela muito feliz na esfera onírica, satisfeita com a tranquilidade de seu sonho que se revelará um pesadelo logo adiante, tendo como antagonista de seu cotidiano, o Capitão Feio, Logo depois de alguns breves diálogos, ele a transfere para uma sala que lembra a ala das caldeiras de uma fábrica velha, suja e quase abandonada, ambiente que estabelece a metalinguagem não apenas no tema e nos diálogos, mas também nos elementos visuais do design assinado pela equipe de Maurício de Sousa. É uma aproximação com o universo do filme que os quadrinhos buscam o elo intertextual, em específico, a cena de Tina sendo perseguida por Freddy Krueger na abertura do filme em questão. Adiante, após despertar do horroroso pesadelo, ela descobre que Cebolinha, Magali e Franjinha também tiveram a mesma experiência.

No filme, sabemos que os pais de Elm Street vingaram o aliciamento pedófilo de Krueger e anos mais tarde, o monstro retorna através dos pesadelos para ceifar a vida dos jovens, tendo em vista vingar-se dos acontecimentos do passado, trama acompanhada pela atmosférica trilha sonora de Charles Bernstein e magnética pelo desempenho dramático de Robert Englund como o psicopata onírico. Nos quadrinhos, os realizadores investem em movimentos bruscos e onomatopeias para emular, salvaguardadas as devidas proporções, o design de som e a trilha do filme que lhe serve como ponto de partida referencial, além do traje do antagonista desta versão, o Capitão Feio, homem com o suéter e as luvas idênticas ao ícone do cinema.

Saberemos, adiante, que a situação envolve o roubo de um simulador, mais recente investimento laboratorial de Franjinha, utilizado pelo arqui-inimigo da Turma da Mônica para manipulá-los em suas horas de sonho, tendo em vista deixá-los atônitos para assim, dar conta de seu projeto de dominação, isto é, tornar o mundo um lugar sujo, abjeto, voltado ao seu ideal de vida imunda. Será Cascão o responsável por bater de frente diante desse plano maléfico e ajudar os amigos a se desvencilhar, literalmente, das garras do Capitão Feio, numa divertida e cuidadoso tradução intersemiótica que através do uso de balões e equilíbrio entre a linguagem verbal e a não-verbal, permitiram que a estrutura do slasher de 1984 ganhasse uma envolvente versão em HQ.

Capitão Feio não possui queimaduras, mas tem projetos para vingar-se de seu passado. O personagem, ao aparecer pela primeira vez numa peça teatral do universo de Maurício de Sousa, ganhou espaço, no mesmo ano, na paródia de Star Wars, Turma da Mônica Contra o Capitão Feio. Semelhante ao vilão que parodia, Capitão Feio também possui determinadas peculiaridades. Tendo aliado os Monstrinhos da Lama, ele é tio do Cascão e surtou depois de um acidente envolvendo uma pilha de livros que caíram em sua cabeça. Atordoado e com poderes especiais, ele pode soltar raios pelos dedos e sujar o mundo com a sua ânsia por dominação, haja vista a sua morada, o esgoto do Bairro do Limoeiro, espaço de circulação da turma da Mônica. Ele salta, pode voar alto, mas precisa fazer tudo isso na realidade, sendo o mundo dos pesadelos apenas uma breve incursão divertida e eficiente.

Pesadelo Na Rua do Limoeiro – Turma da Mônica (Clássicos do Cinema) – Brasil, 2014
Roteiro: Maurício de Sousa, Felipe C. Ribeiro
Arte: Tatiana M. Santos e Wagner Bonilla
Cores: Diogo Nascimento, Giba Valadares, Marcelo Conquista, Mário Souza
Editora: Panini Comics, Mauricio de Souza Editora
Páginas: 50

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais