Crítica | Pétalas

estrelas 4

O jovem Gusavo Borges, que já se fez notar no cenário independente de quadrinhos brasileiros com A Entediante Vida de Morte Crens e Edgar, prova que sabe contar uma boa história sem recorrer à palavra. Pétalas (2015) — um projeto que começou no Catarse e atingiu recordes assombrosos, merecidamente — tem roteiro não literal e arte de Borges, com cores de Cris Peter. A história se passa em uma floresta durante um rigoroso inverno e conta com três personagens: Raposinha, Raposa e Pássaro.

Narrativas “mudas” (como Pétalas, Monstros!A Chegada e O Número 73304-23-4153-6-96-8) são uma rara ocorrência nos quadrinhos contemporâneos, num tempo onde sempre há muita coisa para falar, mesmo que muitas vezes isso não signifique que tenhamos mensagens importantes. E este é o grande “pulo do gato” das narrativas visuais: elas sempre falam muita coisa sem “precisar dizer nada”. E vocês devem imaginar que construir uma trama com esse parâmetro não é fácil, uma vez que se torna necessário dar corpo ao drama, identidade às personagens e significado à história. Em Pétalas, todos esses itens são preenchidos com o máximo de ternura possível e o resultado é, em uma palavra, encantador.

A história começa entre o mistério e a surpresa de um encontro. O Pássaro, que é um mágico e possivelmente médico, encontra Raposinha na floresta, em meio a uma leve nevasca. O encontro causa espanto nos dois personagens, mas também no leitor, que transita entre a curiosidade e o processamento da fofura que permeia este primeiro contato.

Nos extras, o autor disse que a página que lhe deu mais trabalho de concepção foi a que Raposinha leva Pássaro para casa. De fato, a cena demanda todo um conjunto de regras sociais que mesmo nas fábulas se faz necessário e Borges não se furta em cumprir essa expectativa, gerar em nós uma angustiante espera e resolver muito bem a situação. Aliás, toda a primeira parte da história possui uma sequência de eventos muito bem modulada pela diagramação das páginas e bem pensada na atitude dos personagens. Os poucos problemas de Pétalas aparecem do meio para o final.

Enquanto a primeira parte se destaca pela surpresa e desenvolvimento dos laços entre os personagens (tudo isso em um ritmo perfeito), a segunda é um pouco minimizada pela pressa ou, talvez, pela forma como a tragédia nos é apresentada. Não sei se o conceito se enquadra em uma armadilha de roteiro — onde não importa o que caminho escolhido pelo autor, o resultado sempre acaba sendo o mesmo — mas o desfecho talvez fosse ainda melhor se a trama se estendesse um pouco mais, justificando melhor a doença do Pássaro para que o texto não estacionasse na esfera das boas histórias com finais abruptos.

Porém, rápido demais ou não, o final de Pétalas emociona e se firma como uma bela fábula com mensagem de amizade e um quê de misticismo ligado à existência humana, à descoberta do conhecimento, o enfrentamento da morte, o entendimento da generosidade. A arte de Borges é baseada no mínimo necessário para a formação dos cenários, tornando-se mais exigente nos closes. O trabalho de Cris Peter completa a identidade da arte, dando profundidade dramática e delineando o significado da maioria das cenas (percebam como ela trabalha o azul ao longo de toda a história e como esse trabalho é afetado pelo que está sendo narrado).

Não importa a idade do leitor de Pétalas, a paradoxal alegria em meio a tristeza na qual somos deixados, no final da trama, será perfeitamente compreendida e com certeza emocionará a muitos. Pétalas é mais um daqueles instantâneos da vida que a gente encontra perdido nos quadrinhos e que custamos acreditar que está ali.

Pétalas (Brasil, 2015)
Roteiro: Gustavo Borges
Arte: Gustavo Borges
Cores: Cris Peter
55 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.