Crítica | Phenomena

“O assassino esconde as suas vítimas e gosta de manter contato físico com elas.’

Os exageros de Dario Argento, grande nome do horror, margeiam algumas das imagens mais espetaculares de toda sua carreira, mesmo naquela que é uma obra com suas irregularidades e inconsistências. Os cacos de uma janela quebrada, rompida por uma agressão violentíssima, aproximando-se cada vez mais do rosto de uma garota confere um senso de angústia em uma cena que apresenta a premissa de Phenomena. Um assassino sanguinário está à espreita de garotas, matando-as e escondendo os seus corpos. Essa menina, no entanto, terminou tendo a sua cabeça cortada fora. Argento sabe cuidar tanto do imaginário que nos introduz a esse monstro sem mostrar o seu rosto, o seu corpo. Do contrário, presenciamos a criatura, o que quer que ela seja, quem que ela seja, apenas através dos rostos assustados de suas presas, e também por meio de uma cena em que correntes são destruídas pela sua força descomunal. Quem é esse ser?

Certas noções do que é horrífico, como quem é o assassino, serão questionadas por Phenomena, horror que é bastante representativo do impacto do gênero em si. Enquanto que o antagonista é um ser que não incomoda visualmente em uma primeira instância – continuará por bastante tempo intocado pela câmera do cineasta -, a protagonista sim. Jennifer (Jennifer Connely) é um garota com poderes paranormais, capaz de comunicar-se com insetos. Dario Argento promove um espaço pequeno, mas significativo e interessante, para cenas mostrando essa relação particular entre o que é convidativo, mais inocente e charmoso – a jovem Connely, no caso – e o que é repugnante – os bichos asquerosos que enxerga, entretanto, com tanto carinho. Com a ajuda de um professor, interpretado por Donald Pleasence, a garota investigará os crimes, usufruindo dos seus poderes psíquicos. O projeto encontra nesses insetos tanto uns ideais macabros quanto ideais de salvação.

O asqueroso, portanto, é tão protagonista quanto antagonista em Phenomena, sustentando o seu corpo na escatologia. Larvas nojentas, por exemplo, prenunciam corpos em decomposição, assim como são prenúncios para os mistérios serem solucionados e as pistas serem descobertas. O suspense reside nesse macabro mais visual, nas imagens, e não numa noção mais racional do que está para vir nessa narrativa, em termos de construção. Argento guarda surpresas para o nosso imaginativo, enquanto estica o desenvolvimento, em contrapartida, para uma estrutura gráfica que não se justifica em duração, originando uma obra que é invariavelmente estafante por não assumir completamente a sua devoção ao horror que enoja e que assim surpreende. O sensacional terceiro ato, acompanhado por piscinas com corpos com insetos os comendo, deformações faciais e muito sangue, é antecipado por primeiro atos pouco chamativos, que evidenciam o que Dario escanteara.

Os coadjuvantes, por exemplo, entram e saem sem muita discrição do meio do enredo, o que interfere em uma coesão no storytelling, especialmente porque a duração da obra se aproxima das duas horas sem renovar-se. O mistério prolonga-se por meio de uma estrutura mequetrefe e sucateada, composta por exposições prolongadas, segmentos soltos demais e interpretações fraquíssimas. O que o cineasta promove dentro do internato, onde Jennifer estuda, é pouco convincente. Connely não está bem e nenhum vínculo real é criado entre ela e sua amiga, coisa que o roteiro investe em alguns diálogos. Nisso, entra uma tentativa de estudar a maneira como o exterior enxerga anormalidades. Muito melhor quando Argento quer saber como o horror enxerga anormalidades e a si mesmo, dentro de uma visão interna a sua essência. Um macaco com uma lâmina, por exemplo: essa é uma premissa positiva ou negativa para o sucesso dos protagonistas?

Um dos personagens mais cativantes do longa-metragem, tal macaco aparece em uma cena pequena portando uma lâmina, para que questionemos a sua verdadeira natureza, aparentemente pacífica. Um macaco selvagem? Esse relacionamento entre os animais, supostamente mais perigosos e asquerosos, e os homens, supostamente mais controlados, é outra das forças de Phenomena. Mas é uma questão perdida em meio a um conjunto que até estuda bem a revisão ao caráter medonho dos animais, porém, que pouco revisa com cuidado o ponto humano do cerne. Uma relação do antagonista principal e uma outra personagem, por exemplo, sofre de nenhuma profundidade ou disposição do roteiro a entender uma trama relacionada à criação infantil, que é premissa recorrente no gênero. Argento consegue, porém, evidenciar essas tão constantes contraposições pela atuação de Daria Nicolodi. O horror há de sempre transformar as iconografias.

O que é incômodo e o que não é? O que é nojento e o que não é? O que é ameaça e o que não é? O cineasta italiano suja até mesmo uma toalha e um sabonete, simbolismos para a higiene, com larvas, exemplificando que nada, na verdade, está esclarecido. Um arquiteto de composições inesquecíveis, Dario Argento movimenta a sua narrativa – quem é o assassino – pautando-se no que é grotesco e repugnante. Os rocks pesados incomodam cenas banais, como uma fuga, incrementando a tensão através do repulsivo sonoro. O cineasta rejeita continuar essa premissa por sugestões com ares de suspense mais comuns, mas não a preenche com a mesmíssima substância que, ora ou outra, retoma aqui a qualidade artística de suas obras. Uma grande e explosiva resolução, contendo até atuações mais dignas dessa loucura que contempla-se como a verdade, incerta, do gênero do horror, é gratificante para um pavio, entretanto, que é longo demais.

Phenomena – Itália, 1985
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Franco Ferrini
Elenco: Jennifer Connelly, Daria Nicolodi, Fiore Argento, Federica Mastroianni, Fiorenza Tessari, Dalila Di Lazzaro, Patrick Bauchau, Donald Pleasence, Alberto Cracco
Duração: 116 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.