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Crítica | Physical – 1ª Temporada

por Ritter Fan
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Physical poderia ser apenas uma versão ficcional da febre oitentista de exercícios aeróbicos caseiros com fitas de vídeo capitaneada famosamente por Jane Fonda. Também poderia ter sido uma comédia sobre uma dona de casa em San Diego que tenta encontrar um caminho de independência de seu marido e de uma vida enclausurada. Daria até mesmo para ser uma sátira sobre a política da Era Reagan nos EUA. Mas Physical, felizmente, consegue ser cada uma dessas coisas e mais, muito mais, inclusive arriscando-se a ser 10 desagradáveis episódios lidando com uma sucessão de ainda mais desagradáveis personagens, a começar pela protagonista, Sheila Rubin, vivida maravilhosamente bem por Rose Byrne.

E sim, vocês leram corretamente, eu escrevi “desagradável”, mas esse adjetivo precisa ser contextualizado para que não pareça algo negativo, pois definitivamente não é o que quis dizer. A criadora e showrunner Annie Weisman tinha um rico material para criar uma outra série que viesse minar os anos 80 como por exemplo GLOW ou até mesmo Stranger Things, mas a contextualização de época não tem nem o objetivo de contar uma história que precisasse se passar nessa época ou que uso referências para encantar e capturar o espectador. A década em que a série se passa é muito mais um veículo para deslocar temporalmente a narrativa, de forma a criar distância e, com isso, tornar mais palatáveis críticas ferinas perfeitamente aplicadas aos dias de hoje do que qualquer artifício mais simplificado ou chamativo.

O que Weisman quer contar é uma história muito mais complicada, angustiante e triste do que a sinopse dá a entender, chegando ao ponto de eu sequer conseguir classificar a série como uma dramédia. Trata-se de um drama puro focado em Sheila, mulher casada e com um filha que vive em função da família, mas que sofre muito por isso e por outras razões mais sombrias, algo que ela só consegue extravasar por meio de seu ritual diário que comer junk food em quantidades boçais, sem roupa e em um quarto de motel, seguido de uma “sessão de vômito”, banho e retorno à casa para cuidar de seus afazeres como se nada tivesse acontecido. Ela muito claramente tem algum tipo de transtorno alimentar de fundo psicológico que, porém, permanece sem diagnóstico na temporada, tratado por seu marido Danny (Rory Scovel) apenas como uma espécie de “obrigação” de sua mulher de manter a forma e a aparência jovial.

A doença, aqui, é trabalhada como uma consequência da decadência moral, social e política de um país como um todo, o que, óbvio, funciona como a crítica sócio-política que mencionei no parágrafo inicial, especialmente quando Danny decide – por sugestão de Sheila – concorrer a um cargo de vereador na cidade, o que acaba levando-o a contratar como gerente de campanha seu velho amigo Jerry (Geoffrey Arend). O triângulo formado por Sheila, Danny e Jerry, portanto, é o ponto nevrálgico da série, com Jerry, radicalmente socialista, tentando levar Danny por um caminho em tese altivo, mas completamente irreal, com Sheila sempre tentando trazer o marido para a realidade, o que cria os conflitos e revela o machismo sistêmico que empurra a mulher para suas funções matriarcais das quais ela não pode se desviar.

Mas e a aeróbica, em que ponto ela entra nessa história? Esse caminho é outra forma de Sheila extravasar suas frustrações, depois que ela vê a aula da professora Bunny (Della Saba), que mora com seu namorado surfista Tyler (Lou Taylor Pucci) no próprio estúdio ou em uma van estacionada na praia. Como tudo na vida de Sheila, ela se torna viciada naquilo, logo convertendo-se em professora e não demorando em ter a ideia de filmar as lições para distribuir as fitas e fazer uns trocados já que ela gasta tudo o que é arrecadado na campanha do marido com seus vícios. A ginástica filmada, portanto, não é um fim, mas sim um meio, uma maneira que Sheila encontra para provar a si mesmo que ela pode ser mais do que uma dona de casa.

Acontece que Sheila não é uma personagem construída para o espectador torcer por ela. Diria que é difícil até mesmo gostar dela, apesar de seu distúrbio alimentar e de seus dramas pessoais. É aí que a coragem de Weisman realmente se revela, pois fazer de Danny e Jerry os sujeitos repugnantes que são era algo simples e óbvio, além de completamente esperado. No entanto, ao fazer da protagonista uma mulher egoísta, que pensa primeiro em si, ignorando amigas e, em alguns casos, prejudicando-as de propósito e de caso pensado, a showrunner dá uma rasteira do espectador, que fica sem chão onde se firmar. Sheila é também parte da crítica, é também parte do problema que Physical aborda e que se relaciona com a compulsão por consumo, a proliferação de comida porcaria de restaurantes fast food, a inveja por outros terem mais, o abismo socioeconômico formado pela acumulação de riqueza, o comodismo e, claro, a misoginia e o preconceito. E, apesar de ser um conjunto de críticas mais diretamente aplicável à cultura americana, o que certamente deve ter irritando muito gente por lá, ele não se limita aos EUA, bastando que olhemos com vontade ao nosso redor ou, pior, para os nossos próprios umbigos. Façam o teste e vejam como a série consegue ser desagradável não somente por terem personagens desagradáveis, mas por servir de espelho, um espelho que revela a verdade por trás da superfície, algo que não queremos ver, pelo menos não assim, jogado em nossa cara.

Mas nem tudo funciona de verdade. O encerramento – pelo momento – do arco narrativo de Bunny e Tyler me incomodou pela introdução de uma condição médica com a série já bem adiantada, sem nenhuma preparação cadenciada como o problema de Sheila é abordado. E isso leva a alguns atropelos nos dois ou três episódios finais que leva a um momento breve e perdido demais que deixa a dupla literalmente do lado de fora da narrativa principal. Outro personagem problemático é o de Paul Sparks, o empreendedor milionário John Breem, que também lida com questões psicológicas que afetam sua vida de casado e o impedem de alcançar a tão desejada felicidade. Seu arco é externo demais à história principal para realmente tornar-se relevante, mesmo que haja uma doentia convergência de “almas perdidas” na sequência final. Fica a impressão que esses arcos só existem para justificar novas temporadas da série (a segunda temporada recebeu luz verde para a produção antes mesmo de a primeira ir ao ar), o que pode significar problemas no futuro, ainda que seja cedo demais para julgar.

Physical é, sem dúvida alguma, uma série que tem o potencial de enganar o espectador que se deixar levar por sinopses ou trailers. Esse “engano”, que se relaciona com tudo que a série poderia ter sido, mas que ainda bem que não é, tem a grande vantagem de levar o espectador por uma jornada muito mais interessante e profunda do que o material promocional parecia prometer, mesmo que seja um desafio ultrapassar as barreiras desagradáveis que Annie Weisman propositalmente coloca nesse caminho.

Physical – 1ª Temporada (Idem – EUA, 18 de junho a 06 de agosto de 2021)
Criação: Annie Weisman
Direção: Craig Gillespie, Liza Johnson, Stephanie Laing
Roteiro: Annie Weisman, Rosa Handelman, Jessica Dickey, Alexandra Cunningham, Lex Edness, Justin Bonilla
Elenco: Rose Byrne, Rory Scovel, Geoffrey Arend, Paul Sparks, Lou Taylor Pucci, Della Saba, Dierdre Friel, Ashley Liao, Ian Gomez, Grace Kelly Quigley, Erin Pineda, Al Madrigal, Mary Holland, Tamra Meskimen, Blaine Gray, Ray Wise,
Wendie Malick
Duração: 286 min. (10 episódios)

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