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Crítica | Pieces of a Woman

por Iann Jeliel
1757 views (a partir de agosto de 2020)

  • Contém SPOILERS moderados.

A expectativa de receber uma vida, o fim de uma batalha de nove meses contra bombas hormonais constantes e emocionalmente intensas, a linha tênue entre o momento mais feliz da vida de uma mulher e também o de maior dor. Pieces of a Woman gasta seus trinta minutos iniciais em um longo plano-sequência a fim de captar todas as nuances envolvendo o parto de Martha (Vanessa Kirby), a protagonista, que terá sua vida completamente mudada após isso. A cena em si é conduzida pelo cineasta húngaro Kornél Mundruczó com uma preocupação em detalhismos de mise-en-scène tão específicos que a tornam um fácil pressuposto de sua proposta dramatúrgica enquanto longa-metragem. E nem coloco essa exposição fácil de proposta na conta do detalhismo técnico avançado envolto na sequência, que claramente dispensa elogios. O grande ponto aqui é que existe um partido de presságio muito óbvio que acaba apostando as fichas dramáticas dos personagens em um momento só, sendo que havia um filme todo ainda pela frente.

Vejamos: a filmagem remete a um exercício de gênero, é quase como um filme de terror, em que a tensão para a hora do parto chegar é extremamente sufocante pela aproximação da lente na face e nas expressões dos personagens, quase como se um assassino estivesse se aproximando (e de fato, está). Enquanto o suspense da vinda do bebê se articula, o efeito de continuidade aproveita essa aproximação a faces também para fazer um prévio desenvolvimento de vínculo do casal. Se o intuito do sequenciamento estava para o testemunho do parto situacional, esse desenvolvimento no meio do suspense já nos adianta que depois daquele evento é preciso que nós tenhamos comprado o vínculo do casal. O aproveitamento temporal vai além, e nos desvios do foco da ação, geralmente quando a câmera foca no nada para que haja timing de reorganização cenográfica dos elementos e plano-sequência de prosseguimento com coerência, também estabelece princípios dramáticos futuros, já que esses desvios se direcionam muitas vezes à figura da obstetra (Molly Parker), que vai ficando perdida à medida que o parto se desenrola.

Essa desorientação da personagem vai nos indicando que algo vai dar muito errado ali, e se algo vai dar errado, o princípio de criar vínculo entre os personagens para o público é para que sintamos uma possível separação dos dois no futuro próximo do filme. Por mais que o diretor não meça esforços para acreditarmos que aquela tensão do parto irá ser recompensada de alguma maneira (há uma pausa muito boa antes da tragédia que dá aquela falsa esperança enganosa), o excesso de detalhismo colocado para esses desenvolvimentos futuros é tão conclusivo que se fecha na própria cena, tamanha a intenção de impacto que ela deseja. Quando o filme recomeça, não exatamente irá trabalhar as migalhas despedaçadas, tampouco desenvolvê-las, mesmo que a intenção seja essa. O efeito que fica é de uma contemplação do sofrimento estendida pelo impacto que imageticamente já havia se esvaído na dedicação colocada nos minutos iniciais.

Tanto que a relação dramática mais promissora da metade para o fim é entre Martha e sua mãe (Ellen Burstyn), renegando um pouco a parcela de perspectiva de Sean (Shia LaBeouf), marido de Martha, que está diante da situação de forma igualmente devastadora. De algum modo até faz sentido esse escanteamento pensando no mote do filme como a maternidade. Os melhores momentos do roteiro, de fato, são aqueles que confrontam mãe e filha diretamente na noção de falta ou não de cuidado. Há uma cena em especial que é digna daquelas “preparadas” para o Oscar, em que explodem as emoções e a dupla de atrizes é mais exigida a brilhar. No entanto, pensando na prática, essas ideias discutidas sobre a maternidade sempre convergem na busca de um julgamento ao luto, ou seja, a dramática também deveria estar sobreposta à situação de um modo geral. Afinal, a cena do parto foi filmada em sequência para isso, o aspecto temporal com as datas dos dias passando para destruir mais a relação intimamente estão ali para isso, e é um drama sobre a situação daquele casal, não sobre simbolicamente a figura da “mãe”.

É verdade que uma coisa não anula a outra, até se completam, mas é uma questão de proposta. Em nenhum momento em seu desenvolvimento o filme busca ir às raízes, no máximo passando uma cena ou outra da mãe observando outras crianças com aquele olhar distante ou comendo maçãs, o que será um macguffin de encerramento, de fato, na raiz. Mas se a ideia é ir à raiz somente no princípio conclusivo – e aí, o drama de tribunal é a ponte perfeita para essa resolução -, a falta de exploração de outros cômodos da situação faz falta, muito porque o potencial do que é colocado em foco já foi gasto, como mencionado, no início. Portanto, a sensação é de um drama eficiente por não sensacionalizar a maternidade, mas não tão melancólico quanto quer ser no assunto, devido a um ápice de impacto tão óbvio que vai esvaziando a dramaturgia, cada vez mais dependente de metáforas, igualmente óbvias.

Pieces of a Woman (Idem | EUA, 2021)
Direção: Kornél Mundruczó
Roteiro: Kata Wéber
Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Iliza Shlesinger, Benny Safdie, Sarah Snook, Molly Parker
Duração: 128 minutos

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