Alienígenas chegaram à Terra simultaneamente em seis regiões e foram embora apenas dois dias depois. Não se sabe quem eles eram, o que queriam e para ande foram, apenas os aparentes “restos” que deixaram lugares em que permaneceram brevemente. No entanto, essa “visitação” não é o objeto de Piquenique na Estrada, a obra mais conhecida dos irmãos Arkádi e Boris Strugátski, mas sim o que aconteceu depois dela. E, mais curioso ainda, é que os autores não lidam com o que aconteceu imediatamente depois do evento, mas sim muito tempo após, com toda uma lógica de, um lado, de preservação, estudo e defesa dessas regiões ricas em tecnologia alienígena por parte das Nações Unidos e, de outro, de um mercado clandestino e ilegal de contrabando dessas mesmas tecnologias que são obtidas por meio de stalkers, humanos que corajosamente desbravam os lugares habitados pelos E.T.s para recolher o que quer que seja que possa ter algum valor monetário.
Do macro, representado por uma introdução com a entrevista radiofônica do Dr. Valentine Pilman, creditado como um especialista que descobriu que a escolha das seis regiões visitadas não foi aleatória, os Irmãos Strugátski imediatamente vão ao micro e nos apresentam a Redrick “Red” Schuhart, um stalker experiente, mas jovem, que tenta sair da ilegalidade trabalhando em um instituto que pesquisa uma das Zonas de Visitação próxima à cidade fictícia de Harmont, em um país não especificado. Em uma expedição oficial para a Zona, ele recolhe um artefato que acaba resultando na morte de seu chefe e amigo, levando-o a uma espiral de culpa que o deixa transtornado, incapaz de continuar seu trabalho legítimo, mas tendo ainda que lidar com a gravidez de sua namorada que decidi ficar com o bebê mesmo com o risco conhecido de ele sofrer mutações em razão da proximidade com a região afetada pela visitação.
O lado humano da história, que leva Red de volta ao seu antigo trabalho exploratório ilegal, pode ser metaforicamente interpretado como uma abordagem niilista da vida, algo que não vem apenas da natureza do protagonista ou dos eventos que o levam a agir como tal, mas sim do próprio significado, para a Humanidade, da visitação de alienígenas que sequer parecem ter notado que havia toda uma civilização inteligente no planeta em que pararam por um tempo. Somos reduzidos a menos do que insetos dentro do conceito exposto pelos Strugátskis que aborda nosso lugar no universo e demole por completo a importância dos humanos no tabuleiro do universo. Todo o orgulho que sentimos pelas novas descobertas, invenções e capacidade de pensar, raciocinar e filosofar é esmagado por alienígenas que fazem da Terra uma “parada de estrada”, um local qualquer de descanso em que nenhuma forma de interação é sequer tentada e tudo o que fica aqui no planeta parece ser meramente lixo.
Essa filosofia, que inclusive explica o título do livro, é o alvo da terceira e penúltima parte do livro (sem contar com a introdução), que funciona essencialmente como um interlúdio – digo essencialmente, pois a história principal continua – e que é usada pelos autores para explicitar aquilo que, antes, ficava apenas nas entrelinhas. Confesso que eu não gosto do artifício literário utilizado pelos Strugátskis aqui, pois eles parecem pegar na mão do leitor para destrinchar o que estava ali no subtexto. Mais até do que isso, o momento em que o Dr. Pilman efetivamente entra na história para expor sua visão do que foi a Visitação parece ser a ideia que os autores originalmente tiveram e escreveram, com tudo o que acontece antes e depois não passando de uma forma de eles justificarem chegar a esse ponto. Pelo menos o que eles escrevem sobre o périplo de Red tentando descobrir-se e, diria até, reinventar-se é genuinamente interessante e bem construído, com a terceira parte fazendo com que a narrativa perca sua fluidez quase que por completo, como um desvio didático para que ninguém tenha dúvida da mensagem que está sendo passada.
Por outro lado, é inegável que o conceito da Visitação criada por Strugátskis é realmente fascinante e, mais do que isso, um gigantesco tapa na cara da arrogância humana que pisoteia em nosso orgulho e nos reduz a quase nada na lógica celestial. E é por isso, não tenho dúvida, que Piquenique na Estrada tornou-se uma obra cultuada das mais diferentes formas, seja por meio da clássica, mas longínqua adaptação cinematográfica por Andrei Tarkóvski, seja por meio de videogame, pela inserção do termo stalker no vocabulário russo e até mesmo, dizem, a inauguração de atividades exploratórias urbanas nas décadas que se seguiram. Não consigo concluir que se trata de uma obra-prima como muitos defendem pelo ponto central de construção que levantei, mas o romance é realmente uma daquelas obras que fazem nossa mente explodir em pensamentos angustiantes.
Piquenique na Estrada (Пикник на обочине / Piknik na Obochine – União Soviética, 1972)
Autoria: Arkádi Strugátski e Boris Strugátski
Editora original: Avrora (Aurora)
Data original de publicação: edições #7 a 10 da revista Avrova
Editora no Brasil: Editora Aleph
Data de publicação no Brasil: 03 de novembro de 2017
Tradução: Tatiana Larkina
Páginas: 320
