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Crítica | Planeta do Tesouro

por Ritter Fan
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O ano de 2002 foi curioso para o Walt Disney Animation Studios. Tratou-se de uma das únicas vezes – e até o ano da publicação da presente crítica, a última – que o estúdio lançaria dois longas animados no mesmo ano. E, mais curioso ainda foi que a grande aposta da empresa foi Planeta do Tesouro, que ficara em lenta gestação desde 1985 e levou nada menos do que quatro anos e meio para ser produzido, e não Lilo & Stich, que corria por fora, com resultados de bilheteria e crítica bastante opostos, como a história mostra.

Mas o fracasso financeiro de Planeta do Tesouro não teve mérito. A animação pode ser facilmente considerada como a melhor adaptação audiovisual do clássico literário A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson (Black Sails é prelúdio, então não conta) e também muito sólida por seus próprios méritos. A dupla Ron Clements e John Musker, responsável por inaugurar o chamado Renascimento Disney com A Pequena Sereia, escreveu (com Rob Edwards, egresso da televisão) e dirigiu a animação com espantosa fidelidade ao material fonte, mas também com grande criatividade para situar a narrativa de forma anacronística como um sci-fi retrô muito charmoso, usando a chamada “Lei 70-30” criada por Clements, que determinava que 70% do filme deveria ter visual tradicional e 30% ficção-científica, algo que o diretor de arte Andy Gaskill parece ter seguido à risca e que também foi adotado na arquitetura de som e na trilha sonora (esta ao encargo de James Newton Howard).

Com isso, a aventura do jovem Jim Hawkins (Joseph Gordon-Levitt), que sai à procura do lendário tesouro do Capitão Flint depois de receber um mapa do moribundo Billy Bones (Patrick McGoohan), com a ajuda e patrocínio do astrônomo Dr. Delbert Doppler (David Hyde Pierce) e da Capitã Amelia (Emma Thompson) do navio Legacy, é um deleite visual que encanta pela fusão perfeita entre passado e futuro, sem perder a assinatura Disney ao longo da narrativa, especialmente com a presença do simpático Morfo (Dane Davis), o bichinho transmorfo do ameaçador ciborgue pirata disfarçado de cozinheiro John Silver (Brian Murray). Se há encanto na materialização desse universo mesclado, há, também, um infelizmente inegável descuido com a construção e desenvolvimento dos personagens, com o roteiro ficando apenas na superfície em relação a praticamente todos que estão ao redor de Hawkins e Silver, os únicos a ganharem mais estofo, ainda que nada particularmente fora de série, o que, de certa forma, pode causar distanciamento nos espectadores (e que fica muito evidente na comparação com a forma como Lilo e Stitch são abordados no filme “concorrente” do ano).

Mas Planeta do Tesouro tem um gostoso e irresistível charme e um ritmo de aventura que dialoga bem com o deslumbramento de Hawkins, desde criança, com o mundo além da estalagem onde vive com sua mãe. Não só o espírito do livro original é perfeitamente capturado, como a transposição para um cenário diferente, mas não tanto, captura a imaginação e empresta um verniz novinho à boa e velha aventura “marítima”. Nesse ponto, a animação merece todo o mérito, com a equipe evoluindo a tecnologia usada em Tarzan, que permitia grande profundidade de campo, e criando modelos 3D de todos os cenários, o que tornou possível belíssimos planos-sequência em que a câmera passeia e rodopia sem limites por toda a locação, algo que fica particularmente evidente no sensacional espaço-porto em formato de lua minguante de onde parte a expedição. A computação gráfica é combinada com personagens desenhados à mão e a paleta de cores ganhou cores quentes que também combinam bem com o tom da fita para um resultado deslumbrante que ainda se beneficia de grande criatividade na imaginação das variadíssimas criaturas alienígenas.

Fugindo da fórmula de musical, a animação tem apenas uma canção inserida em sua duração (a outra toca apenas nos créditos) e que serve de pano de fundo para a montagem em que vemos a amizade entre Hawkins e Silver aflorar. Não é particularmente memorável ou especial, mas I’m Still Here, de John Rzeznik (do Goo Goo Dolls) cumpre sua função temática ao estabelecer-se como o “tema de Jim”, trazendo mais informações de sua infância, o abandono do pai e o lugar que Silver ocupa em sua vida. É uma daquelas situações em que as imagens valem mais do que as palavras, mas a canção não faz feio nesse contexto.

Planeta do Tesouro é, para não fugir do trocadilho, um pequeno tesouro de aventura infanto-juvenil que foi enterrado pelo diminuto, enlouquecido e adorável alienígena azul e sua “dona” havaiana. É, definitivamente, porém, uma animação que merece ser redescoberta e admirada.

Planeta do Tesouro (Treasure Planet, EUA – 2002)
Direção: Ron Clements, John Musker
Roteiro: Ron Clements, John Musker, Rob Edwards (baseado em romance de Robert Louis Stevenson)
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Austin Majors, David Hyde Pierce, Emma Thompson, Martin Short, Brian Murray, Roscoe Lee Browne, Laurie Metcalf, Dane Davis, Michael Wincott, Patrick McGoohan, Tony Jay
Duração: 95 min.

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18 comentários

JC 23 de março de 2021 - 19:35

Finalmente assistir! Nunca tinha ouvido falar até o Plano Crítico… Estou impressionado. Como um filme simples tem umas características bem marcantes. Até morte de personagens! Que não voltam mesmo!!!!
Nada de fazer do pai do Jim um cara bom que largou o filho por algum motivo….etc.

Tem os clichês de sempre numa aventura dessas. Mas é tão feito que se encaixa certinho!

Que criatividade de design nesse desenho. Caramba!

Muito legal mesmo ! Só o Morf merecia um desenho próprio! Ahahaha <3

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planocritico 24 de março de 2021 - 16:14

Ahhhhhh, que legal!!!! Ainda bem que gostou e mais bacana ainda saber que viu por nossa influência!

Infelizmente, essa animação da Disney foi completamente esquecida nas brumas do tempo…

Abs,
Ritter.

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JC 24 de março de 2021 - 22:36

É muito bem feitinha….chega deu pena de não ter feito sucesso….virou um dos meu xodós facilmente!

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planocritico 18 de novembro de 2018 - 19:04

É uma baita animação mesmo, @hialee:disqus ! Infelizmente, poucos se lembram dela.

Abs,
Ritter.

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H-Alves 11 de novembro de 2018 - 10:31

Resolvi ver esse filme essa semana pois estou fazendo uma super maratona de filmes de animações. De todos os estúdios, faixa etária, estilos e etc.
Esse filme me foi apresentado como o filme esquecido da Disney e confesso que nunca nem tinha ouvido falar nele. E cara eu adorei totalmente, acredito realmente que o fracasso não se deve a qualidade do filme, mais a uma combinação cósmica de azar.
Se bem que concorrer com lilo e stich não deve ter sido fácil.. Até hj lilo e stich é um dos filmes preferidos, independente de ser animação ou não

Enfim é um filme excelente e tem um dos vilões mais carismáticos que já vi.
Gostaria muito de ver uma possível expansão desse universo.

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planocritico 17 de outubro de 2018 - 15:41

Sim, antes teve mais vezes em que dois filmes foram lançados no mesmo ano. Mas depois não (pelo menos não até hoje).

E valeu!

Abs,
Ritter.

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Gabriel Carvalho 3 de fevereiro de 2019 - 18:36

Dando de palestrinha depois de meses, Moana e Zootopia foram em 2016.

Responder
planocritico 17 de outubro de 2018 - 15:40

Há essa alegação de plágio em Atlantis, mas eu nunca vi o material base que dizem que foi copiado. Mas alegações de plágio têm que ir além da “cópia” da ideia e, na maioria das vezes, essas alegações param por aí mesmo…

Abs,
Ritter.

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vc falou em pipoca? 17 de outubro de 2018 - 18:35

No caso de atlantis aqui está o material comparado com o anime nadia, mas eu não tenho certeza se vai além das semelhanças dos conceitos e personagens, inclusive depois de saber que rei leão não é plágio de kimba eu tenho esperanças nesse outro caso.
https://i.imgur.com/iMQ932g.png
https://i.imgur.com/bUgWmcC.png
https://i.imgur.com/XeYqP20.png
https://i1.wp.com/animeharbor.com/wp-content/uploads/2018/04/Atlantis-Nadia.jpg?resize=685%2C385&ssl=1

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planocritico 17 de outubro de 2018 - 18:44

Pois é. Olhando apenas essas imagens, digo com segurança que não é plágio. Agora, seria necessário ver a animação “plagiada” e fazer uma comparação mais detalhada. Conceito e ideia, assim como temas e situações ordinárias e comuns precisam ser separados e o julgamento só pode recair no que sobra.

Abs,
Ritter.

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planocritico 17 de outubro de 2018 - 15:38

Estou com você! É um baita filmaço da Disney que foi inexplicavelmente um fracaso e, ato contínuo, esquecido por todos… Merecia mais reconhecimento!

Abs,
Ritter.

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belaah 17 de outubro de 2018 - 14:02

Amo esse filme. Para mim é um dos melhores da Disney. Fico feliz em ver uma critica positiva depois tanto tempo. Na época muitos críticos falaram mal. Mas sempre gostei muito, principalmente por conseguirem trabalhar com personagens se desenvolvendo tão bem.

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Gabriel Carvalho 17 de outubro de 2018 - 12:20

Fantasia 2000 e Tarzan não foram lançados no mesmo ano também não? Ótimo texto, by the way.

Responder
Flavio Batista 17 de outubro de 2018 - 09:55

Nunca entendi o fracasso desse filme. A relacao entre o garoto e Silver é magnifica.
Agora, @planocritico:disqus, qual a relaçao entre Black Sails e ilha do tesouro?
Ja ta na minha lista de maratonas (assim q terminar Better Call Saul), mas aumentou minha curiosidade

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planocritico 17 de outubro de 2018 - 10:02

@disqus_GZWEmvRlaw:disqus , Black Sails conta a história de como o pirata Capitão Flint pilhou e escondeu seu tesouro, ou seja, conta os eventos que só ficam muito nas entrelinhas do livro, inclusive as origens de Billy Bones e Long John Silver. No entanto, diferente do livro, que é infanto-juvenil, a série é adulta, com muito sangue e sexo.

Abs,
Ritter.

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planocritico 17 de outubro de 2018 - 08:17

Pode ter sido, mas o fracasso foi retumbante demais. Foi alguma combinação astral desastrosa, pois o filme está longe, MUITO longe de ter merecido isso.

Abs,
Ritter.

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vc falou em pipoca? 17 de outubro de 2018 - 12:47

Não poderia concordar mais, tem nele praticamente tudo que é necessário num filme da disney, é emocionante, engraçado, tenso e uma trilha instrumental de arrepiar.

Off: esse filme também me lembra atlantis então queria saber se esse último é realmente um plágio como todo mundo diz, me ajudaria a ter menos culpa na hora de apreciá-lo.

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vc falou em pipoca? 16 de outubro de 2018 - 20:20

Se não me engano o maior erro da animação foi estrear na mesma época que harry potter e a câmara secreta. Considero ela como um fruto do legado de lilo & stitch, os aliens presentes na narrativa poderiam facilmente compor o universo da experiência 626. E as sequências espaciais provavelmente também deixaram Chris Sanders orgulhoso, recheadas de suspense de modo que é impossível não vibrar quando os heróis escapam de um buraco negro ou de um planeta prestes a ser destruído.

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