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Crítica | Planeta dos Macacos – A Origem

por Luiz Santiago
649 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Já não é segredo para alguns diretores de Hollywood que o caminho mais fácil (e comercialmente mais eficaz) para realizar um filme de gosto popular é primar pelo humanismo na construção das personagens e da trama. Quando se aproxima a temática e os conflitos tipicamente humanos dos seres ou animais que normalmente não os possui, o público tende a transparecer uma dose extra de simpatia, e a partir daí, fica mais fácil a aceitação do produto.

Planeta dos Macacos: A Origem colecionou elogios, garantindo o status de um dos melhores blockbusters de 2011. Esse resultado deve-se à humanização adotada pelo roteiro de Rick Jaffa e Amanda Silver, e também pela acertada opção de nos trazer a história não pelo ponto de vista humano, mas dos macacos, um pequeno diferencial narrativo que faz valer a sessão, embora o descompasso do ritmo interno acabe por diminuir-lhe um pouco o valor.

O Planeta

Nos bons filmes de ficção científica, não raro os problemas de ordem humana aparecem junto com uma crítica social, a exemplo do filme que deu origem à febre símia, O Planeta dos Macacos (1968), dirigido pelo exigente Franklin J. Schaffner. A adaptação da obra homônima de Pierre Boulle superou as expectativas da Fox e ganhou mais quatro sequências que vão de deploráveis a razoáveis, contando ainda com um remake de Tim Burton, em 2001. Com um novo estímulo, a série ressurge em 2011 também como um remake, mas dessa vez, trabalhando de maneira nuclear a explicação sobre o domínio dos macacos na Terra, dada em A Conquista do Planeta dos Macacos (1972).

Inúmeras referências aos outros filmes da saga aparecem aqui, desde a Estátua da Liberdade que César monta em uma das cenas, até a clássica frase “Take your hands off me, you damned dirty ape”, dita pelo personagem de Tom Felton, em boa caracterização no filme. Sem desprezar as raízes originais dos primeiros episódios, Rupert Wyatt nos apresenta uma película que é um ótimo entretenimento e um bom recomeço de franquia.

Uma indústria farmacêutica tem a ambição de encontrar a cura para o Alzheimer, e a criação do ALZ 112 e 113 é o último estágio para o milagre. Após um lamentável episódio inicial, e com a fórmula já reestruturada, os testes apresentam ótimos resultados em macacos, e despertam a ambição financeira do empresário responsável pela marca. O que escapa ao dono da empresa é que além de aumentar consideravelmente a inteligência dos símios, o produto é letal ao ser humano. Um motim, uma morte causada pelo produto e o início do contágio mundial: eis a trama completa da Origem.

A narrativa que nos apresenta a visão do animal oprimido e dotado de sentimento é um trunfo importante para filme, porque deixa os humanos como coadjuvantes e dá maior impacto à trama, mas contribui bastante para a medíocre direção de atores que ali encontramos. James Franco, que deveria segurar o lado humano do filme com a mesma competência que sustentou sua personagem em 127 Horas, aparece inexpressivo a maior parte do filme. Sua atuação é desnecessariamente contida, e não há justificativa dramática para tanto. Pode-se justificar essa postura dizendo que ela não pretende desviar o foco ou a importância no que se refere aos macacos. Mas ora, se a narrativa adotada já traz a visão símia, e se desde que vemos César como bebê, simpatizamos com ele, não é um absurdo acreditar que uma atuação mais vivaz do protagonista humano fosse diminuir a importância do protagonista símio? Menor que James Franco é a insossa personagem de Freida Pinto, cuja participação no filme justifica-se apenas no plano clichê do par romântico. Os bons destaques do filme encontram-se nos personagens menores vividos muitíssimo bem por John Lithgow, Brian Cox e Tom Felton.

As relações de poder burocrático não constam no filme. Sua crítica ressalta a organização ambiciosa dos seres humanos, sua nula importância com a natureza, crueldade e ganância. Ao contrário do filme de 1968, a caça é de símios e não de humanos, e as dolorosas experiências também acontecem com esses animais capturados. Aos poucos, o filme constrói toda uma rede de justificativas para a revolta dos animais. Já a contaminação, que nos filmes posteriores causará o extermínio de quase 100% dos humanos, é um acidente de resultados em cadeia, nada tem a ver com os símios. A atmosfera de iminente revolta impera a partir do meio da obra, e em sua reta final, temos uma legítima indicação visual no quarto de Robert Franklin, o responsável pelos símios no laboratório: um grande pôster de O Encouraçado Potemkin.

Dos Macacos

O excelente uso da tecnologia CGI permitiu ao filme convencer visualmente o espectador. A captação dos movimentos de atores reais, filmados em locação, deram ainda mais veracidade aos macacos, e destacamos especialmente os olhos do protagonista César e as expressões faciais de todos os símios. O único momento em que podemos aplicar a palavra “artificialidade” é quando vemos César ainda bebê, mas pode-se caracterizar essa opinião de purista, porque todas as cenas são feitas com muita competência, de modo que a impressão de artificialidade do bebê macaco não tem importância alguma para o filme como um todo.

A fotografia de Andrew Lesnie dá uma iluminação mais metálica às cenas, e a tendência naturalista, tal como o diretor usou na trilogia O Senhor Dos Anéis ou em King Kong, finaliza o trabalho de ressalto à realidade. Um mundo diegético entre o azul e o cinza ou o branco de laboratório existe na maior parte do tempo, salvando-se a clareza dos “ambientes humanos”, como o consultório da veterinária, a casa de César, a casa dos Rodman. Na mesma linha, a direção de arte enriquece as internas em residências com um sem número de objetos, e mostra a impessoalidade da decoração industrial, que, desprovida de humanidade, ganha a partir de sua arquitetura uma objetiva e gélida identidade.

Entre esses dois mundos, passamos do César domesticado, dócil, defensor de quem gosta, para o César calculista e vingativo. Esse comportamento, no entanto, não retira do protagonista a simpatia inicial, e a partir dessa ótica, podemos entender o filme como um drama familiar: a história do órfão subjugado e abandonado, dotado de sentimentos mas consciente de seu lugar no mundo, revolta-se contra a ordem instituída. Mesmo dotado de moral e ética humanas, ele não se furta em liderar uma nova realidade para si, ao lado daqueles que considera como seus.

Nota-se também que os roteiristas construíram as personagens com diferentes categorias morais e exposição ética, havendo aí dois modos de observamos como a direção arquitetou essas diferenças. Primeiro, com ajuda da edição em uma leve abordagem dialética, equiparando a personalidade de um símio a de um humano; segundo, opondo os dois mundos como sendo construtores de seus próprios sentimentos e emoções. Do início até quase o final da película, somos simpáticos aos símios. A quebra acontece após o motim urbano – aliás, uma sequência muito bem dirigida, com a ação pulsando na medida certa durante todo o tempo, onde destaca-se, mais uma vez, o inteligente uso da tecnologia digital – quando os macacos passam de vítimas oprimidas e menosprezadas para vilões. Todavia, numa louvável guinada dramática, a parte final do filme volta a trazer os macacos ao patamar anterior. Da agressão à observação, eles fitam panoramicamente o mundo que em breve lhes pertencerá, e isso é tão bem filmado, que não fere, em absoluto, o senso de sobrevivência, mesmo que diegético, do espectador.

A Origem

O passo inicial está dado, e a saga do Planeta dos Macacos recomeça em grande estilo. Ou quase.

O erro crasso do diretor nesse filme foi estender em demasia o tempo pacífico ou de preparação dos animais até o motim. Essa atitude não teria problema algum se o filme fosse mais longo, uma vez que poderia ser feito um trabalho menos abrupto sobre a revolta símia. A meia hora final da película extrapola todos os limites de ritmo já imaginados. Passamos de nichos de conflitos para um tsunami de pura ação, e para piorar, o filme “não termina”, ou seja, tudo converge para um gancho do segundo filme. Sendo assim, fica difícil levar o produto muito a sério já que sua preocupação com o próximo episódio sobrepõe-se a um bom desfecho da origem de tudo.

Planeta dos Macacos: A Origem não é um clássico. Além do problema de ritmo interno (e por tabela, externo), o roteiro deixa passar uma ou outra falha no relacionamento homem–chimpanzés, falhas que não comprometem a história como um todo, mas incomodam muito quando aparecem; e a direção de atores é regular, apesar do bom uso da tecnologia CGI. Como se vê, o filme está suspenso em compensações, mas essas são tão bem arquitetadas, que o todo consegue ostentar a bandeira de bom filme, e se pararmos para pensar no que ele se propõe a oferecer, de fato, é um bom filme.

Em meio aos debates sobre o futuro da humanidade, surge uma obra que retira de uma vez por todas o homem do comando do planeta. O futuro chegou. E nós não estamos nele.

Publicado originalmente em 21/07/2014.

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, EUA – 2011)
Direção: Rupert Wyatt
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver
Elenco: James Franco, Andy Serkis, Freida Pinto, Brian Cox, Tom Felton, John Lithgow
Duração: 105 min.

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9 comentários

Luís Gabriel 22 de julho de 2020 - 00:10

Acabei de assistir; as reflexões que ele traz e o fato de em várias cenas nós entendermos o que se passa apenas pela comunicação física dos macacos foi o que eu mais gostei. Aguns detalhezinhos do plot achei bem convenientes (tipo o César conseguindo o canivete), mas no geral é bem legal.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 22 de julho de 2020 - 11:46

Para mim acabou sendo uma baita surpresa. Não estava dando nada por esse filme e o que ele consegue fazer com a franquia é algo fantástico, abrindo as portas para uma revisão interessante dessa saga.

Responder
novo homem de ferro 14 de dezembro de 2017 - 10:55

Caramba Luiz você por aqui kkk eu
estava justamente pensando em criticar outra coisa além de doctor who, e como recentemente eu tinha visto a nova trilogia do planeta dos macacos vim aqui dar minha opinião

Bom pra começar planeta dos macacos era uma franquia que não tava dando muito certo , cujos primeiros filmes foram excelentes e então foram decaindo até chegar no horrível remake do Tim Burton, mas não temas pois a luz voltou para essa franquia com essa nova trilogia

Pra começar a origem tinha tudo para ser um filme ruim , desde o tema , desde o fato do personagem principal ser feito em CGI , mas o filme faz justamente o contrário e se torna um excelente início de trilogia é fantástico se pararmos pra pensar ver que Cesar era um bichinho de estimação e virou o líder de um povo inteiro, e como a falha e o egoísmo humano podem causar destruição imensa como foi o caso da gripe simion , além do fato de que vemos humanos torturando os macacos como se fossem animais
kkkk desculpe mas não pude resistir , então temos a primeira fala do Cesar algo muito lindo de se ver porque é Andy Serkis o cara é um dos maiores mitos na captura de movimento , é por causa dele que querem criar um Oscar para isso e eu concordo, dêem um Oscar para esse cara

Mas o filme tem uma falha o CGI ainda não estava perfeito sabe o que cria cenas como a da ponte , bonitas,mas parecendo sair de um Playstation , só que se fomos pensar se não fosse aquele CGI de baixo orçamento não teríamos essa beleza visual que foi planeta dos macacos a guerra, onde não dá pra saber o que é CGI o que é real , os pelos são lindos demais juntos com as expressões simplesmente fodastico

Responder
novo homem de ferro 14 de dezembro de 2017 - 10:55

Caramba Luiz você por aqui kkk eu
estava justamente pensando em criticar outra coisa além de doctor who, e como recentemente eu tinha visto a nova trilogia do planeta dos macacos vim aqui dar minha opinião

Bom pra começar planeta dos macacos era uma franquia que não tava dando muito certo , cujos primeiros filmes foram excelentes e então foram decaindo até chegar no horrível remake do Tim Burton, mas não temas pois a luz voltou para essa franquia com essa nova trilogia

Pra começar a origem tinha tudo para ser um filme ruim , desde o tema , desde o fato do personagem principal ser feito em CGI , mas o filme faz justamente o contrário e se torna um excelente início de trilogia é fantástico se pararmos pra pensar ver que Cesar era um bichinho de estimação e virou o líder de um povo inteiro, e como a falha e o egoísmo humano podem causar destruição imensa como foi o caso da gripe simion , além do fato de que vemos humanos torturando os macacos como se fossem animais
kkkk desculpe mas não pude resistir , então temos a primeira fala do Cesar algo muito lindo de se ver porque é Andy Serkis o cara é um dos maiores mitos na captura de movimento , é por causa dele que querem criar um Oscar para isso e eu concordo, dêem um Oscar para esse cara

Mas o filme tem uma falha o CGI ainda não estava perfeito sabe o que cria cenas como a da ponte , bonitas,mas parecendo sair de um Playstation , só que se fomos pensar se não fosse aquele CGI de baixo orçamento não teríamos essa beleza visual que foi planeta dos macacos a guerra, onde não dá pra saber o que é CGI o que é real , os pelos são lindos demais juntos com as expressões simplesmente fodastico

Responder
Luiz Santiago 14 de dezembro de 2017 - 12:11

“macacos como se fossem animais” HAUHAUAHUAHUAAUAHU EU TO BERRANDO! AHUAHAUHAUAHUAHAUAHUAHUAHA

A essa altura do campeonato você já percebeu o quanto eu amo ficção científica, distopias e viagens no tempo. E essa saga tem tudo isso. Amo o filme originais e gosto da saga clássica. Gosto do filme do Tim Burton, mas esse aqui… olha… foi uma baita surpresa. Não estava esperando nada e saí do cinema muito feliz com o que vi. É o tipo de história, por uma porção de coisas morais, que nos fisga de cara!

Responder
novo homem de ferro 14 de dezembro de 2017 - 17:08

Kkkkk sim eu sei e tmb adoro tudo isso , sinceramente acho que essa trilogia inteira foi uma grande surpresa muito mais muito agradável , cada filme tem seu Tom e todos eles se combinam de forma perfeita , primeiro a ação de uma nova espécie tendo origem, depois o suspense do confronto com humanos e então o drama da guerra, sabe um filme que me agradou demais ? O confronto, nossa foi simplesmente genial ter sido um macaco que começou a guerra eu esperava que seria um humano fazendo merda, foi surpreendente, simplesmente uma das melhores trilogia da franquia se não a melhor

Responder
Luiz Santiago 14 de dezembro de 2017 - 18:37

Sim! Mas é bem isso que você apontou: essa trilogia é surpreendente, justamente por ninguém dar nada ela se manteve no topo e conquistou o respeito de todo mundo. Essa temática é difícil, mas quando bem trabalhada… dá um bom caldo.

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novo homem de ferro 14 de dezembro de 2017 - 17:08

Kkkkk sim eu sei e tmb adoro tudo isso , sinceramente acho que essa trilogia inteira foi uma grande surpresa muito mais muito agradável , cada filme tem seu Tom e todos eles se combinam de forma perfeita , primeiro a ação de uma nova espécie tendo origem, depois o suspense do confronto com humanos e então o drama da guerra, sabe um filme que me agradou demais ? O confronto, nossa foi simplesmente genial ter sido um macaco que começou a guerra eu esperava que seria um humano fazendo merda, foi surpreendente, simplesmente uma das melhores trilogia da franquia se não a melhor

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Luiz Santiago 14 de dezembro de 2017 - 12:11

“macacos como se fossem animais” HAUHAUAHUAHUAAUAHU EU TO BERRANDO! AHUAHAUHAUAHUAHAUAHUAHUAHA

A essa altura do campeonato você já percebeu o quanto eu amo ficção científica, distopias e viagens no tempo. E essa saga tem tudo isso. Amo o filme originais e gosto da saga clássica. Gosto do filme do Tim Burton, mas esse aqui… olha… foi uma baita surpresa. Não estava esperando nada e saí do cinema muito feliz com o que vi. É o tipo de história, por uma porção de coisas morais, que nos fisga de cara!

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