Crítica | Plano de Voo (2005)

Creio que não seja honesto fazer uma análise de Plano de Voo sem referenciar adequadamente A Dama Oculta, dirigido por Alfred Hitchcock e lançado em 1938. O suspense, tenso e esteticamente deslumbrante, escrito por Sidney Gilliot e Frank Lauder, baseado no romance de Ethel Lina White apresenta a estrutura que embasa os acontecimentos dos personagens que diferente do clássico, digladiam diante de seus conflitos internos e externos dentro de uma aeronave numa era dominada pelo pânico social diante dos episódios de terrorismo, haja vista as cicatrizes estadunidenses diante do 11 de setembro de 2001.

Lançado em 2005, o filme foi produzido entre os Estados Unidos e a Alemanha e traz um grupo de idealizadores cientes do potencial de uma narrativa dentro de um avião pós 11/9. Para isso, emularam elementos de A Dama Oculta, tais como a maldade humana e a postura calculista de seres inescrupulosos, juntamente com uma viagem claustrofóbica que guia os personagens e os espectadores. O resultado é Plano de Voo. O meio de transporte é modificado, saindo da via terrestre para a aérea, isto é, o que se passava num trem ocorre dentre de um avião com aeromoças cínicas e suspeitas, uma protagonista que age como uma louca, pondo a sua sanidade em dúvida, além de causar desconfianças diante das pessoas que gravitam ao seu redor. Junte isso ao fato de termos uma criança desaparecida, segmento narrativo que se assemelha ao sumiço da idosa no filme de 1938 e a narrativa se oferta ao espectador como um suspense “hitchcockiano”.

Antes de adentrar na análise estética e dramática de Plano de Voo, peço ao leitor um momento para fazer algumas ilações pertinentes. Na trama, passageiros de um trem aguardam o desbloqueio dos trilhos, acometidos por problemas durante a viagem. Há uma forte nevasca e enquanto Iris (Margaret Lockwood) espera pela retomada da viagem, adentra num diálogo instigante com uma senhora (Dame May Whity). Iris sofre um pequeno incidente e leva uma pancada na cabeça, sendo socorrida pela nova conhecida que some logo mais. O que teria acontecido com ela? Cada vez que aprofunda na busca pela senhora, os passageiros do trem demonstram comportamento ambíguo, pois todos negam ter notado a presença da passageira “oculta” que Iris afirma ter conhecido e que pode estar em apuros.

Um médico diz que ela inventou a senhora e todos alegam a loucura da passageira, mais certa do que nunca depois que observa as marcas dos dedos da desaparecida numa das janelas do trem, embaçadas com o contraste climático entre frio e calor. Algo bem semelhante ocorre em Plano de Voo, quando a personagem de Jodie Foster, diante da absurda situação que enfrenta, nota o desenho realizado por sua filha na janela embaçada do avião, em determinado momento da viagem. Para ela, o acontecimento se estabelece como a certeza diante do sumiço de sua filha, algo que ninguém acredita, tal como no caso da dama ocultada no trem de Hitchcock. Foster interpreta Kyle Pratt, uma mulher em profundo luto por conta da morte do marido, vítima de um acidente ao cair do telhado.

Ela é uma engenheira aérea dos Estados Unidos, situada em Berlim durante os primeiros momentos do filme, haja vista ser o seu local de atuação profissional. Mãe da pequena Julia (Marlene Lawston), ela parte numa viagem para enterrar o marido em sua cidade natal. Durante a espera pela chamada para o voo, encontra rapidamente alguns passageiros transeuntes no aeroporto. Ninguém foca em ninguém, afinal, nos tempos contemporâneos, o “tato” é uma das coisas mais complexas de ocorrer no bojo das relações humanas. Não demora, todos embarcam. O avião é de luxo, ela inclusive foi quem projetou. Durante alguns instantes, pega no sono. É o tempo para a sua filha desaparecer misteriosamente. O que será que ocorreu? Sequestro? Será que a menina morreu? Um clima de mistério se estabelece.

A garota não possui cadastro algum em Berlim, Kyle não encontra de forma alguma o cartão de embarque de Julia. A situação não é nada favorável para a viúva. O capitão Marcus Rich (Sean Bean) inicialmente demonstra paciência, algo que se perde gradativamente ao passo que Kyle não se conforma com as informações sobre a filha não ter embarcado. Para o espectador, resta o questionamento: será ela uma versão urbana e atual da personagem de Nicole Kidman em Os Outros? As respostas, saberemos, em sua totalidade, bem próximo ao final. O que se sucede é um jogo de dubiedades entre passageiros que alegam não ter percebido a menina, a atmosfera de loucura que se estabelece diante de Kyle, alguém que pode estar diante de uma síndrome por conta do luto, dentre outras possibilidades. Para ajudar, surge Gene Carson (Peter Sarsgaard), homem que pretende elucidar os acontecimentos.

Incomodados com o clima de instabilidade no voo, alguns passageiros reclamam, outros discutem entre si, os nervos ficam aflorados e ninguém parece ser confiável. Depois de muita insistência diante das amarras alheias que lhe diagnosticam como insana, Kyle parte para o embate físico e descobre que nada é o que parece ser no voo. Segredos obscuros começam a ser revelados e há um grande esquema por detrás do sumiço de sua filha. É, ao menos, algo que ela acredita e transmite para nós, espectadores. Com o pouso de emergência no Canadá, Kyle precisará driblar as pessoas que não acreditam em sua história, pois a sua necessidade é sobreviver, não sem a sua filha, passageira que ela tem a certeza que embarcou durante a viagem.

Com condução musical de James Horner, o suspense apresenta uma eficiente ambientação limitada, pois os acontecimentos se passam quase todos dentro de um avião. O trabalho realizado por Alec Hammond é o que traz deslumbre visual para o filme, espaço que teve as suas imagens captadas pela direção de fotografia de Florian Ballhaus, adornadas pelos efeitos visuais de Alp Altiner, fundamentais para adentrarmos no clima da narrativa. Ademais, depois do intenso jogo de gato e rato e das buscas incessantes, a verdade se estabelece dentro dos padrões comerciais, com o estabelecimento da personagem diante da redenção e a prisão dos “malvados” da trama.

Tal como o esquema de espionagem que ressoava no filme de 1938, em Plano de Voo, conspirações mirabolantes tiram a paz dos personagens, colocando-os diante dos conflitos mais angustiantes de suas vidas. Em seu encerramento, o filme fica no saldo positivo e apresenta um grupo de realizadores que sabe executar adequadamente os ensinamentos deixados pelo mestre do suspense, o cineasta Alfred Hitchcock.

Plano de Voo (Flightplan/Estados Unidos, 2005)
Direção: Robert Schwentke
Roteiro: James R. Webb, Wesley Strick
Elenco: Jodie Foster, Kate Beahan, Marlene Lawston, Peter Sarsgaard, Sean Bean, Erika Christensen, Jana Kolesarova
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.