Crítica | Playmobil – O Filme

A popular linha de bonecos e cenários Playmobil foi criada na Alemanha em 1974, de modo que este longa de 2019, dirigido pelo estreante Lino DiSalvo, veio como uma comemoração em grande estilo para os 45 anos de existência da marca. Vindo dez anos depois da primeira incursão dos bonecos em um longa de animação (Playmobil: The Secret of Pirate Island, 2009) o presente filme até que consegue capturar o espírito da brincadeira e ao menos na parte visual consegue sustentar alguns bons momentos. Mas tudo isso é impiedosamente pisoteado pelo tenebroso roteiro da fita.

Filmes com bonecos ou baseados em um tipo/marca de brinquedos específica tem dois principais ingredientes em sua construção narrativa: a base familiar e a aventura. Na maioria das vezes, esta última apresenta uma situação bonita no início, seguida de uma divergência, uma separação, uma adaptação da jornada do herói e um final parcialmente moral, majoritariamente feliz e com um gancho para uma possível continuação. Até aí, nada de novo no front. Fórmulas e clichês em qualquer arte não as melhores coisas que a gente pode ter, mas certamente podem garantir um excelente produto final se forem bem utilizadas pelo roteiro (no caso do cinema) e aplicadas de modo coerente através de todas as camadas da forma. Spoilers: não é isso o que acontece aqui.

O texto se desenvolve em torno dos irmãos Marla (Anya Taylor-Joy) e Charlie (Ryan S. Hill, aos 6 anos e Gabriel Bateman, aos 10 anos), que após uma tragédia familiar, entram em conflito porque… bem… porque o irmão mais novo quer se divertir e a irmã mais velha precisa tomar conta da casa e criar o menino. Absolutamente tudo no início de Playmobil: The Movie está errado, a começar pelo estranho princípio visual que o diretor usa, misturando live-action e animação sem ter um verdadeiro bom motivo para isso. Mesmo que o roteiro faça a ligação entre o desejo de Marla por explorar o mundo, o caminho de passagem entre um estilo e outro começa frágil e piora continuamente. Em pouco tempo, o espectador entende a intenção principal disso — criar o laço fraterno no mundo real para fortalecer o impacto moral e puxar uma possível sequência em um mundo que evolui com a idade dos protagonistas –, mas as duas pontas da obra não deixam de ser desengonçadas por isso.

Como se não bastasse, Ryan S. Hill, o Charlie de 6 anos, tem algumas das piores cenas do filme (e olhem que ele aparece pouco!). Eu não sei se não havia dinheiro para repetir cenas ou se essas reveladas foram as melhores que o diretor conseguiu extrair do garoto, mas o pequeno ator está absolutamente terrível em praticamente cada momento, com caras e bocas risíveis e completamente perdido no meio de um musical que brota aleatoriamente no meio da introdução, fazendo toda a sequência entortar ainda mais e gastando muito cedo um elemento básico de incremento da fantasia: o musical. Pode-se argumentar que o público-alvo do filme é o menor possível e que o ambiente inicial já é fantasioso, mas pelo menos em relação à segunda afirmação, isso não é verdade. O roteiro deixa bem claro justamente o oposto: a realidade é a mais comum, cruel e crua possível, enquanto o mundo para o qual os dois irmãos viajam é o lugar das referências aos filmes (007, Star Wars, Os Caça-Fantasmas, etc.) e gêneros cinematográficos (faroeste, máfia, épico, pirata); o local da diversão e dos perigos legais de se enfrentar. A questão é que o roteiro, mais uma vez, se perde em suas intenções e não consegue passar uma visão sólida de cada uma dessas fases.

Existem cenas na obra que são visualmente muito boas e toda a equipe de produção faz um excelente trabalho na construção de mundos e gêneros específicos. Os personagens passam de um cenário para outro rapidamente, como se estivessem sendo manipulados por uma criança, durante uma brincadeira, o que é bem interessante de se ver. Mas falta à obra uma unidade. Por mais que a gente se una aos irmãos pelo laço que o texto conseguiu sugerir no início, e posteriormente tenhamos um robozinho muito simpático e o interessante Del (Jim Gaffigan), tudo termina isolado. As cenas não parecem servir à narração de uma história e só em alguns momentos finais é que o texto parece se encontrar, até descambar de novo para escolhas aleatórias e, mesmo no Universo de Playmobil, sem sentido.

Por ser bem colorido e ter muitos cenários, eu indicaria o filme para crianças muito pequenas, até uns 3 ou 4 anos, mas não mais do que isso. Não foi dessa vez, não é, Playmobil? Importante lembrar que só o nome e o estilo dos bonequinhos não garantem a qualidade da obra. É preciso que a história a ser contada faça sentido e consiga entreter um público para além da primeira infância, caso contrário, é passaporte direto para a lista de piores filmes do ano.

Em tempo: Adam Lambert tem uma cena musical bem legal e seu personagem é todo cheio de nuances malignas e exageradas que eu gostei demais! Já Daniel Radcliffe não teve a mesma sorte e pegou um personagem que em si só é interessante — pelos truques de espião e tudo mais –, mas tem no texto piadas sem graça, atitudes sem graça, tentativas de fazer comédia física sem graça e repetição de um jargão (com backing vocals!) absolutamente sem graça.

Playmobil – O Filme (Playmobil: The Movie) — EUA, França, 2019
Direção: Lino DiSalvo
Roteiro: Lino DiSalvo, Blaise Hemingway, Greg Erb, Jason Oremland
Elenco: Anya Taylor-Joy, Gabriel Bateman, Jim Gaffigan, Daniel Radcliffe, Meghan Trainor, Adam Lambert, Kenan Thompson, Kirk Thornton, Dan Navarro, Maddie Taylor, Cindy Robinson, Mariah Inger, Ian James Corlett, Christopher Corey Smith, Karen Strassman
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.