Crítica | Please Like Me – A Série Completa

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Quando Please Like Me estreou na Austrália, em 28 de fevereiro de 2013, o jovem comediante Josh Thomas, criador da série, seu principal roteirista, diretor de alguns episódios e protagonista, já era bastante conhecido da cena cômica do país, inclusive na televisão. Em 2005 ele foi o vencedor do Melbourne International Comedy Festival e a partir de então guiou os seus shows paralelamente a inúmeras aparições na TV, nos mais diversos programas. Quatro anos depois do MICF, o ator começou a desenvolver a ideia de uma série dramática com toques cômicos, ideia que partilhou com Todd Abbott, que viria a ser um dos produtores executivos de Please Like Me, quando o programa enfim saiu do papel, em 2013, estreando no ABC2 e já gerando polêmica. Na época, a justificativa para a exibição no ABC2 e não no canal principal da emissora referia-se ao fato de a série ser “gay demais“, um absurdo em si, mas completamente desnecessário porque era sabido que o ABC1 não exibiria um show com uma carga dramática e uma problemática tão forte como Please Like Me, sem contar nas cenas de nudez, insinuações de sexo e diálogos adultos. O caráter da série já explicava a alocação no canal secundário, logo, a justifica sobre ela ser “gay demais” foi simplesmente vergonhosa e mereceu a polêmica em torno de si.

O show acompanha a vida de Josh (Josh Thomas) que vive com seu melhor amigo Tom (Thomas Ward) e com ele compartilha as aventuras e desventuras da vida. O curioso aqui é que Josh Thomas e Thomas Ward são melhores amigos na vida real e desde cedo o público teve o conhecimento de que o show era uma versão exagerada de algumas experiências da vida de cada um deles. Nessa jornada, vemos que a série se divide em basicamente dois grande núcleos dramáticos, cada um tratado com forte dose de seriedade mesclada a uma comédia às vezes de gosto bem amargo. No primeiro, os altos e baixos dos relacionamentos e das questões amorosas em geral, com visão aberta sobre as sexualidades e as questões de gênero. No segundo, as muitas doenças mentais e emocionais que atingem pessoas de diversas idades, com personagens classificados com algum tipo de transtorno sempre em volta do núcleo principal da série, a começar da mãe de Josh (Debra Lawrance) e depois, seu namorado Arnold (Keegan Joyce).

Com todos os episódios nomeados com algo que se possa ingerir, Please Like Me conquista rapidamente o espectador pelo nível de realismo e tom carinhosamente cínico da comédia desde o primeiro episódio, Rhubarb and Custard, onde temos a apresentação geral dos personagens, o término do namoro de Josh com Claire (Caitlin Stasey) e a sua descoberta um pouco tardia de que [talvez?] fosse gay. Ao som da sensacional canção de abertura, I’ll Be Fine, de Clairy Browne & The Bangin’ Rackettes mais uma cena de Josh cozinhando — esta, aliás, é uma cena bem recorrente a cada episódio: alguém cozinhando algum prato diferente na abertura, ao som de I’ll Be Fine — o espectador recebe de maneira familiar aquilo que os roteiros desenvolvem a cada capítulo, dada a naturalidade com que esses personagens agem e o cuidado que cada texto tem ao mostrar relacionamentos tóxicos ou abusivos, depressão, crises de ansiedade, intolerância religiosa, homofobia, brigas familiares e fraternas, tudo claramente retirado de vivências e com impagáveis situações que impedem de a série se tornar rapidamente cansativa, como quase sempre ocorre em dramédias com pequeno elenco, poucos cenários e abordagem narrativa do tipo slice of life.

A maioria dos episódios são dirigidos por Matthew Saville, que brinca o máximo possível com a variedade de pontos de vista dos personagens, explorando principalmente os diversos lugares da casa de Josh e Tom, local de melhor exposição da direção de arte e fotografia, adequando-se de maneira aplaudível às mais diversas situações pelas quais os personagens passam. Os figurinos não seguem assim um rigor tão grande na maioria dos episódios, ficando um pouco mais atrás dos outros setores técnicos, da mesma forma que a atuação de todo o elenco jovem, contrastado pela excelente interpretação dos atores e atrizes mais velhos. O curioso em relação à dramaturgia aqui é que até Josh Thomas, que é bem limitado como ator, consegue segurar bem o seu personagem até mesmo nos momentos mais intensos da narrativa, como brigas de casal, momentos existenciais mais pesados ou questões de luto.

Em dado momento da 1ª Temporada, a série passou a ser exibida nos EUA através do Pivot, que negociou com a ABC a produção de uma nova temporada, o que eventualmente fez com que Josh Thomas trouxesse temáticas mais comuns ou dilemas um pouco mais estendidos, mesmo dentro de sua abordagem peculiar para esses cenários relativamente clichês. É por isso que eu vejo a parte final da 2ª Temporada e o comecinho da 3ª como as mais fracas do show, especialmente pela forma como o humor cede a certas convenções e as tramas simplesmente rondam problemáticas mais simples, apenas aqui e ali pontuadas pelas crises psicológicas e comportamentais da mãe de Josh ou as crises de ansiedade de Arnold. A partir de Croquembouche (3X03), a série volta ao alto padrão anterior, com o seu humor atípico e deliciosamente sacana, além do trato mais ágil para as situações do dia a dia, com um número bem menor de problemas de conexão entre as muitas histórias que se afunilam para o grande final, quando a série — por comum acordo entre Josh Thomas e a emissora — chegou ao film. A nota oficial do showrunner foi bastante simpática e claramente dava a tônica de “dissemos tudo o que tinha para se dizer com a série“, percepção que infelizmente falta à maioria dos produtores e das emissoras: o momento de saber encerrar… [especialmente quando a liberdade criativa começa a ser ameaçada pelos chefões da casa].

Com apenas 6 episódios (Babaganoush, Porridge, Beluga Caviar, Degustation, Burrito Bowl e Souvlaki), a 4ª Temporada do programa é um excelente exercício de fechamento de ciclo, com todas as dores, manutenções e mudanças que um ciclo traz para a vida de uma pessoa. Todos os personagens aqui estão mais maduros e o espectador tem a alegria de ver como cada um lida de modo distinto com situações que antes lhes trazia bem mais angústia. Ou não lida com situações que antes fingia ignorar. É como se fosse a culminação de diversos outros problemas e, ao mesmo tempo, o ponto de partida para uma nova Era. Nessa temporada temos o glorioso Degustation, meu episódio favorito da série. Tudo aí serve como marcação definitiva para Josh e seus pais, em um jantar chique de 15 pratos, boa bebida e conversas honestas que enchem os olhos e o coração de quem assiste, tendo aí uma das mais delicadas expressões da fotografia em todo o show, bela e pontual trilha sonora e soberba direção e montagem, padrão que se mantém quase inalterado nos dois episódios seguintes (os finais) da série.

Please Like Me é um espelho ou uma aproximação impressionante com os altos e baixos de nossas próprias vidas. O que temos aqui é a saga de amizades e famílias com todos os seus defeitos e qualidades, através de um olhar que não simplifica tudo e que ri mesmo das coisas mais difíceis. Ou que não esconde as emoções e as fraquezas (mesmo resistindo), mas sabe que nem a dor e nem a alegria duram para sempre. Uma série humana para ver, sentir, saborear e guardar no coração. É… [nós ficaremos] bem. Até aqui, sim! O bom Senhor sabe disso! Nós ficaremos bem. E a vida segue.

Please Like Me (Austrália, 2013 – 2016)
Criador: Josh Thomas
Direção: Matthew Saville, Josh Thomas
Roteiro: Josh Thomas, Thomas Ward, Liz Doran, Hannah Gadsby, Becky Lucas, Erik Jensen
Elenco: Josh Thomas, Thomas Ward, Debra Lawrance, David Roberts, Renee Lim, Hannah Gadsby, Keegan Joyce, Caitlin Stasey, Emily Barclay, Bob Franklin, Nikita Leigh-Pritchard, Wade Briggs, Charles Cottier, Nevaeh Bangit, Denise Drysdale, Charlotte Nicdao, Judi Farr, David Quirk, Andrew S. Gilbert, Nick Cody
Duração: 4 temporadas (32 episódios) de 25 a 30 min. cada um.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.