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Crítica | Pluribus – 1X08: Estratégia de Charme

Um jogo muito bem jogado pelos dois lados.

por Ritter Fan
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  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Minha maior indagação ao final do episódio anterior era relacionada com o quanto o resgate de Manousos afetaria o paraguaio e o quanto o desespero de Carol pela sua solidão forçada a faria suavizar sua visão do que ocorreu no mundo e Estratégia de Charme vem em resposta, com Vince Gilligan entregando mais um episódio de alta qualidade que consegue criar o maior contraste até agora entre individualidade e coletividade. Mas, antes de eu chegar nessa discussão, certamente a mais interessante da série, fiquei feliz em constatar que a teimosia quase patológica de Manousos em recusar qualquer ajuda consciente dos Outros continua firme e forte, com um prólogo potente, mas também levemente cômico, em que o personagem faz de refém um pluribus que nós sabemos que jamais reagiria e insiste em assinar uma nota promissória para o hospital no Panamá para cobrir os custos de seu tratamento e de uma ambulância para servir de transporte. Se todo o restante do episódio fosse uma porcaria, ele já teria valido só por esses dois minutos antes de o título aparecer.

No entanto, claro, o restante do episódio foi o oposto de porcaria, com Carol e a mente coletiva representada por Zosia jogando um constante jogo, a primeira de extração de informações e a segunda de tentativa de apaziguamento das ansiedades e medos da única imune que já causou problemas para a suposta utopia em que todos sorriem e vivem felizes, mas que, ao mesmo tempo, lentamente morrem de fome, tendo que cometer canibalismo para atrasar o processo. O choque da individualidade versus coletividade começa em Carol, vale dizer, pois, por mais que ela realmente ainda queira tentar desfazer a “invasão” alienígena, o que ela sente no campo emocional é genuíno. Ela estava mesmo sofrendo por estar sozinha e o pedido para que Zosia retornasse foi um pedido de socorro, com a nova convivência com ela sendo um alívio, uma explosão de felicidade para a protagonista. Da mesma forma, nem por um segundo a coletividade teve dúvida do que Carol estava fazendo para além de novamente conectar-se com o que a humanidade se tornou, mas, mesmo assim, a vontade da União de fazer Carol feliz é também real ou, pelo menos, tão real quanto a de Carol, já que, nos dois casos, há propósitos escusos que não são nem um pouco escusos.

Os atos “normais” de fazer caminhadas, observar trens, receber massagens, jogar cartas e críquete e fazer amor trazem de volta um semblante de normalidade para Carol e, como no caso de Koumba, mas em grau muito menor, obviamente, ela sabe da falsidade daquilo tudo, mas a aceita para o seu próprio bem psicológico, para sua sobrevivência até. Isso coloca na mesa a discussão sobre quem exatamente somos, ou seja, se somos o individuo ou se somos a coletividade, com a resposta me parecendo estar em um meio-termo, em algum lugar ideal entre essas duas pontas. Levando isso para a prática do que ocorre no episódio, vemos explicitamente o cabo de guerra que mostra que a criatividade humana é um ato individual a partir de experiências próprias informadas pelas coletivas. Carol não teria começado a escrever um novo livro sem a fagulha causada por sua relação física com Zosia, mas, por outro lado, o oposto não aconteceria, já que a mente coletiva não seria capaz de dar à luz uma criação que vem do espírito humano, pelo menos não uma que não fosse escrita por sete bilhões de mentes em simultaneidade, derivada de uma espécie de democracia tão extremada que todos os traços pessoais de cada um são apagados.

Por outro lado, essa coletividade da série precisa abrir mão de muita coisa para sequer existir. Não só o suprimento de comida, em razão da regra radical que determina que eles não podem matar ser vivo algum, é escasso e finito, como eles precisam otimizar ao máximo a maneira como eles vivem no cotidiano. A reconstrução do restaurante favorito de Carol (que um dia foi estagiária de Direito e escrevia nos mesmos blocos amarelos usados por Kim Wexler) e, mais do que isso, a criação de uma impressão de “vida normal” com carros e pedestres passando, é uma extravagância quase impensável para um grupo que precisa economizar cada kilowatt de eletricidade e cada grama de alimento, pelo que é possível ver, ali, uma verdadeira tentativa de agradar, ainda que não somente isso. E o cabo de guerra também é manifestado quando Carol pede para Zosia usar a primeira pessoa do singular, levando a engasgues, mas, depois, a momentos de compartilhamento de memórias reais da “unidade Zosia” agora habitada pela mente coletiva que são igualmente reais, mesmo que parte de um plano que não pode ser chamado de sinistro porque ninguém está enganando ninguém. Muito ao contrário até.

As informações extraídas por Carol – de onde saiu o código que reprogramou a humanidade, como eles se comunicam, se o que eles sentem é compartimentalizado etc. – são como detalhes que colorem uma narrativa que, nesse ponto, não tem interesse real em trabalhar esses aspectos. Carol não pode fazer nada de concreto com o que ela sabe, assim como a coletividade, também por regra própria, não pode fazer nada para machucar Carol (pelo menos não até que seus óvulos congelados sirvam como fonte de células-tronco para forçar a assimilação, claro). Até mesmo a chegada próxima de Manousos tem pouca força para colocar em movimento um plano que reverta o ocorrido. E a razão para isso é, para mim, muito simples: a série não é sobre isso. Assim como obras como The Walking Dead não são sobre zumbis, Pluribus não é sobre a ameaça extraterrestre. A conversa é sobre a natureza humana em situações extremas, sobre o que fazemos quando não temos saída ou quando a única saída é, para nós, inadmissível. A conversa é, também, sobre a tensão entre individualidade e coletividade, com tudo de positivo e negativo que existe nesses dois extremos. Aliás, sendo muito sincero, ficarei surpreso até mesmo se Gilligan oferecer respostas sobre esses dilemas e não somente mais perguntas para nos deixar com a mente fumegante ao final de toda essa impecável jornada. Que venha o aguardado encontro entre os dois mais turrões personagens do audiovisual!

Pluribus – 1X08: Estratégia de Charme (Pluribus – 1X08: Charm Offensive – EUA, 19 de dezembro de 2025)
Criação e showrunner: Vince Gilligan
Direção: Melissa Bernstein
Roteiro: Jonny Gomez
Elenco: Rhea Seehorn, Karolina Wydra, Carlos-Manuel Vesga
Duração: 42 min.

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