Crítica | Pobre Liza, de Nikolai Karamzin

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estrelas 4

Nikolai Karamzin não é um dos mais famosos autores russos no Ocidente, mas tem o devido conhecimento pela sua produção em sua terra natal. Escritor, poeta, crítico e historiador, Karamzin tem como destaque de sua bibliografia a imensa História do Estado Russo, que começou a escrever em 1816 (publicando os primeiros volumes em 1818), trajetória histórica interrompida em 1826, no 12º Volume, por ocasião de sua morte.

De sua obra ficcional, uma das primeiras a ser escrita foi o conto Pobre Liza, de 1792, que anos mais tarde influenciaria Púshkin a escrever A Senhorita Camponesa e ecoaria até em Gente Pobre, de Dostoiévski.

Dotado de um forte sentimentalismo e colocando em cena um personagem que não é definido dentro de um parâmetro binário (ele não é nem mocinho, nem vilão, é “apenas um homem supérfluo“), o conto possui uma curiosa forma narrativa, iniciando com uma exposição bastante descritiva de um habitante de Moscou que conhece muito bem a capital e seus arredores, seguindo para uma história trágica, cuja lembrança vem a ele após nos falar sobre o Mosteiro de Símonov e sua ligação com a jovem Liza que dá título ao conto.

Talvez sem querer, Karamzin narrou uma história de personagens marcados por condições sociais e/ou culturais em uma forte oposição de mundos que é um pouco dúbia, quando se trata do narrador, mas bastante clara quando se trata dos monges, de Liza (a pobre camponesa), e de Erast, o jovem senhor da cidade. Ele não é exatamente rico — e isso fica claro no final da obra –, mas tem muito mais dinheiro e melhores condições de vida que Liza e sua velha mãe, uma realidade social que é interessante para construir visões e experiências de mundo completamente diferentes dentro do contexto amoroso que depois se estabelece.

A apresentação inicial serve como atmosfera dramática para o leitor, um recurso que vemos como necessário, porque a história é simples e cortada pontualmente pelo narrador, que tem um motivo bem particular para fazer isso, como ele mesmo confessa nos parágrafos finais. Essa forma de contar o passado ou uma versão da história, pode trazer dúvidas para o leitor quanto à intenção do narrador, se aquela era mesmo a forma mais “verdadeira” de olhar o acontecimento ou não, mas dado o fato de que não há vilões ou heróis em jogo, podemos considerar a narrativa neutra em relação ao caráter dos personagens, com algumas pinceladas mais ou menos exageradas de sentimentalismo, porém, nada que tome a obra pode completo.

O final é tocante, revoltante e… realista. Mesmo que seja construído de maneira a destacar o sofrimento de Liza e a atitude [questionável – ? -] de Erast, e mesmo que a atitude derradeira seja um extremo sentimental, todo o arranjo das “outras circunstâncias” em que eles se veem são bastante conhecidos nossos, especialmente na literatura do século XIX, inclusive a brasileira, com exemplos também no cotidiano, até mesmo nos dias de hoje.

Baseado em paixões inflamadas, conveniências e passagem de um amor platônico para um outro tipo de amor e relacionamento, Pobre Liza fala de uma tragédia por amar em demasia e entregar-se inadvertidamente aos sentimentos. O leitor tende a ficar mais do lado da protagonista do que de Erast, mas isso acaba sendo uma decisão moral. O autor não permite que haja demonização do amante e nos diz, através de seu narrador, algumas coisas que pudéssemos duvidar sobre os seus sentimentos em relação à moça. Talvez por isto, o conto tenha ficado marcado tão fortemente no imaginário russo, e ainda marque tanto o leitor contemporâneo. Mesmo sendo uma “história de época” e levemente exarada, ela é construída de forma a nos fazer pensar, não julgar. Um grande diferencial para uma obra imortal.

Pobre Liza (Bednaya Liza) — Rússia, 1792
Autor: Nikolai Karamzin
No Brasil: *Nova Antologia do Conto Russo – Editora 34 (2011)
Tradução: Natalia Marcelli de Carvalho e Fátima Bianchi
16 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.