Crítica | Pode Me Chamar de Noel

Um dos estudos mais completos sobre importância do “bom velhinho natalino” para a cultura ocidental é o livro Papai Noel – Uma Biografia, do pesquisador Gerry Bowler, análise sociológica de uma figura que vai além da trivial ascensão por conta da relação com a Coca-Cola. Com origem que remonta aos alicerces basilares do cristianismo, em sua trajetória, o Papai Noel traz, dentre tantas histórias, duas ações edificantes. A primeira que destaco é a ressurreição de três jovens esquartejados por um estaleiro numa hospedaria. Idoso, São Nicolau decide fazer uma parada para descansar, e assim, descobre o crime. Perdoa o assassino e dá vida aos jovens.

Outra história é a doação de ouro para um pai que após perceber a incapacidade de prover o devido sustento familiar, entrega duas filhas para a prostituição. Ciente do ocorrido, São Nicolau consegue salvar o pai e sua família, tendo a história espalhada como um rizoma, o que ajudou a delinear o seu perfil enquanto personagem da cultura, moldando as bases do que seria o Papai Noel que conhecemos hoje. Por isso, acredito que o Papai Noel seja uma entidade de sorte, coberta de benções. Todo ano surgem vagas na seara da indústria cinematográfica.

Em 2001, o cineasta Peter Werner topou dirigir o telefilme Pode Me Chamar de Noel, comédia dramática escrita por Paul Mooney, Sara Bersntein e Gregory Bernstein. Na trama, Lucy Collins (Whoopi Goldberg) é uma produtora de televisão bem sucedida, estereótipo da mulher amarga que passa por uma existência solitária, sem crer no “poder do período natalino”.  Convenhamos, ela coleciona motivos para não dar importância aos eventos de final de ano, sendo um deles a morte do seu pai enquanto prestava serviço militar no Vietnã. Isso fez de Collins uma mulher solitária, descrente e focada apenas no trabalho, único setor bem sucedido de sua vida sem grandes emoções.

Certo dia, ela precisa contratar o representante de Papai Noel para o programa de telecompras, parte da programação sob sua produção. É a partir daí que ela conhece Nick (Nigel Hawthorne), um simpático e adocicado homem, o “verdadeiro” Papai Noel, já em vias de se aposentar e em busca de seu substituto, afinal, conforme as regras internas do filme, cada representante assume o posto por 200 anos, passando a bola assim que o “contrato expira”. Lucy Collins, como já esperado, será a sua principal candidata. Até o elfo Ralph (Taylor Negron) enxerga na candidata o favoritismo, pois ao assumir o posto a sua vida atravessaria o caudaloso mar da redenção.

Mensagem bonita, não é mesmo, caro leitor? Na proposta de inversão de papeis, o filme é interessante, pois uma mulher negra é escalada para assumir um posto patriarcal, tradicionalista e branco. No entanto, a proposta não funciona na prática, haja vista as fragilidades dramáticas do roteiro e da direção, setores que implodem as estratégias narrativas da direção de fotografia básica de Neil Roach, do design de produção de Charles c. Bennet (correto, dentro das regras dos manuais, com suas guirlandas, pinheiros e iluminação temática) e da condução musical de Grant Geisman.

Ao longo dos 91 minutos de produção, torcemos para que o Papai Noel não abandonar o seu posto, pois o seu carisma é contagiante, diferente da chatice cética de Lucy Collins, personagem que passa por uma transformação muito genérica de uma hora para outra, o que comprova mais uma vez a pouca densidade do roteiro para justificar a realização fílmica. Fica a lição de bondade e alguns raros momentos divertidos e genuínos. Papai Noel é um cara de sorte e como apontado na abertura desta reflexão, um “cara” gente boa desde as suas origens, mas não foi em Pode Me Chamar de Noel que teve a oportunidade de brilhar como personagem esférico que é, parte de uma prática cultural secular.

Pode Me Chamar de Noel (Call Me Claus, Estados Unidos – 2001)
Direção: Peter Werner
Roteiro: Paul Mooney, Gregory Bernstein, Sara Bernstein, Brian Bird
Elenco: Whoopi Goldberg,  Nigel Hawthorne,  Brian Stokes Mitchell, Victor Garber,  Taylor Negron, Frankie Faison, Melody Garret,  Alexandra Wentworth
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.