Crítica | Poderia Me Perdoar?

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Antes de cair nas graças e no colo de Melissa McCarthy (certamente não pelos produtores a considerarem uma primeira escolha ideal), a intérprete de Lee Israel, escritora que gerou controvérsia nos anos 90 ao vender cartas falsificadas de celebridades como Katharine Hepburn e Dorothy Barker, teria sido Julianne Moore, que após divergências criativas com o script da roteirista Nicole Holofcener (do fabuloso Amigas com Dinheiro), abandonou o projeto e abriu as portas para que o papel chegasse até McCarthy. Não há como, é claro, avaliar o que Julianne teria sido no papel, mas é na felicidade de poder ver McCarthy sair de sua zona de conforto e mergulhar num papel introspectivo e de nuances que reside o primeiro bom trunfo de Poderia me Perdoar?

E não é exagero afirmar que, sim, Melissa é o primeiro grande acerto de um drama autobiográfico deveras sóbrio, e que corria o sério risco tão típico deste “gênero” em glorificar as ações de sua (no caso, de seus) protagonistas, por mais amorais que sejam suas ações e sua conduta. Ao contrário, Holofcener e a diretora Marielle Heller (revelada no elogiado Diário de uma Adolescente) denotam perfeita noção da trajetória que está sendo narrada, uma vez que Lee somente descobriu seu talento para forjar as cartas falsificadas quando atingiu seu fundo do poço: mesmo após obras de sucesso, a escritora se vê num momento onde nem sua própria editora acredita no seu potencial, onde seus livros são vendidos pelo preço mais barato possível, e que ameaçam tirá-la do teto de seu apartamento. Não há o que glorificar neste momento específico da vida de Lee além de seu esforço, motivado pelo desespero, para manter-se viva.

Grande parte do desafio é conseguir que Lee, de alguma forma, desperte a empatia do público, já que sua personalidade não é das mais agradáveis: sociofóbica e alcoólatra, além de desbocada e grosseira, o tratamento dado a Lee pelo roteiro (também com colaboração de Jeff Whity) é o que permite a personagem transcender estes primeiros níveis de camada e desnudá-la como uma mulher que, no fundo, somente deseja ter seu trabalho reconhecido, que sua voz seja ouvida, que seus escritos, de alguma forma, ganhem o mundo, por maior que sejam os riscos oferecidos por suas atitudes. E McCarthy igualmente acerta no tom da proposta ao jamais se deixar sucumbir a algum tipo de vitimismo sobre Lee, mas fazê-la transitar entre a melancolia e a felicidade pessoal nos êxitos de suas falsificações. Há camadas na interpretação de McCarthy que, guardada as devidas proporções, remetem ao inesperado papel de Megan no filme responsável por sua primeira indicação, Missão Madrinha de Casamento.

Como apoio e contraponto, Richard E. Grant, ator esnobado há anos pela indústria, mas que carrega títulos importantes no currículo como O Jogador, Assassinato em Gosford Park e Menina de Ouro, surge como a improvável e igualmente cativante amizade de Lee, o aparente alívio cômico Jack Hock que, também nas mãos, confere novas camadas a uma presença efeminada e trambiqueira que, tal como Lee, se encontra num estado de solidão onde suas ações e ironia tentam passar por cima do julgamento de uma sociedade que os mantém à mercê da convivência. E nisto, Grant chega bem perto de roubar o filme de Melissa, ameaça fazê-lo o tempo todo, mas ambos se constroem numa sintonia que torna ainda mais prazeroso tomar conhecimento daquela história.

E por mais que Holofcener e Heller invistam em momentos ternos e de leveza sutil que são eficazes em arrancar leves sorrisos do público, a amargura, a tristeza e o desconforto dentro do cotidiano de Lee e Jack são o que carregam Poderia me Perdoar? ao êxito de um drama melancólico potente e imersivo, cativante e carregado, algo defendido com destreza pela dupla de protagonistas. Se há subtramas que não dizem tanto a que vieram e que a estrutura não fuja tanto assim do que lhe é característico, o tratamento sensível para dois pólos distintos, mas que se complementam, é o que dá valor para a experiência.

Poderia Me Perdoar? (Can You Ever Forgive Me?) – Marielle Heller, 2018
Direção: Marielle Heller
Roteiro: Nicole Holofcener, Jeff Whitty
Elenco: Melissa McCarthy, Richard E. Grant, Dolly Wells, Anna Deavere Smith, Jane Curtin, Stephen Spinella, Ben Falcone, Shae D’Lyn, Michael Cyril Creighton, Kevin Carolan, Marc Evan Jackson, Tim Cummings
Duração: 107 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.