Home FilmesCríticas Crítica | O Poderoso Chefinho 2: Negócios da Família

Crítica | O Poderoso Chefinho 2: Negócios da Família

por Davi Lima
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Para se entender alguns argumentos sobre o porquê dessa sequência produzida pela Dreamworks ter sua parcela de qualidade é preciso um pouco de imaginação, assim como o Tim timing citado no filme, quando o protagonista tem seus momentos fora do ar para compreender um conflito da história. chefinho

Imagine um desafio de escolher duas portas para dois caminhos diferentes. Um é puramente lúdico e pueril e outro extremamente maduro e adulto. Dependendo do seu momento, da expectativa do futuro e de sua personalidade, ou seja, numa dinâmica de curto e longo prazo, a escolha fica difícil, ou no mínimo demorada. O ponto é que O Poderoso Chefinho 2, desde a concepção de um bebê de terno e com missões empresariais pela família (ideia do primeiro filme) à noção narrativa de tratar da irmandade e da paternidade simultaneamente provoca-se esse mesmo desafio das portas das mais amplas maneiras, não apenas com duas setas, e sim vários vértices. Por mais que seja comum as sequências, especialmente filmes que usam o algarismo no título, inchem suas tramas, principalmente em duplas, a graça, ou melhor, os atalhos que o diretor Tom McGrath encontra para evitar cisões dramáticas e sim tranquilidade de resoluções é digno de uma imaginação lúdica e madura de produção.

A cisão dramática mais óbvia que poderia acontecer, diluindo duas partes, seria a trama dos irmãos Ted (Alec Baldwin) e Tim (James Marsden), herdada do primeiro longa-metragem na omissão do que aconteceu no espaço de tempo entre o primeiro filme e a sequência, e a nova trama de paternidade entre Tim e sua filha Tabitha, que coloca o filho orgulhoso do primeiro filme como pai orgulhoso. Mesmo que a famosa rapidez de execução narrativa espalhada pela produtora Illumination nas demais animações de hollywoodianas em si, torne ambas tramas eufemizadas e aceleradas por si, o exercício de montagem alternada bem feito preserva a linguagem mental de crianças da geração Z enquanto mantém uma coesão lógica para que os assuntos maduros tem seus espaços dramáticos não sufocantes, além de quebra de expectativas.

De fato não há nada aparente no filme que surte grandes primeiras impressões, nem para um impacto dramático profundo que desacelere o filme para que os irmãos Tim e Ted se reconciliem, nem mesmo um melodrama visual da filha não ver o pai na sua apresentação na escola. Descrevendo-se assim é uma obra medíocre, mas retomando a ideia da montagem paralela, a qualidade disso está na capacidade de escolha do diretor e seus dois montadores conseguirem usar a aceleração Illumination em favor de várias possibilidades surgirem sem soarem deus ex machina ou forçadas, muito menos ilógicas e muito convenientes para resoluções num ato final.

Se com a celeridade o drama não tem tempo de impressionar o espectador, apenas de manter coeso na dinâmica rápida da franquia O Poderoso Chefinho e abrangência lúdica, nem a comédia de referências cinematográficas de ninjas e criança assustadora, muito menos as resoluções factíveis, como a de vencer o vilão “neoliberal” dono de escolas globais que valorizam concorrência e excessivo foco no mercado educativo, não a família, sofrem de estranhamento. O desafio citado dos caminhos e das portas, dentro de um esquema horizontal de acompanhar a história de O Poderoso Chefinho 2, está envolvido nisso, no chamado equilíbrio morno da experiência com a animação agitada, até mesmo para controlar o escopo maior de trabalhar com a dinâmica infantil dos dois irmãos Tim e Ted em paralelo à história mais madura quanto a Tim se desenvolver como pai. Porém, a sugestão de imaginação quanto aos dois caminhos, o pueril e o adulto, serve ainda mais para o esquema vertical de como se pode assistir e captar as temáticas e formas.

Apesar do primeiro O Poderoso Chefinho já consistir num tema problematizante quanto as ironias, às vezes levado a sério mesmo, que os cachorros tem substituído as crianças nos lares de famílias, com uma natalidade talvez menor em parte por essa justificativa, essa sequência foge desse conflito ambíguo, focando em algo parte da estrutura da família que é a economia doméstica e a as realizações monetárias que tem surgido cada vez mais cedo. Essa temática contemporânea de crianças mais capitalistas e super inteligentes, no entanto, mesmo perdendo a ambiguidade, ganha em capilaridade e enraizamento até onde e de onde começa esse dito problema.

Dessa maneira, não há um culpado ou inocente, o que de certa forma harmoniza bem com a mediocridade de se assistir à história dos irmãos Tim e Ted numa missão pela Babycorp, de novo, por uma chefe diferente, agora filha de Tim, contra uma rede de escolas que querem excluir os pais da educação dos filhos. Soa engraçado como lendo essa premissa soa até uma boa problematização, mas não combinaria em nada com a base pueril da animação, a até mesmo seguindo a linha de produção do primeiro filme. Toda superfície de missões e empresas são impulsos que Michael McCullers escreve no roteiro, dinâmicas conhecidas, mas o trunfo é a história, o argumento de Michael e do próprio Tom McGrath que fala da mente de um pai, a mente imaginativa e infantil de Tim que cria sua própria narrativa como melhor pai, adulto. 

Esse drama mais implícito em meio ao explícito acelerado – por isso uma visão mais vertical do filme – que até se torna uma estátua no final do filme que Ted dá para Tim, é sobre como não há muita escolha, em verdade, qual caminho e qual porta se escolhe entre o infantil e o adulto em determinados momentos. Pode-se atentar que as paradas do filme, ou melhor, o que se causa estranheza no acompanhar do filme são as imaginações de Tim, ou quando ele faz sua filha adentrar nessa ideia para entender de novo a porta pueril, mesmo ela sendo uma criança, como um pai maduro. Essas paradas são os momentos mais oníricos de O Poderoso Chefinho 2, por isso uma junção de diferenciação formal e temática, mudando até o estilo comum que se pincela a narrativa. E é nisso que o filme ganha, perpassa o medíocre e concretiza bem seu conflito sobre como a família e os papéis familiares tem se tornado labor, trabalho, enquanto valoriza os termos comerciais, como a palavra contrato, para desenvolver a relação dos irmãos Tim e Ted. 

Assim, O Poderoso Chefinho 2 foge de ironias temáticas do primeiro filme e usa bem referências do cinema, como a Dreamworks sempre fez, com tramas paralelas para suprir a comédia dessas antigas ironias. Além disso, é mais incisivo em seu discurso sobre a imaginação e a concretização de como criança precisa ser infantil e o adulto precisa ser maduro. Da mesma forma, não é inocente de maneira negativa em não entender como o mundo comercial invade as relações familiares contemporâneas, assim como entende que nisso não há uma culpa paterna, nem mesmo da escola para tais negociações domésticas. Não deixa de ser um filme medíocre com um pulo reflexivo e exposto na sua história na organização, mas são nessas obras aparentemente suportáveis que a Dreamworks sugere algo de fato bom para revelar a realidade do agora numa mistura lúdica e madura.

O Poderoso Chefinho 2: Negócios da Família (The Boss Baby: Family Business) – EUA, 2021
Direção: Tom McGrath
Roteiro: Michael McCullers
Elenco: Alec Baldwin, James Marsden, Amy Sedaris, Ariana Greenblatt, Jeff Goldblum, Eva Longoria, James McGrath, Jimmy Kimmel, Lisa Kudrow, Raphael Alejandro, Serenity Reign Brown
Duração: 107 minutos

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