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Crítica | Poirot Investiga, de Agatha Christie

por Luiz Santiago
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A coletânea de contos Poirot Investiga, de Agatha Christie, foi lançada no Reino Unido em março de 1924, pela editora The Bodley Head. Aqui são narradas diversas histórias (14 ao todo) em que o detetive Hercule Poirot coloca suas células cinzentas para desvendar mistérios envolvendo ganância, ciúme, vingança, dentre tantos outros motivos. A primeira edição britânica do livro trouxe uma fotografia do famoso detetive personificado por W. Smithson Broadhead usando sobrecapa com cartola e uma bengala na mão, numa fotografia bastante estilosa.

No presente compilado, vocês irão encontrar todos os 14 contos da coletânea com pequenos comentários críticos a respeito de cada história. Um dado importante sobre a edição brasileira deve ser salientado: nossa versão, assim como a versão publicada nos Estados Unidos, traz os contos A Dama de VéuA Mina PerdidaA Caixa de Bombons, mas estes não foram colocados na versão original do livro. Eles apareceram no Reino Unido apenas em 1974, no livro Os Primeiros Casos de Poirot.
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A Aventura do Estrela do Ocidente

 The Adventure of “The Western Star”

Conto de abertura de Poirot Investiga, este A Aventura do Estrela do Ocidente parece inicialmente uma história grandiosa, com diversas implicações internacionais. A premissa é bem interessante: dois diamantes extremamente valiosos são anunciados como sendo interesse de um grupo de chineses, supostamente ligados a uma seita que prevê o retorno desses preciosos “olhos” para um certo Deus. Poirot entra no caso e mais uma vez banca o bobo para capturar o culpado, deixando Hastings todo choroso e nervosinho no final, como quase sempre. A revelação dos culpados é inicialmente confusa e joga uma boa quantidade de água fria na expectativa do leitor em relação ao que poderia ser a história. Mas no fim, é uma boa e interessante investigação, mais uma vez mostrando as máscaras sociais e o que as pessoas estão dispostas a fazer para encobrirem seus pequenos delitos morais.
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A Tragédia de Marsdon Manor

The Tragedy at Marsdon Manor

Uma daquelas instigantes abordagens da autora para as motivações e o caminho de um crime, A Tragédia de Marsdon Manor coloca Poirot investigando um caso para um amigo, o diretor da Companhia de Seguros do Norte da União. O caso é que um homem morreu de hemorragia interna apenas algumas semanas depois de garantir sua vida por 50 mil libras. Rumores davam conta de que o Sr. Maltravers estava em uma situação financeira difícil e foi feita a sugestão de que ele pagou os prêmios do seguro e depois cometeu suicídio em benefício de sua bela e jovem esposa.

Diante dessa proposta (e de uma bem curiosa observação, ainda no início do texto, de que a casa do falecido era mal-assombrada), o belga e seu amigo Hastings viajam até a mansão, em Essex, e procuram saber a verdade por trás da esposa em sofrimento, de um belo Capitão da marinha e de um diagnóstico meio suspeito. A explicação parece meio embolada no fim, dando a impressão de faltar algumas peças no quebra-cabeça, mas o verdadeiro desfecho (na narração de Poirot) traz um requinte de premeditação e crueldade que acaba dando melhor atmosfera à narrativa como um todo.
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A Aventura do Apartamento Barato

The Adventure of the Cheap Flat

Hastings está na casa de um amigo, numa pequena confraternização, quando começam a falar sobre o aluguel de apartamentos e casas na região. A Sra. Robinson conta como ela e o marido conseguiram um apartamento em Knightsbridge por um preço muito abaixo do normal. E a coisa provavelmente ficaria por aí mesmo se Hastings não tivesse comentado brevemente com Poirot a respeito e o detetive não tivesse a curiosidade atiçada e resolvesse investigar a tal barganha. É uma aventura de uma grande escalada, que começa de modo simples, meio descompromissada, mas termina em um cenário envolvendo espiões e planos ligados à Marinha dos Estados Unidos. Alguns leitores podem achar o enredo ambicioso demais para um pequeno conto, mas a autora faz essa passagem organicamente, obedecendo, claro, ao ritmo normal de uma história intensa contada em poucas páginas.
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O Mistério de Hunter’s Lodge

The Mystery of Hunter’s Lodge

Poirot está doente, vítima de uma gripe. Exagerado como sempre, ele fala que “dessa vez, não deve morrer” e passa a discutir com Hastings alguns casos rejeitados dos últimos dias (o amigo também estivera doente) e o fato de um jornal ter publicado que os criminosos poderiam sair da toca porque o grande Hercule Poirot estava de cama. É então que chega o distinto Sr. Roger Havering, segundo filho de um barão, que vem contratar Poirot e Hastings para investigarem um crime que acabara de acontecer em sua “Cabana do Caçador”, onde agora sua esposa, uma ex-atriz, e uma criada, estão esperando… provavelmente já conversando com a polícia local. Esse é o tipo de história divertida, com Poirot fora de cena e, ainda assim, podendo resolver o crime através de relatórios cedidos por Hastings, que vai a campo tirar fotos, entrevistar pessoas e falar com a polícia (nesse caso, o Inspetor Japp está na parada).

Toda a história é bem construída, com um método que faz o leitor se interessar por cada detalhe, mas infelizmente cede ao horror da moralidade e dá um destino fatídico para os criminosos que escaparam. Isso logo depois de a autora chegar a um patamar que seria perfeito para a história, o momento em que Poirot resolve um crime, mas não consegue reunir provas para prender os criminosos. Não bastasse o destino moralista, a forma “vou me livrar logo desse peso” que a autora adota também não ajuda em nada e derruba consideravelmente a qualidade da história como um todo.
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O Roubo de Um Milhão de Dólares em Obrigações do Tesouro

The Million Dollar Bond Robbery

A noiva de um agente bancário chamado Philip Ridgeway pede a Poirot que investigue um estranho caso de roubo que está colocando o pobre rapaz sob suspeita, senão de ter sido o ladrão, pelo menos de incompetência no exercício de seu trabalho. Ridgeway é sobrinho de Vavasour, gerente geral do Banco de Londres e da Escócia, do qual um milhão de dólares em títulos desapareceram. Há uma certa simpatia inocente na forma como a autora descreve o casal e seus apuros, assim como a expressão e os muito precoces cabelos brancos do jovem Philip no meio de tanto estresse.

O tipo de mistério aqui é um daqueles que a Rainha do Crime sempre gostou de explorar: cercar o cenário de todas as impossibilidades, fazendo o leitor esgotar as suspeitas e chegar a um ponto onde parece não ter mais para onde ir. Um verdadeiro caso “impossível de se resolver“. Aqui, alguém com os títulos desaparece misteriosamente do navio que ia até os Estados Unidos e a investigação de Poirot procura inicialmente cercar os envolvidos com o valor antes de o navio partir e depois estabelecer os caminhos dos suspeitos. Esta foi uma das raras vezes em que descobri, com certa antecedência, quem era o verdadeiro culpado, mas não consegui descobrir o método utilizado por ele para praticar o crime.
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A Aventura da Tumba Egípcia

The Adventure of the Egyptian Tomb

É bastante conhecido o apreço de Agatha Christie pelo Egito, e isso pode ser visto em diversas de suas obras ao longo da vida. No presente conto descobrimos que devido a abertura do túmulo do faraó Men-her-Ra, uma série de mortes passam a acontecer na região das escavações, e é por isso que Poirot e Hastings são contratados. Angustiada pela postura teimosa do filho em seguir com o projeto mesmo após a morte do pai, o famoso egiptólogo Sir John Willard, Lady Willard consulta Poirot pedindo que ele tente encontrar uma resposta para o que está acontecendo. O conto tem um avanço rápido de eventos e é até mais ambicioso que os outros da coletânea até o momento. Há o interessante deslocamento de Poirot e Hastings para o Egito e a execução da investigação in loco, mas talvez pelo menor espaço para trabalhar os detalhes a autora não tenha conseguido tornar a trama tão interessante quanto o título e as primeiras páginas sugeriam. É uma boa história, mas que não alça voos altos.
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O Roubo da Joias no Grand Metropolitan

The Jewel Robbery at the Grand Metropolitan

Poirot e Hastings estão hospedados no hotel Grand Metropolitan, em Brighton, onde conhecem o Sr. e a Sra. Opalsen. O amigo do detetive belga acabou de ganhar um bom dinheiro com seus negócios e convida o parceiro para uma estadia de final de semana no hotel, a fim de distraírem-se e descansarem. As coisas, porém, não saem como o esperado. O Sr. Opalsen é um rico corretor da bolsa, que acumulou uma fortuna no boom do petróleo. Sua vida é mimar a esposa comprando-lhe joias para a coleção. Como o título do conto já deixa claro, este é o tema a ser explorado aqui. A Sra. Opalsen vai em busca das joias para mostrar a Poirot e descobre que haviam sido roubadas. A narrativa desenvolve-se a partir desse conflito, com duas grandes suspeitas (a camareira e a secretária) e Poirot descobre um plano intricado, mas com algumas falhas de execução, que termina com a prisão dos culpados.
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O Primeiro-Ministro Sequestrado

The Kidnapped Prime Minister

Essa aventura se passa no final da 1ª Guerra Mundial e é narrada por Hastings de forma retroativa, quando ele lembra o tal sequestro citado no título e reconstituiu os fatos para o leitor. Na trama, o Primeiro-Ministro passa inicialmente por um atentado e, logo depois, Poirot e seu amigo descobrem que o homem fora sequestrado. A autora faz aqui uma inteligente trama de espionagem, que embora caia um pouco de qualidade no final (na revelação do processo investigativo), tem um desenvolvimento que faz jus ao gênero, capaz de nos deixar bastante tensos. O perigo que esse sequestro pode representar para arranjos políticos no fim da guerra e a dificuldade de se estabelecer um suspeito são caminhos de distração do leitor que a Rainha do Crime consegue estabelecer muito bem. Dá tranquilamente para fazer um bom filme de espionagem com base nessa história.
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O Desaparecimento do Sr. Davenheim

The Disappearance of Mr. Davenheim

Até o presente momento, O Desaparecimento do Sr. Davenheim é o conto mais bem acabado e com o mistério mais interessante para ser desvendado desta coletânea. Aqui, Poirot e Hastings estão conversando distraidamente com Japp quando a conversa se volta para o recente desaparecimento de um banqueiro, o Sr. Davenheim do título, que estava em sua grande casa de campo, num dia de afazeres normais e simplesmente… sumiu. Vangloriando-se, Poirot faz uma aposta de cinco libras com Japp, comentando que ele conseguiria resolver o caso dentro de uma semana e sem sair de casa para ir atrás de pistas. E é com base nesse desafio que o leitor vai acompanhando o desenvolvimento dos detalhes sobre os hábitos, as possíveis motivações e o estranho desaparecimento do homem, que termina com uma revelação maravilhosa no final, um plano realmente engenhoso por parte do criminoso e mais um processo de investigação aplaudível de Hercule Poirot.
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A Aventura do Nobre Italiano

The Adventure of the Italian Nobleman

Poirot e Hastings estão na casa de um amigo e admirador, o Dr. Hawker, quando a governanta chega com a mensagem de que um cliente, o Conde Foscatini, telefonou pedindo ajuda. Os três homens correm para o apartamento do Conde, mas o leitor já sabe que chegarão tarde ao local. O atendente do elevador, sem saber de nenhum problema, diz que Graves, o mordomo, saiu meia hora antes, sem indicar nada de errado. O apartamento está trancado, mas o gerente do prédio utiliza a chave-mestra para abrir a porta e, lá dentro, eles encontram a bem montada cena do crime. A leitura dessa história nos faz pensar naqueles enigmas em que uma situação de jantar é apresentada, um assassinato ocorre e com base nas informações obtidas sobre quem comeu o quê ou quem bebeu o quê, o espectador precisa encontrar o assassino. Nessa aventura, Agatha Christie brinca com essa ideia, mas não a coloca no centro das atenções, deixando para a resolução algo bem menos óbvio, apesar de ainda estar ligada com essa ideia de “olhar com atenção para todos os detalhes da sala“.

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O Caso do Testamento Desaparecido

The Case of the Missing Will

Poirot recebe um pedido incomum da Srta. Violet Marsh. Em sua história para contratar o detetive, ela conta que ficou órfã aos 14 anos de idade, quando foi morar com seu tio Andrew, na cidade de Devon. Ao voltar da Austrália, onde construiu notável fortuna, o velho se opôs fortemente à educação e pretensão de vida acadêmica da sobrinha, gerando uma separação entre os dois, inclusive na mudança de termos do testamento que fará parte dessa aventura (a sobrinha era a única herdeira, se obedecesse a uma certa condição). É uma busca que difere de tudo o que o leitor imaginaria, tirando pelo próprio título. Trata-se de uma história com a máxima simples para qualquer conhecimento na vida: se você não sabe de algo, não fique inventando bobagens, contrate ou contate quem sabe. Esta é a coisa certa a ser feita. Confiar aos competentes aquilo que lhes cabe.

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A Dama de Véu

The Veiled Lad

Poirot diz a Hastings que os criminosos da Inglaterra o temem demais, por isso pararam de cometer crimes, o que explica o fato de a dupla não ter um bom caso já a algum tempo. É dessa maneira engraçada que começa esse conto, com Poirot irritado porque não tem muita coisa para fazer… pelo menos por enquanto. E procurando novos crimes nos jornais, ambos se deparam com algo bem interessante. Hastings descreve um roubo recente, um caso famoso de uma joalheria em Bond Street, onde o ladrão fora preso no local, logo após o roubo. No entanto, a polícia só encontrou cópias das verdadeiras joias com o bandido. Na confusão em frente à loja, ele já havia passado a pasta verdadeira para um cúmplice no meio da multidão. Esta é uma história que coloca Poirot em um caminho bem difícil e certamente foi inspirado por A Carta Roubada, de Edgar Allan Poe. Uma busca interessante com um final, mais uma vez, impressionante e imprevisível.
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A Mina Perdida

The Lost Mine

De olho nas notícias de jornal Hastings lamenta o fato de não ter dinheiro o bastante para fazer grandes investimentos. Na verdade, lamenta que está sempre no vermelho e pergunta a Poirot se não tem algum dinheiro aplicado, ao que o amigo responde, para espanto de Hastings e do leitor, que tem quatorze mil ações da Burma Mines Ltd., que lhe foram dadas pelos serviços prestados. E então começa o relato sobre como tudo isso aconteceu. Até o final, o mistério é guiado com um misto de comédia (especialmente na parte em que Poirot precisa ir disfarçado até uma casa de ópio) e sagacidade, tendo o detetive assumido um caso complicado de desaparecimento de alguns papéis de posse das referidas minas na Birmânia. A revelação no desfecho é muito boa, embora a autora enrole um pouquinho com uma explicação um tantinho mais cifrada do que deveria.

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A Caixa de Bombons

The Chocolate Box

Um excelente encerramento para este livro de pequenos casos de Poirot! Em uma noite de tempo chuvoso, o detetive e seu amigo Hastings estão perto da lareira, conversando. Hastings fala sobre a fama de Poirot e este, modesto, afasta o elogio. A conversa traz, porém, um caso antigo do detetive, quando ainda morava na Bélgica, em que ele de fato falhou para encontrar o assassino que foi contratado para encontrar. Esse conto é importante principalmente por três motivos. O primeiro é o fato de estabelecer, pela boca do próprio Poirot, que ele é um “bom católico“. O segundo é a marcação de seu passado junto à polícia da Bélgica, ao que parece, com bastante prestígio e por um considerável tempo… o bastante para torná-lo famoso por lá também. E o terceiro, claro, o estabelecimento de um código entre o belga e Hastings, consistindo no seguinte: toda vez que ele estiver se exaltando demais, Hastings deveria dizer “caixa de bombons” para lembrá-lo de seu fracasso. É um conto muito inteligente, especialmente após a sua introdução. E há ainda a lembrança de O Misterioso Caso de Styles! Com certeza um dos melhores dessa coletânea que ganha aqui um fechamento com chave de ouro!

Poirot Investiga (Poirot Investigates) — Reino Unido, março de 1924
Autora: Agatha Christie
Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos
Editora original: The Bodley Head
Edição lida para esta crítica: Edições BestBolso (2011)
238 páginas

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