Crítica | Polar: Came From the Cold, Eye for an Eye, No Mercy for Sister Maria

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Came From the Cold & Eye for an Eye

No Mercy for Sister Maria

Criada em 2012 pelo espanhol Víctor Santos (roteiro e arte) a webcomic Polar tem como personagem principal (e, depois do primeiro volume, recorrente) o assassino de aluguel chamado Black Kaiser, homem que se tornou internacionalmente famoso em sua área durante a Guerra Fria e trabalhou para “todo mundo” no ramo, dos dois lados políticos do conflito. A presente crítica aborda os três primeiros volumes da série — a saber, Came From the Cold (2013), Eye for an Eye (2015) e No Mercy for Sister Maria (2016) — todos publicados pela Dark Horse.

Fortemente influenciado por narrativas do cinema noir e diretamente inspirado por filmes como O Samurai (1967), Tóquio Violenta (1965) e À Queima-Roupa (1967), o autor procurou fazer em Polar um experimento narrativo em diversos níveis, algo que ficou bastante evidente ao longo dos três primeiros volumes da saga. É certo que os dois álbuns inciais funcionam bem melhor que o terceiro, em termos de roteiro, mas em todas as tramas é possível notar a preocupação do artista em explorar a violência através das maiores crueldades e das mais instigantes cenas possíveis, cabendo de tudo um pouco nesse meio: perseguição, emboscadas, máfias, organizações estatais, fuga (a pé ou em algum tipo de transporte), uso de tecnologia e motivações que vão desde as mais absurdas e questionáveis (vide todo o volume de No Mercy for Sister Maria) até àquelas que são recorrentes em obras do gênero.

Como parte do experimento, o autor trabalha todo o volume de Came From the Cold com o mínimo de palavras possíveis, focando no máximo de ação visual. Isto faz com que este seja o melhor dos três projetos aqui, mesmo que a dinâmica artística nos álbuns posteriores seja mais ousada e o uso inteligentíssimo de cores por parte do artista torne as coisas definitivamente mais atrativas. A grande questão, porém, está na junção entre arte e texto, parceria que se estabelece maravilhosamente na primeira temporada de Polar e que não tem o mesmo nível repetido nas temporadas posteriores, onde a arte é definitivamente o maior destaque, às vezes até em detrimento do roteiro, bastando levar em consideração o confuso terceiro volume, que só consegue mesmo ficar acima da média pela base da violência gráfica que traz e pelas ótimas brincadeiras artísticas ao longo das páginas.

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Eu preferia que toda a saga focasse em aventuras do badass Black Kaiser, porque fica evidente que eventos incríveis não faltam para explorar. Todavia, o enredo de Eye for an Eye cumpre bem o papel de manter o nível da ação ligada a um único personagem enfrentando dezenas de capangas (a suspensão da descrença, aqui, a gente faz de muito bom grado, acreditem), talvez porque mantenha a mesma premissa de uma missão solo que tivemos no início de tudo. Assim, os dois primeiros volumes conseguem criar uma boa premissa e dar interessantes informações sobre o funcionamento de algumas Agências, famílias do crime e sobre os contatos históricos que, anos depois, precisavam ser revistos, com “agentes que sabiam demais” riscados do mapa. Nos engajamos rapidamente com a luta do Black Kaiser em defender sua vida, quando ele vira alvo da “nova direção” de um certo grupo para o qual trabalhou…

Depois, também nos engajamos (apesar de ter um pouquinho de resistência no começo) com a jornada de Christy White. Mas aí vem o terceiro volume e tudo se torna muito, muito menos interessante. Claro que as ótimas sequências de violência estão lá para grande diversão e sim, seguem nos divertindo demais. Só que o suporte para que essas cenas aconteçam, nesse enredo, é fraco, constantemente confuso e parece se dividir em tantos ramos, com tantos matadores de aluguel numa mesma missão que nossa atenção de quebra a todo tempo em busca de explicações, afetando negativamente a compreensão geral do projeto. Mas em nenhum momento Polar se torna “ruim”. A despeito do estranho terceiro tomo e de algumas confusões também nos desenhos dos volumes anteriores (com menor impacto negativo), a série entrega exatamente o que prometeu e nos causa aquele estranho furor de quem se regozija com personagens insanos matando bandidos violentamente…

Polar – Vol.1: Came From the Cold  /  Vol.2: Eye for an Eye  /  Vol.3: No Mercy for Sister Maria
(EUA, 2012 – 2016)

Editora original: Dark Horse
Roteiro: Víctor Santos
Arte: Víctor Santos
Capa: Víctor Santos
160 páginas (Vol.1) e 170 páginas (Vols.2 e 3)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.