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Crítica | PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins

por Ritter Fan
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Baseado no folclore ao redor dos tanuki ou, mais cientificamente, os cães-guaxinins japoneses*, PomPoko é uma comédia de teor ambiental e pegada melancólica que Isao Takahata encabeçou não muito tempo depois do lançamento de Memórias de Ontem, baseado em ideia de Hayao Miyazaki. Bem diferente das duas obras anteriores do mestre, Takahata usou o que se poderia chamar de uma surreal aventura com cães-guaxinins antropomorfizados para experimentar sem parar e para trabalhar um recorte do vertiginoso desenvolvimento de seu país a partir do final da década de 60, notadamente com a impressionante expansão das cidades e a criação das primeiras megalópoles que tanto povoam o imaginário popular.

A mensagem da invasividade imparável do homem trazendo progresso que cobra preço caro da natureza é a que pontua basicamente cada fotograma do longa-metragem que lida com a resistência dos simpáticos animaizinhos contra essa avalanche que acaba com seu habitat. Apesar de haver personagens mais importantes, como é o caso do estourado Gonta (Shigeru Izumiya) e do jovem Shoukichi (Makoto Nonomura), não há, verdadeiramente um protagonista. O que há e a oposição de forças com os cães-guaxinins simbolizando o meio ambiente, a natureza, a flora e a fauna e o Homem, claro, simbolizando a destruição. Mas essa falta de foco nesse ou naquele personagem ou a inexistência de um antagonista para detestarmos (afinal, os antagonistas somos nós!) não afetam a obra, já que ela é rica na caracterização da razoavelmente complexa mitologia dos bichinhos, muitos deles capazes de se transformarem em qualquer outra coisa, seja um outro animal, seja um humano ou mesmo um objeto inanimado e na forma como tudo é demonstrado visualmente.

Basta notar a inusitada escolha de Takahata de usar três versões dos animais. A mais comum é a do cão-guaxinim antropomorfizado, com ou sem roupa, empregado quando os vemos conversando ou usando seus poderes. Em seguida, há a versão realista que imediatamente nos passa a ideia de distanciamento dos bichinhos, da quebra da “magia” que os define. Finalmente, há a versão que poderia ser classificada como de quadrinhos, ou mangá, já que foi inspirada pelo trabalho de Shigeru Sugiura, em que os animais se comportam exatamente daquele jeito mais exagerado que algumas animações japonesas se notabilizaram. Essa variedade visual impressionante torna o longa imediatamente tentador e curioso, algo que é amplificado pelos figurinos dos animais, que vão desde armaduras de samurai até obis e kimonos, passando por terno e gravata e alguns completamente inclassificáveis de tão estranhos. Da mesma forma, há proeminência mais do que inusitada – ainda que parte do folclore dos tanuki – dos testículos dos personagens que não só são visíveis o tempo todo, como são transformados em basicamente qualquer coisa, inclusive em tapetes onde outros tanukis se sentam (!!!). Em outras palavras, há muito o que se observar dentro de um contexto ecológico de grande relevância.

No entanto, o roteiro de Takahata é menos do que a soma de suas partes. Conscientemente, o diretor e roteirista dividiu o longa em pequenos episódios, cada um deles lidando com uma fase do grande plano dos cães-guaxinins em frear a destruição humana – o que inclui até mesmo assassinato! – e alguns, especialmente no primeiro terço, são absolutamente geniais em termos de originalidade e de construção desse universo mágico. No entanto, na medida em que a obra avança, ela entra em um loop repetitivo que acaba cansando, com cada novo “capítulo” acrescentando muito pouco ou mesmo nada ao que veio antes, o que leva à inevitável conclusão de que a história passa a andar de lado, sem realmente justificar suas quase duas horas.

PomPoko é, sem dúvida alguma, um deleite visual e uma das mais surreais obras do Estúdio Ghibli, especialmente sob olhos ocidentais, com um trabalho de animação de tirar o fôlego e de manter os olhos dos espectadores constantemente deslumbrados pelo que é colocado na tela. No entanto, quando a novidade se esvai, o que fica é uma história que muito claramente poderia ser contada muito mais eficientemente na forma de um média-metragem, quiçá um curta.

*Apesar do subtítulo em português e da legenda mais comum disponível no Brasil, os cães-guaxinins não devem ser confundidos com os guaxinins comuns, mamíferos da família dos procionídeos, abundantes na América do Norte, pois os cães-guaxinins, como o nome indica, são mamíferos da família dos canídeos e têm esse nome justamente por se parecerem com os guaxinins comuns.

PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins (Heisei Tanuki Gassen Ponpoko – Japão/EUA, 1994)
Direção: Isao Takahata
Roteiro: Isao Takahata (baseado em ideia de Hayao Miyazaki)
Elenco: Makoto Nonomura, Shigeru Izumiya, Nijiko Kiyokawa, Kosan Yanagiya, Norihei Miki, Hayashiya Shōzō IX, Akira Kamiya, Takehiro Murata, Megumi Hayashibara, Akira Fukuzawa, Yuriko Ishida, Beichō Katsura
Duração: 119 min.

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