Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Ponte dos Espiões

Crítica | Ponte dos Espiões

por Luiz Santiago
416 views (a partir de agosto de 2020)

bridge-of-spies- ponte dos espiões plano crítico

Momentos de grande polarização de opinião e crescimento de uma visão de massa que valoriza mais a punição definitiva do que a aplicação da lei não são uma novidade para a maioria dos países, principalmente os que de alguma forma estiveram envolvidos nas alfinetadas e embargos estatais que pulularam durante a Guerra Fria. Em ocasiões assim, tanto a História factual quanto a literatura ficcional e as lendas históricas acertam na representação de uma coisa: a realidade dos conflitos de interesse e os inúmeros acordos de bastidores que fizeram muito melhor ao mundo do que a opinião geral que os países em contenda deixavam transparecer para a mídia. É isso que vemos em Ponte dos Espiões (2015), obra de Steven Spielberg baseada em fatos que mapeiam o triângulo ideológico entre o advogado James B. Donovan (Tom Hanks), o “espião russo” Rudolf Abel (Mark Rylance) e o aviador americano Francis Gary Powers (Austin Stowell).

Diferente do que o roteiro possa sugerir aos desavisados, Ponte dos Espiões não é o tipo de drama ágil e repleto de fugas, planos ocultos e traições governamentais ou mercenárias que os filmes do gênero acabaram popularizando. Em essência, não é um filme de espionagem. No primeiro ato, o roteiro de Matt Charman (revisado pelos irmãos Coen, portanto, já sabemos de onde veio a toada cômica que perfura o drama) nos faz conhecer o personagem de Tom Hanks e daí surge uma série de discussões envolvendo patriotismo, anticomunismo e condições jurídicas abraçando um momento político onde espionagem não era uma novidade para nenhuma das potências em luta na Guerra Fria. Em toda essa primeira parte — a melhor do filme –, entendemos o caráter de tribunal e de construção de personagens, que são a essência da obra.

Sob representação ou alteração de fatos históricos para caber melhor às pretensões cinematográficas do diretor (nenhum problema aí) somos constantemente convidados a também julgar atitudes de alguns personagens, recurso hábil do roteiro que trata a todos com um nível de humanidade compatível com o cargo que ocupam, sem demonizar escandalosamente o “inimigo vermelho” ou santificar inteiramente os “bravos defensores da democracia e da justiça”. Os tons de cinza entre os extremos políticos aqui são uma realidade no texto desde o início e também recebem o devido tratamento na fotografia dessaturada de Janusz Kaminski — vencedor do Oscar por A Lista de Schindler (1993) e O Resgate do Soldado Ryan (1998) –, plasmando com cores frias esse mundo de constante atenção, medo e perseguição, onde o inimigo poderia estar na porta ao lado e os acordos políticos dos quais as pessoas não tinham nenhum conhecimento decidiam o destino de todos. A cor em Ponte dos Espiões serve quase como uma justificativa locacional para o pensamento de alguns personagens.

Em contrapartida, o roteiro de Charman e dos Coen usa principalmente a opinião do personagem de Tom Hanks um foco de luz mais intensa em meio a tudo. Claro, chega a ser romântico o tratamento, mas isso não incomoda em nada na primeira parte. Já na segunda, o texto se quebra em pesos muito diferentes, vide os momentos da prisão de Powers na URSS, que não têm nem de perto o apelo pretendido; e os pequenos dissabores de Donovan em Berlim Oriental, momentos que deveriam servir de marca mais instigante na fita, mas isso não acontece. Aliás, há até um pouco de distração nesse espaço, com a montagem indo dos dramaticamente bons (mas angustiantes) momentos de burocracia do Estado comunista e negociações para a troca dos prisioneiros até os takes desses homens em suas respectivas celas. Algumas dessas cenas são ajudadas pela trilha econômica e sombria de Thomas Newman, mas não a ponto de sustentarem a obra com a mesma força que tivera no bloco anterior.

Tom Hanks e Mark Rylance são as pérolas do elenco. Hanks toma para si toda a atenção ao mostrar a face um cidadão cujo entendimento do que é “ser americano” não está marcado por um patriotismo cego. A seriedade e grande atenção que seu personagem demanda, porém, tem um fortíssimo concorrente aqui. E vejam que chamar a atenção em um filme com Tom Hanks em um grande papel não é algo fácil. Contudo, Mark Rylance está absolutamente magnético aqui. Nosso olhar não desgruda do ator, e suas expressões de (pretenso?) medo ou despreocupação são tão enigmáticas que chegam a angustiar. Pois bem, é justamente por construir tão bem um homem difícil de ler que o ator se destaca grandiosamente. Notem que os figurinos aqui pendem para a extrema seriedade, na aba da sobriedade dos anos 50, igualmente exposta pela direção de arte na fita, acompanhando os diálogos e expressões da dupla principal. Mas há um tom cômico e até mesmo emotivo por parte de Donovan (em sua preocupação com o que vai acontecer com o prisioneiro ou em salvar o estudante Frederic Pryor, personagem de Will Rogers) e de Abel que ultrapassa qualquer caminho mais exato que o roteiro ou a malha estética tenham pensado em sugerir.

Steven Spielberg usa a sua grande habilidade de criação de múltiplos significados para as cenas e faz de Ponte dos Espiões um filme sobre ideias em disputa em um período de guerra não declarada. Se o roteiro cede mais a facilidades na parte final, Spielberg não deixa a bola cair (mesmo quando evoca a imagem de cidadãos tentando pular o Muro de Berlim, através de um visão de Donovan, pela janela do trem, para jovens pulando um alambrado). O diretor cria excelentes condições cênicas para o destaque de seus personagens centrais e seu ritmo e movimento deixam suaves até mesmo os eventos mais tensos, um bônus de “beleza na tragédia” que muitos espectadores não gostam — mas que é impossível não admirar como resultado técnico dessa característica do diretor, entregando neste longa uma visão política, jurídica, ideológica e humanitária de um episódio onde um bom argumento foi a principal arma para fazer com que a Guerra Fria permanecesse fria.

Ponte dos Espiões (Bridge of Spies) — EUA, 2015
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Matt Charman, Ethan e Joel Coen
Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Domenick Lombardozzi, Victor Verhaeghe, Mark Fichera, Brian Hutchison, Joshua Harto, Henny Russell, Rebekah Brockman, Alan Alda, John Rue, Billy Magnussen, Amy Ryan, Jillian Lebling, Noah Schnapp, Eve Hewson, Joel Brady, Austin Stowell, Michael Pemberton, Max Mauff
Duração: 141 minutos.

Você Também pode curtir

13 comentários

Caio Vinícius 17 de março de 2016 - 19:45

Quando eu vi o trailer eu esperava algo mais voltado à espionagem, mas o que eu recebi foi bem diferente disso. Toda a questão moral no começo do filme foi algo que me cativou muito. O clima político e social da época foi retratado com perfeição pelas atitudes do juiz e até mesmo da mulher de Donavan. Tudo isso me fez apreciar muito este filme. E que filme incrível foi.

Responder
Caio Vinícius 17 de março de 2016 - 19:45

Quando eu vi o trailer eu esperava algo mais voltado à espionagem, mas o que eu recebi foi bem diferente disso. Toda a questão moral no começo do filme foi algo que me cativou muito. O clima político e social da época foi retratado com perfeição pelas atitudes do juiz e até mesmo da mulher de Donavan. Tudo isso me fez apreciar muito este filme. E que filme incrível foi.

Responder
AleCassia Aguiar 18 de novembro de 2015 - 16:49

Spielberg 17 vezes citado, é o grande campeão na crítica!

Ótimo filme! Não somente uma vitória para Spielberg, mas para o cinema que precisava “respirar” filmes tão bem elaborado como este.

Alexandre Aguiar

Responder
Rick 25 de outubro de 2015 - 15:57

Sinceramente, dei nota 7.0/10 no IMDB, e pra mim é 7.5/10, a final de conta não sou nenhum critico profissional, sou apenas um critico de IMDB, mais vou justificar minha nota.
O filme não tem nenhum plot twist, oq faz do filme uma história que te apresenta elemento que não te levam a nada, um único exemplos dos diversões furos que peguei: A cena que o espião russo é pego, ele apaga uma mensagem com tinta que não foi explicado em nenhum momento do filme oq tinha na mensagem (cena que foi muito enfatizada por sinal). Fora diversos outros furos de roteiro que não vou citar aqui para não dar spoilers
A unica cena que poderia transmitir um drama a mais no filme que faria do filme outro, muito mais foda, foi mal trabalhada, que é a cena da troca de espiões, onde poderia ter uma trilha sonora muito mais dramática, que prendesse mais, e ser uma cena muito mais impaciente pelo lado russo, por conta da espera do outro espião chegar. Foi uma cena de minutos um olhando para a cara do outro, sem justificativa alguma.. sem reação alguma, sem desenvolvimento..
A cena que achei mais foda foi o espião russo contando uma histório de carocha para manipular e tentar fazer o seu advogado não desistir do seu caso.
Quem assistiu sabe que cena é essa quando o espião russo cita o homem que seu pai mandou ele observar.
Quanto ao final, não vou dar spoiler pra quem não viu, mais foi um final extremamente basico, sem emoção, onde o filme acaba e vc não volta pra casa pensando o quão bom aquele filme foi.

Sou só um espectador comum, mais acho q o Spielberg já fez filmes melhores, como por exemplo A.I.
Não vim aqui para ser hater, só vim aqui dizer oq eu achei do filme. Por que eu fui na expectativa de ver um grande filme que foi vendido no trailer, e ao chegar la, foi apena um filme comum que não transmitiu emoção alguma.

Responder
Matheus Fragata 27 de outubro de 2015 - 13:01

Na verdade o filme possui sim diversos plot twists que já estão justificados na crítica. Sobra a contação e a mostração. A função do papel com os códigos não tinha função de explicar do que se tratava a mensagem. Ali a cena é construída de modo que o espectador saiba que ele é espião enquanto os americanos nunca têm uma prova física disso – já que ele destrói o papel. Então realmente é algo bem radical julgar isso como furo de roteiro sendo que o foco do filme nunca foi o que estava escrito no papel.

Agora essas coisas coisas que está apontando sobre emoção, cara, é algo muito subjetivo. Não é porque você não ficou apreensivo que outras pessoas deixaram de sentir a tensão. É um tanto injusto você dizer que a cena não transmite isso, pois toda a linguagem cinematográfica é correta. Penumbra, planos distantes, trilha pontual, narrativa que transita entre dois pontos. Não é um filme de espião como 007 ou M.I., mas sim algo mais próximo a O Espião que Sabia Demais, só que bem mais dinâmico e divertido.

Agora, se você interpretou a história da amizade dos dois como conto da carochinha, cara, eu lamento muito, pois o filme se trata de muito mais do que isso. Uma pena você não ter tido a mesma experiência que eu tive e das demais pessoas que conheço.

Abs.

Responder
AleCassia Aguiar 18 de novembro de 2015 - 16:54

“básico” e “sem emoção” são dois adjetivos que não cabem neste filme.

O filme é ótimo!

Responder
Guilherme Vasconcellos 13 de setembro de 2018 - 21:58

Concordo contigo, me decepcionei um pouco com algumas cenas que poderiam ter tido uma carga dramática maior.

Por exemplo, durante a troca, foi impossível não comparar com a sensacional cena do episódio S04E09 de Homeland. Trilha sonora perfeita, impaciência, tensão, desconfiança, sensação que algo de errado vai acontecer a qualquer momento…

E para mim, a nota é essa mesmo, maior que 7, mas menor que 8.

Responder
Diogo Maia 22 de outubro de 2015 - 21:25

Excelente crítica. Assisti ao filme hoje e achei a história incrível. Tom Hanks, Spielberg e os Coen fizeram uma obra-prima, que com certeza estará entre os melhores do ano ao lado de Corrente do Mal, Mad Max, Divertida Mente, Perdido em Marte, Missão Impossível, Que Horas Ela Volta, Whiplash e outros clássicos lançados em 2015.

Responder
Matheus Fragata 22 de outubro de 2015 - 22:56

Dessa lista eu concordo com quatro filmes hahaha (não vi It Follows).
Te agradeço muito o elogio!

Responder
Handerson Ornelas. 21 de outubro de 2015 - 00:25

Eu fico triste em ver como tanta gente esquece do excelente trabalho de Spielberg em “As Aventuras de Tintim – O segredo do Licorne”. Acho um dos melhores trabalhos do diretor nos ultimos anos e uma animacao subestimada demais…

Enfim, fiquei ansioso pra conferir esse novo trabalho! Vou confiar nas suas 4.5 estrelas hein, Matheus! 🙂

Responder
Matheus Fragata 22 de outubro de 2015 - 00:29

Oh, Handerson, não fique triste. Tintim realmente é um bom filme, mas filmes família são a especialidade do Spielberg. Queria ver de novo um Spielberg fodelão como o de Soldado Ryan e Munique. Este aqui chega bem perto disso. É um baita filme!

Responder
Lucas Nascimento 20 de outubro de 2015 - 15:02

Spilba é o cara.

Belo texto!

Responder
Matheus Fragata 22 de outubro de 2015 - 00:30

Spilba is our brotha! Muito obrigado!!

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais