Crítica | Ponto Cego

“Você é um criminoso condenado, Sr. Hoskins. Você é isso agora até que prove o contrário. Sempre prove o contrário.”

Ponto Cego é o apogeu de um ano que reconheceu uma quantidade monstruosa de obras norte-americanas configuradas em encontro à discussão da sociedade e da presença do negro nela. O cinema retornou algumas questões para a pauta das mesas de debate, aos devaneios pessoais, incentivando conversas entre as pessoas e no interior das pessoas, recriando cenários, recriando sentimentos e propondo pensamentos, ansiando a rejeição do consumidor de arte de uma prisão de ideias ordinárias e “permitindo” o negro olhar para si mesmo como igual possibilidade para a arte também ser sobre. Os antecessores ao grande destaque desse cenário são muito importantes: Pantera Negra, Infiltrado na Klan e O Ódio Que Você Semeia são ótimos exemplos do que aconteceu esse ano. Já Ponto Cego ostenta as metáforas com as imagens do racismo partindo de sua origem, para que percebamos o enviesamento de nossas óticas particulares, reconstituindo o glóbulo ocular do seu espectador de um modo que, como as árvores da terra dos carvalhos, as raízes sejam não apenas descobertas, o que já foram, mas compreendidas e reestudadas.

O projeto, nesse caso em específico, nem mesmo parte pelo comando de um cineasta negro, como fora os outros casos comentado, mas de um mexicano, o estreante Carlos López Estrada, nome que consegue pegar um excelente roteiro escrito por terceiros – centrais para o sucesso na empreitada – e transformá-lo em um equilibradíssimo drama com suaves incursões da comédia e do gênero musical, a par de uma culturalidade como forma de expressão artística e política, sugestionando uma exposição de argumentos e emoções que se torna orgânica quando o discurso vem justamente por meio do rap. A arte pela arte, mas sobre a sociedade. As gangues, ao menos no cinema, costumavam resolver os seus problemas com música e não armas de fogo, durante uma época em que a ingenuidade ainda imperava, destoando da realidade. Ponto Cego transforma o seu clímax em uma mistura do sóbrio com o embriagado, da música com a arma, impulsionando ainda mais a própria identidade do longa, que discorre sobre a premissa de um jovem negro que precisa superar os últimos três dias de sua condicional – o pouco urge por muito, adeus às armas.

Um ator ainda pouco reconhecido no cinema, apesar da sua recorrência em séries de televisão e aclamação provinda do teatro, mais especificamente em razão da premiada peça Hamilton, Daveed Diggs sugere o medo inerente a sua mera existência, imensamente acordada ao contexto da nossa realidade, convincentemente. Um comportamento rotineiramente assustado e, por outro viés, igualmente anti-estereotipado, próprio da entonação menos grave usada e da criação de personagem como um todo, é empregado pelo ator, em vista dos objetivos que estão emaranhados a essa curiosa personalidade entendida ao protagonista, Collin Hoskins. O artista também assina o roteiro, juntamente ao seu parceiro de cena, Rafael Casal, intérprete de Miles, o melhor amigo do personagem de Diggs, sendo ambos contrapostos de arquétipos comuns aos conceitos que acabam encarnando, um homem branco e um homem negro. Os papéis são trocados, ou seja, os amigos, também colegas de profissão, precisam provar serem o que já são, igualmente reconstruindo qualquer equívoco que seus posicionamentos frente ao mundo afora carregam.

O jeito carismático de Hoskins, constantemente amedrontado e também associável, quase como um ser a parte daquele cenário que costumamos ver parcialmente, em decorrência do seu claro rejeito a armas de fogo, é contra-argumentado por causa da sequência que revela o seu passado, que nem mesmo parece comportar a mesma pessoa como personagem central do conto narrado. O modo pseudo-jocoso que preenche essa narração, amarrada ao roteiro corretamente, é desconstruído com a intervenção da ex-namorada do protagonista na memória, retirando o caráter que, antes, tornava justamente natural toda aquela agressividade ao homem negro, e apontando o contexto como, possivelmente, um erro excepcional. O diretor, no caso, comanda a sequência certeiramente, entrecortando-a com o desconforto do protagonista – a obra possui ótima edição. O olhar recorrido por Diggs é o de um menino querendo ser visto como um menino, mas costumeiramente sendo enxergado como um animal. Um único caso, uma vertente menos adorável, não necessariamente mentirosa e muito menos verdadeira, precisa quem é um ser?

O perigo é uma constante, assim como a sugestão. Como sendo um dos casos mais esplêndidos de uma crucial informação repassada de modo orgânico pelo projeto, o conteúdo de um panfleto “qualquer”, que contém as instruções necessárias para a reação – no caso, a não reação – a uma abordagem policial, é reiterado cuidadosamente. A mesma ideia é carregada por todo o filme, enfim servindo, em certa cotidiana interação, ao propósito narrativo pelo qual sempre se intencionou, chocando bruscamente o espectador e o protagonista. O menos sugestivo O Ódio Que Você Semeia movimentara a mesma premissa, embora de uma maneira muito mais didática, apesar de um pouco propícia ao cenário mais adolescente do seu caso próprio, ou seja, aos seus enfoques educativos mais explícitos. Já quando Daveed Diggs depara-se – e os exemplos são inúmeros – em situações arriscadas, o ator é acompanhado por uma trilha sonora atmosférica – o caso com o carro de polícia é pontuado certeiramente por uma melodia que remete ao coração do protagonista pulsando, justamente o que acontece com o do espectador. O menos é muito mais.

Com os encaminhamentos vigorosos de Ponto Cego, o seu público é permitido perceber um mundo para além de cabeças comprometidas à ignorância, sem que o consentimento ocorra por meio de qualquer inócua panfletagem casual, entretanto, uma condição narrativa apurada. A melhor maneira de se compreender o outro mora no campo da empatia, ou seja, para que o espectador perceba a presumida “paranoia” que preenche a cabeça do seu protagonista não existe outra opção, senão colocando o próprio dentro daquele cenário de constante tensão. Uma arma é a coisa mais assustadora do mundo, até mesmo quando nem está a mostra, mas guardada dentro do bolso de um casaco. Os demais méritos do longa-metragem, como a atuação energética de Rafael Casal, então reiteram a vontade autêntica dos seus responsáveis por um caminho de resoluções, não apenas de denúncias, que são enormemente importantes, mas não comunicam-se com espectadores que não querem ou conseguem enxergar o outro lado da mesma moeda. O confronto conclusivo, portanto, poderia ter sido mais antecipado no enredo, menos coincidente.

Um reconhecimento de privilégios, assim como um reconhecimento de responsabilidades, reconhecimento do que é um pensamento “puro” e do que é preconceito, reconhecimento de ambiguidades e não mais meras unilateralidades – “as coisas são assim e pronto” não irá melhorar o mundo -, é resgatado, enfim, como princípio da derradeira resolução para as problemáticas centrais do longa-metragem, ou seja, o reconhecer como primeiro passo para alguma coisa. Quase como um emancipador para o desinformado, Ponto Cego nos ajuda a perceber o que não enxergamos, argumentando sobre o racismo a partir de músicas que são transformadas em sóbrias reflexões acerca das diversidades, permitindo-nos compreender, em qualquer situação envolvendo uma arma, não importa onde que esteja, na mão de um agente, na mão do criminoso, no coldre do criminoso, no chão e até mesmo na própria imaginação do agente, não importa nem mesmo que seja uma arma, porque pode ser um guarda-chuva, um pente ou um saco de pipoca, quem possui chances de receber quatro tiros e quem vai ser inocentado de todas as acusações.

Ponto Cego (Blindspotting) – EUA, 2018
Direção: Carlos Lopez Estrada
Roteiro: Rafael Casal, Daveed Diggs
Elenco: Daveed Diggs, Rafael Casal, Janina Gavankar, Jasmine Cephas Jones, Ethan Embry, Utkarsh Ambudkar
Duração: 96 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.