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Crítica | Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar

por Ritter Fan
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O décimo longa metragem de Hayao Miyazaki é bem diferente de quase tudo que ele criou depois que fundou o Estúdio Ghibli. Nada de vastos mundos de fantasia com uma enorme quantidade de personagens bizarros e mitologia profunda como em Nausicäa do Vale do Vento ou A Viagem de Chihiro e nada de reimaginações originalíssimas de nosso mundo, como em Porco Rosso: O Último Herói Romântico ou PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins. Se é possível estabelecer algum parâmetro de comparação, diria, sem pestanejar, que Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar é a versão subaquática de Meu Amigo Totoro, terceiro filme do estúdio.

Para começar, a abordagem do cineasta é muito claramente mais infantil, realmente voltada para os pequenos, mas sem que, como é muito comum por aí, ele tenha que recorrer a narrativas imbecilizantes. Ponyo é primordialmente para crianças pequenas sim, mas o longa definitivamente oferece material mais do que suficiente para apreciadores de animação de todas as idades criarem suas conexões. Seja o subtexto ecológico muito caro a Miyazaki, seja a forma como a indústria naval japonesa é encarada ou até mesmo como  ele adapta A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, de sua maneira muito particular ou como curiosamente usa A Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner para Pony “cavalgando” peixes de água, há muito para adultos se refestelarem aqui.

No entanto, acima de tudo, exatamente como em Meu Amigo Totoro, há a magia e o encantamento vistos pelo ponto de vista de crianças, algo que, arriscaria dizer, Miyazaki consegue capturar como quase ninguém. As pequenas Satsuki e Mei do longa de 1988 são substituídas pela relação de amor e amizade entre Sōsuke (Hiroki Doi), com feições inspiradas em Gorō Miyazaki quando ele tinha cinco anos, um garotinho que vive na casa mais alta de um vilarejo pesqueiro, e a peixinha dourada que se transforma em uma menina da mesma idade Ponyo (Yuria Nara). Apesar da estranha origem da peixinha, que se chama Brunhilda (olha Wagner novamente!), na verdade, e tem centenas de pequenas irmãs, há conexão imediata entre os dois, o que resulta em momentos de pura doçura infantil que imediatamente fazem valer o filme.

E é também muito gostosa a maneira como Sōsuke se relaciona com sua mãe Lisa (Tomoko Yamaguchi), provavelmente a mais alucinada motorista que já singrou uma animação e com as senhorinhas do asilo onde sua mãe trabalha e que fica ao lado de sua escolinha. Os diálogos, as feições e a energia passada pelo menino encapsulam a alegria de viver, a coragem de encarar qualquer coisa com o destemor da inocência e o mais puro amor, amor por sua mãe, por seu pai, capitão de um navio que só vemos de longe, amor por todos ao redor e, claro, pela pequena Ponyo que, do seu jeito, desbrava o mundo fora dos oceanos pela primeira vez.

E, também como em Meu Amigo Totoro, o estilo da arte utilizada no longa é cativante em sua simplicidade, com os desenhos todos feitos à mão pela equipe da supervisora de animação Katsuya Kondō, membro da equipe do Ghibli que Miyazaki pinçou para seu projeto depois de ver o curta Yadosagashi, de 2006, ano de início da produção de Ponyo. Sob o comando de Kondō, cada célula foi realmente desenhada e pintada à mão, sem auxílio “invisível” de CGI, algo que já vinha sendo usado há anos pelo estúdio, mas que foi rejeitado aqui. Percebe-se, por exemplo, como a casa de Sōsuke e Lisa parece ter vida própria, com os frames pintados como se fosse de lápis de cera pulsado a cada segundo ou como o mar com peixes pré-históricos (sim!) ganha incríveis detalhes quando é visto de cima, em belíssimos plongées naturais que usam o garoto como ponto de vista.

Há uma rica história mágica por trás, ainda que ela seja quase que um acessório narrativo, sem realmente pesar na narrativa ou nas decisões de Ponyo para além de criar uma origem para a linda sereiazinha. A presença de seu pai, o feiticeiro que um dia foi humano Fujimoto (George Tokoro), lembra um pouco a forma como o misterioso mago Howl é trabalhado em O Castelo Animado, mas sem que seja feita uma conexão efetiva com o espectador, o mesmo valendo para a mãe de Ponyo e todo o desfecho que faz com que o longa perca a magia justamente quando a presença direta da magia faz-se mais forte. Miyazaki parece não saber acabar seu conto sem criar um momento bombástico para todos os envolvidos e isso detrai da simplicidade que vinha sendo a linha mestra da obra desde o começo, mesmo considerando os momentos grandiosos como o retorno de Ponyo embalada pela já citada ópera wagneriana.

Mesmo assim, o retorno de Miyazaki à simplicidade e à abordagem encantadoramente infantil é muito bem vinda e resulta em um longa que derreterá corações e deixará qualquer um, mesmo aqueles com corações de pedra, com um enorme de criança no rosto ao final. Ponyo nos relembra exatamente dessa época em que tudo era uma aventura, uma descoberta, em que tudo era encarado com inocência e olhares deslumbrados de felicidade, algo que faz muita falta quando atravessamos a invisível barreira que nos leva ao superestimado mundo adulto.

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo – Japão/EUA, 2010)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Elenco: Yuria Nara, Hiroki Doi, Tomoko Yamaguchi, Kazushige Nagashima, Yūki Amami, George Tokoro, Rumi Hiiragi, Shirô Saitô, Akiko Yano, Kazuko Yoshiyuki
Duração: 101 min.

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