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Crítica | Por Água Abaixo

por Iann Jeliel
587 views (a partir de agosto de 2020)

Por Água Abaixo

Por Água Abaixo é um filme que de tão simplório se torna banal. A história do ratinho domesticado (Roddy) solitário no seu apartamento em Londres, que vive numa espécie de Toy Story ao tentar voltar para a casa depois de descobrir todo um submundo civil de ratos vivendo no esgoto e se meter em meio a uma perseguição o qual não foi convidado com um deles (no caso, uma: Rita), tentando roubar um rubi de um chefe de “máfia” (Sapão) local, possui pouquíssimos elementos carismáticos ou de personalidade própria. Em se tratando de Dreamworks, talvez seja o filme que menos apresenta traços de suas características mais fortes, como narrativas de rivalidade entre amigos, sátiras protagonizadas pelos “diferentes” e subtexto social como auxílio.

Dá até para justificar dado que esse não é um filme exclusivamente dela, mas sim em parceria com o estúdio de stop-motion britânico Aardman, os quais compartilham o ótimo Fuga das Galinhas e o razoável (para mim) Wallace & Gromit: A Batalha Contra os Vegetais. Contudo, os dois citados, apresentavam e valorizavam tais características fortes apontadas. Aliás, esse também até apresenta, só que a Dreamworks desperdiça o potencial do universo que podia direcionar a história ao que ela sabe fazer, por estar numa época cada vez mais descompromissada com a concepção artística de suas animações. Não à toa, Por Água Abaixo não é totalmente um stop-motion. A técnica de modelamento está presente, mas a aplicação da continuidade dos movimentos é digitalizada, tal como a concepção da vivacidade dos cenários. Ou seja, menos trabalho para a realização da animação, embora acarretasse num aumento de custos, que quase levou o filme ao prejuízo, onde mal conseguiu se pagar, mesmo com um certo apelo internacional ao público britânico.

Confesso que não tenho tanta afinidade com a tipificação do humor irreverente dos ingleses que o filme puxa a fim de dar uma representatividade local, mas a comédia em si não funciona por outros motivos, remetentes ao legado que Shrek deixou em puxar parodia e comédia pastelão de qualquer coisa que não necessariamente vai combinar com o timing do que está sendo contado na história. O arquétipo britânico, com algumas piadas especificas sobre o contexto da seleção inglesa no futebol ou sketches no início, acabam sendo mais um, dos vários elementos cômicos aleatórios e inseridos em obviedade num contexto para fazer uma piada situacional. As músicas pop de sucesso da época, meio que confirma essas referências obvias e apelativas inseridas, como utilizar Lonely de Akon cantada pelas lesmas (alívios cômicos para tentar dar unidade ao humor aleatório), remetendo que o verdadeiro desejo do protagonista não era voltar para casa, mas ter uma familia que faça companhia. O que se diga de passagem, soa algo oportuno, já que não tem nem um contraponto da relação entre o protagonista com os seus humanos por exemplo, fornecendo o mínimo de dualidade ao seu conflito interno para o público.

Só é mostrado sua rotina enquanto eles estão de férias, mas a relação de mimo entre humano/rato doméstico, podia sim ser uma companhia autossuficiente. Se fosse introduzido assim, seria até melhor, pois o personagem ficaria indeciso entre essa família e uma família realmente da sua espécie, questionando no processo sua posição de “privilegiado” ao observar como é a real luta de sobrevivência “financeira” de seus companheiros do esgoto, se sentido na obrigação de ajudar. Mas o roteiro não explora esse lado, como não aproveita vários outros conflitos, porque nem chega a utilizá-los esse levantamento de classes ou espécies para alguma coisa fora algumas piadas oportunas – ok, a piada do gato no final é muito boa para contrapor meu questionamento anterior, mas ainda assim vale a reclamação.

Nem mesmo a premissa do rato que o joga pela privada, vira motivo de conflito para a virada no personagem, já que no fim das contas, ele terminará a aventura exatamente do jeito que começou, só vai deixar de se enganar, falando que não se sentia solitário. A quebra do orgulho poderia ter sido feita bem antes durante a trama, que é até relativamente divertida pela resolução objetiva dos desafios geográficos do caminho, mas perde enorme peso por esse mal desenvolvimento emocional particular. Rita (Kate Winslet) é uma personagem deveras bem mais interessante que ele, entrando na categoria de protagonistas femininas fortes que a Dreamworks tão bem sabe conceber. A química dela com Roddy (Hugh Jackman) é o mais próximo que o filme atinge de algo cativante, por ficar entre a construção por rivalidade e o romance. Pena que seu pano de fundo motivacional particular seja bastante genérico também. O do vilão (Jean Reno) então, nem se fala. Beira o constrangedor quando ele dá seu pano de fundo por flashback.

Eu nem acho que Por Água Abaixo seja ruim por ser uma animação de descompromisso assumida, afinal é plenamente possível esse tipo de animação ser minimamente icônica para os olhos infantis que virão a época guardarem com caminho – falo isso com propriedade, afinal, Os Sem Floresta foi uma dessas animações da minha infância que não são nada demais, esse aqui, nunca gostei nem quando pequeno. Ele é ruim por ser pouco eficiente até no básico que propõe. 2006 acabou sendo um ano de demarcação para o pior período criativo da Dreamworks.

Por Água Abaixo (Flushed Away | EUA, 2006)
Direção: David Bowers, Sam Fell
Roteiro: Dick Clement , Christopher Lloyd , William Davies
Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Ian McKellen, Jean Reno, Bill Nighy, Andy Serkis, Shane Richie, Kathy Burke, David Suchet, Miriam Margolyes, Rachel Rawlinson, Susan Duerden, Miles Richardson, John Motson, Douglas Weston
Duração: 84 minutos

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