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Crítica | Por Lugares Incríveis

por Iann Jeliel
375 views (a partir de agosto de 2020)

A premissa de romance adolescente fortalecido por um externo doente é algo que se tornou cômodo no universo literário juvenil moderno. O cinema, então, não demora a produzir adaptações desses contos do gênero, em uma velocidade que não abre margem para uma distinção entre as linguagens artísticas, geralmente entregando filmes protocolares, que respeitam apenas a transfusão de acontecimentos do livro, ao invés da decupagem própria no audiovisual.

O caminho mais fácil acaba ficando no uso de artifícios baratos de manipulação sentimental, agrupados já dentro de um escopo romantizado do material fonte. Afinal, hipérboles dramáticas é o que definem um adolescente, que lida com situações difíceis sempre de modo mais exagerado que o comum. Essa falta de complacência cria uma barreira e inevitavelmente um estereótipo a esse tipo de narrativa, gerando um baita desafio de sensibilidade ao cineasta responsável pela adaptação, que precisa buscar uma linha tênue de realismo entre a cafonice dos exageros, contudo sem cair num território superficial de temáticas, algo perigoso quando se fala em depressão.

É uma responsabilidade extra ao filme, principalmente quando ele escolhe adotar a estrutura de terapia entre os jovens como o mote da história e formadora do romance. Felizmente, a encenação é devidamente cuidadosa, mesmo que não fique por completo na zona de conforto, pensando nas cartilhas tradicionais dos conflitos dessa tipificação de romance. O filme adentra em questões dramáticas mais fúnebres, mas calcula bem seus limites dentro da proposta e das próprias limitações. Essencialmente, o roteiro não romantiza a doença mental, mas também não a trata de maneira superficial, ficando num equilíbrio certeiro para ser uma ferramenta narrativa importante para a complicação climática do romance e ao mesmo tempo um princípio dramático eficiente para a luta individual de cada personagem, fortalecendo a importância da união.

Brett Haley respeita e usa os clichês sem nunca os deixar tomar controle das nuances da história, fazendo um processo que fica bem fácil de discernir que a intenção discursiva não é apresentar um estudo de estado clínico, mas emular a impotência de quem o carrega. A mão precisa do diretor e o talento da dupla de atores – Elle Fanning e Justice Smith – fazem total diferença para que o roteiro não perca a linha, cative, emocione e reflita sem apelos dentro do permitido dessa naturalidade ansiosa que permeia o diálogo adotado. Por esse aspecto, pode ser fácil distorcer essa interpretação para uma acusação de irresponsabilidade do diretor, sendo que a inversão climática expõe que esse tipo de romantização não salva ninguém, pois não é uma fantasia a ser resolvida apenas entre os adolescentes.

Desse modo, o filme reconhece que é uma problemática além daquilo, embora admita que no tratamento é essencial ter a quem apoiar. E nessa admissão, fica uma brecha da perda de controle, e inevitavelmente ela vem no final, que carrega parcela do clima perigoso mencionado quando direciona uma tragédia como símbolo para uma melhoria. É uma decisão que, sem dúvidas, fecha o longa com amargura, mas creio eu, analisando todo o exercício de decupagem, que isso seja mais uma falha isolada do que uma decisão arbitrária inconsequente. Pensando num rumo protocolar desses filmes, especialmente se tratando da Netflix, cujo público em geral costuma cobrar a fidelidade, o fechamento precisou seguir as mesmas linhas e tentou fazer isso do modo mais sutil possível para evitar problematizações e conversar ao máximo com a proposta de linguagem própria.

Portanto, mesmo questionável, o final do filme não compromete a construção geral, que em pitadas de autoria, consegue se sobressair bem num gênero em que todas as suas especificações sempre buscam o genérico ou o eloquente, brega e apelativo para arrancar lágrimas de jovens adolescentes inseguros. Com química palatável e direcionamento substancial e honesto, o conto corresponde à problemática que levanta com eficácia didática e sensibilidade ímpar e humanista para ser convincente.

Por Lugares Incríveis (All the Bright Places | EUA, 2020)
Direção: Brett Haley
Roteiro: Liz Hannah, Jennifer Niven
Elenco: Elle Fanning, Justice Smith, Alexandra Shipp, Kelli O’Hara, Lamar Johnson, Virginia Gardner, Felix Mallard, Sofia Hasmik, Keegan-Michael Key, Luke Wilson
Disponibilidade no Brasil: Netflix
Duração: 108 minutos

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