Crítica | Por Que Virei à Direita, João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Ronsefield

Sempre – sempre – haverá em qualquer roda de conversa política um mané ligeiro que afirmará, em tom professoral, que direita e esquerda são conceitos ultrapassados, destes que só prejudicam os debates que realmente importam. Raramente erra quem palpita que tal figura é a que menos lê sobre o assunto no círculo, mas como nosso país se acostumou com o analfabetismo presidencial, qualquer um que tenha visto um Roda Viva e lido Sakamoto e afins se dirá um eleitor consciente, confiante em suas convicções que nem foram e nem serão testadas, uma vez que já nascem como alicerces prontos

Por que virei à direita, de 2012, tem o mérito de usar o termo que até então era proibido nas humanidades universitárias – e que permanece assim, basta ver o que se pesquisa por aí. Mais que isso, compila uma razoável quantidade de referências para quem se interessa genuinamente no significado filosófico da palavra “conservadorismo”. O problema todo reside nesse “genuinamente”, é claro.

Se à questão sobre leitores honestos resta dúvida, quando vemos os autores podemos ficar mais tranquilos. Coutinho e Pondé são pra lá de conhecidos do público brasileiro, colunistas da Folha às segundas e terças respectivamente. Rosenfield, acadêmico e colunista do Estadão, já não tem a fama dos dois primeiros – o que é sempre um bom sinal se tratando de intelectualidade brasileira –, mas suas análises políticas, facilmente encontradas na internet, dispensam maiores apresentações. Recomendo seus breves parágrafos sobre o marinês para quem tem saudade das trocas de Dilma e Marina Silva, especialistas do stand-up tupiniquim.

Falando do livro em si, a obra feita em seis mãos é a do tipo que se auto aniquila com o tempo. O ensaio que João Pereira Coutinho traz, Dez notas para a definição de uma direita, é uma síntese do seu brilhante As Ideias Conservadoras. Fundando-se em Burke, como não poderia deixar de ser, Coutinho passeia por Oakeshott, Aron, Berlin e Kekes – um dos favoritos do autor, sem edição brasileira para variar… – para honestamente expor as facetas de seu ceticismo em face dos delírios perfectíveis que só a fé coletivista engendra.

O melhor aspecto de seus dez pontos é a fluidez característica de sua prosa, capaz de jogar ácido sem perder o decoro: O sentimentalismo é uma falsificação do sentimento que, exibido em público, normalmente denuncia um canalha. Falo por experiências próprias – ou, melhor dizendo, impróprias. Virei à direita por ver no amor à humanidade uma forma particular de inumanidade.

Pondé, por sua vez, abre bem o escopo filosófico em A formação de um pessimista, misturando sinceros relatos biográficos com a história do pensamento ocidental. É fato que seu gênio filosófico é acima da média brasileira. Quem leu sua obra sobre Dostoievski e Pascal, ou seus ensaios “no deserto” sobre teologia, literatura e filosofia, sabe muito bem que sua pena pertence a uma prateleira muito acima dos que o cercam – ainda que bombar no Youtube e publicar livros mais banais de semestre em semestre não o ajudem nessa distinção a olhos nus.

Agostinho e Tocqueville roubam a cena em seu ensaio, que ainda contem coadjuvantes como Nietzsche, Hume e, constante nos dois primeiros ensaios, Edmund Burke. Mais didático impossível. Sua constatação sobre o movimento estudantil é cristalina e direcionada para todas as décadas: o movimento estudantil, em sua quase totalidade, era um ninho de canalhas manipuladores que se diziam preocupados com a qualidade do ensino, mas, no fundo, não queriam assistir às aulas. Continuo a ter a mesma percepção hoje em dia.

A hipocrisia esquerdista, maior unificadora de qualquer direita dispersa, também dá as caras no ensaio de Rosenfield, A esquerda na contramão da história. Com foco na novilíngua socialista, o professor gaúcho enche suas linhas com um texto mais carregado e combativo, com exemplos práticos de eufemismos utilizados pela esquerda para disfarçar suas reais intenções. Expondo a cada parágrafo a malícia do “socialismo do século XX”, Rosenfield já denuncia o subterfúgio que, mais recentemente, seria abandonado pelo bandido de nove dedos em seu furor palestrante: “Democratização dos meios de comunicação” é outro eufemismo (…) para disfarçar seus objetivos de controle da imprensa e sua aversão à liberdade de opinião.

“Democracia participativa”, também lembra o professor, significa que um pequeno número de pessoas, muito organizadas, toma o lugar da maioria e diz representa-las (…) Aqui reside o perigo: a imposição surge disfarçada de moralidade. Seu valor moral é seu disfarce. O controle aparece, assim, justificado. No entanto, essa coincidência é ilusória, pois o “bem” compartilhado tem u fundamento distinto: ele provém da esfera estatal, não da liberdade de escolha individual.

De Che ao caos venezuelano, a pena de Rosenfield bate mais forte e com mais gosto em Sartre, que permanece enganando muita gente que ostenta uma estrela de liberal-conservative. Um parágrafo merece ser destacado – parágrafo este que a universidade não cansa de associar ao nazismo de Heidegger, esquecendo-se deliberadamente da cumplicidade assassina igualmente perpetrada por outros pensadores: Enquanto Sartre distribuía pelas ruas de Paris o jornal maoísta La Cause du Peuple, pessoas eram torturadas e assassinadas nos cárceres chineses e albanaeses. Enquanto ele capturada a simpatia dos jovens, outros moços eram enviados aos campos de trabalho forçado ou condenados à morte. Para os que seguiam Sartre cegamente, criticar o filósofo e denunciar os horrores da violência revolucionária eram – e ainda são – atitudes de “liberais”, de pessoas que desconheciam o “sentido da história”.

Nada disso será lido por palhaços uspianos e seus asseclas que bradam não ter vergonha de dizer o verdadeiro nome da esquerda. Para tal gentalha, Boulos é um pobre Rousseau do século XXI, sonhador e virtuoso como Marighella, herói nacional e negro como Seu Jorge. E Brumadinho, que votou em maioria no atual presidente da República, tem mais é de se f@d&r para essa gente, não nos esquecemos.

É patológico. Mas a direita também sofre com suas doenças.

Uma atenta observação da mídia constata que o pau quebrado em público pela direita brasileira é o mesmo pau que a esquerda, civilizadamente, quebra em particular. Talvez a verve mafiosa explique tal fenômeno: a esquerda limpa o veneno, ajeita o cabelo dos filhos e arruma a gravata para gritar em uníssono “é gópi!”. A direita deve ser mais mesquinha mesmo…fato é que o sectarismo direitista pulula em épocas onde a direita começa a ser discutida no plural – o que parecia ser impossível há vinte anos. Não me refiro, para deixar claro, ao oportunismo da esquerda, que de Dimenstein ao ex-deputado ex-BBB vem mostrando seu cinismo descarado. A própria direita intelectualmente estabelecida faz o favor de criar celeumas para lá de infantis.

Não deixa de ser de paradoxal, mas é a pura verdade: conheço colegas de profissão que batem no peito para se dizerem conservadores capazes de virarem camaleões: do #elenão para o #viraciro para o #agoraéhaddad para bandeiras petistas em verde e amarelo. Falo de liberal-conservatives, amantes de João Pereira Coutinho, não de progressistas sórdidos e vis. Outros tantos discípulos de Luiz Felipe Pondé advogavam com convicção a preferência pelo citado ex-BBB em caso de embate com Bolsonaro, ainda que apostassem que o vencedor das eleições seria, sem sombra de dúvida, Geraldo Alckmin, o chuchu já esquecido, dado que polarizações tendem ao centro…

Para os mais pessimistas, fica a lição: esquerda e direita podem muito bem se unirem. A pressa que uma parcela da direita auto proclamada mais elegante teve em se desvencilhar dos “minions”, do “reacionarismo” e do “guru do governo” expõe uma variação entre a histeria e a afetação, ambas permeadas por uma latente ambição – de destaque, de fama e da etiqueta de pensador independente. Essa paradoxal patota de pensadores independentes que vem se formando consegue, com um nojinho a dar inveja ao esquerdista mais politicamente correto, evitar propositalmente o nome dele…aquele que não deve ser nomeado…o astrólogo…o filósofo autointitulado sem diploma…o terraplanista…OLAVO DE CARVALHO, ora porra! Seja em aulas raivosas ou em entrevistas boçais na web democrática, intelectuais da arte, autores recordistas e novos e grandes críticos literários vão aparecendo, ora chamando-o de grosseiro, ora de velho doido e conspirador pura e simplesmente. Nunca de mestre, adjetivo gasto nos mais diversos pedaços de cocô que só a academia é capaz de produzir. É impossível não achar engraçado ver a direita, aos poucos, galgando aquele espaço universitário e midiático ressentido, invejoso e ingrato, monopolizado pela esquerda em nome, como sempre, do bem coletivo. Discordâncias à parte – que são sempre saudáveis – é inexplicável esse momento Kronstadt ao avesso.

Assim, a direita não deixa de se espelhar na esquerda já bem estabelecida, único parâmetro mental que parece possível em certas visões estreitas: taxando o diferente e o aluno do diferente de inepto, paranoico e falho no traquejo intelectual, dá-se a outra volta no parafuso. A boa nova é que começa, lentamente, às tontas e com gaslightings insuportáveis, um debate sobre o que é ser brasileiro de direita. A esquerda vai perdendo aos poucos o seu monopólio da virtude e do barraco.

Por que virei à direita: três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo – Brasil, 2012
Autor:
 João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield
Publicação no Brasil: Três Estrelas
111 páginas

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.