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Crítica | Por Uns Dólares a Mais

por Luiz Santiago
795 views (a partir de agosto de 2020)

É tudo uma questão de tempo e ritmo. Um filme do porte de Por Uns Dólares a Mais, com um roteiro globalmente simples mas pontualmente rico, poderia facilmente – nas mãos de um diretor errado – gerar um longa burocrático, com uma insossa sequência de acontecimentos cujo resultado final não traria nada de novo e cujo desenvolvimento seria apenas uma sequência desconexa de clímax, tiros, e estetismo. Mas não nas mãos de Sergio Leone.

Embalado pelo sucesso de Por Um Punhado de Dólares e agora com um orçamento levemente mais folgado, Leone teve os meios necessários para realizar a sequência temática do “homem sem nome”, entregando-nos a segunda parte da Trilogia dos Dólares, um ensaio de organização estética e narrativa para suas obras definitivas dentro do western ainda a serem realizadas, a primeira, Três Homens em Conflito (que fechava a presente trilogia) e a segunda, Era Uma Vez no Oeste.

Assim como a versão de Yojimbo – O Guarda-costas feita em Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares a Mais tem uma história sem mistérios, exposta de forma direta e bastante elegante, apesar de seu conteúdo ser propositalmente incômodo e os personagens terem diferentes graus de classificação como “nojentos”, especialmente se levarmos em conta a opção do diretor em lhes conceder primeiros e primeiríssimos planos em seus rostos suados e barbas grandes. É nesse mundo masculino de simplicidade de relações externas e complexidade de questões internas que o enredo se arma.

O homem sem medo vive à caça de recompensas e um Coronel de nome Douglas Mortimer também. De uma possível oposição entre os dois pistoleiros, passamos progressivamente para uma conturbada aliança. Mesmo que não haja heróis no filme, essa parceria e o laço que se estabelece entre os dois homens os transforma em personas “boas” para o público, classificação ainda mais forte se comparados ao grupo de El Indio (Gian Maria Volonté, ótimo vilão, como sempre). Mesmo que este não seja o único embate que a fita nos apresenta, é nele que quase tudo irá se construir: laços do passado e do presente são quebrados e reatados gerando consequência que nem sempre se pode prever. O desejo de vingança, a vida entregue a uma busca pela justiça jamais feita, a decepção de um sonho jamais realizado e o peso consciente de uma ação errada são ingredientes do roteiro e responsáveis por tornar Por Uns Dólares a Mais um filme mais completo, denso e cativante do que o seu antecessor.

Leone mostra o quão escrupulosa pode ser a sua decupagem, algo que nos esbaldamos em comprovar neste filme de pouco mais de duas horas de duração. A regra básica do ritmo interno é a presença de planos longos e panorâmicas estratégicas nunca postas apenas para contexto de localização. Nesse ponto, Leone explora o suspense e cria símbolos de ação à la James Bond (prestem atenção na sequência de abertura e em suas equivalentes no decorrer do filme), contendo perseguição, descoberta e execução de traição, duelo e provocações que acabam por dar espaço até mesmo aos ‘bandidinhos de isopor’ como o genial corcunda Juan Wild vivido por Klaus Kinski, um grande ator que mesmo em um papel de compleição menor faz um ótimo trabalho.

Morricone é outro elemento essencial para o sucesso do filme. Sua trilha sonora tem maior presença de identificação do que de intensificação emotiva, padrão utilizado pelo compositor na obra anterior. Aqui, sua intenção era criar empatia no espectador com o particular de cada personagem, não necessariamente com o seu ambiente. Mas de maneira muito curiosa, o tema de identificação é o mesmo, a flauta, que em sequência rápida de notas anuncia momentos de cada um, tornando-se a voz de um coro que na reta final do filme é acompanhado pelo conhecido tema dos trompetes.

Há muito mais substância e camadas em Por Uns Dólares a Mais do que se possa pensar à primeira vista. Não se trata e um filme difícil em termos de conteúdo, mas talvez em interpretação de suas riquezas simbólicas, que podem ser escancaradas ou estar na estrelinhas. Além disso, o espectador precisa ver o filme sem pressa de que ele alimente respostas ou verdeiro sentido antes do final, pois aí é que está a sacada de Leone. Ele nos guia por um caminho de busca e luta entre dois lados, cada um atormentado por um demônio e com um objetivo egoísta para cumprir. Ao chegar ao definitivo clímax, ele reverte o jogo e nos escancara o dilema da solidão, do sentido para a vida do homem em busca de dinheiro ou justiça. Nesse ponto final, há uma seta que nos faz retornar para o início da obra, onde a frase de abertura, enfim, alcança o seu real sentido: “Onde a vida já não tinha mais valor, a morte às vezes tinha o seu preço. Eis que surgiram os caçadores de recompensas“.

Por Uns Dólares a Mais (Per qualche dollaro in più) – Itália, Espanha, Alemanha Ocidental, 1965
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Leone, Fulvio Morsella, Luciano Vincenzoni , Sergio Donati, Fernando Di Leo
Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté, Mario Brega, Luigi Pistilli, Aldo Sambrell, Klaus Kinski, Benito Stefanelli, Luis Rodríguez, Panos Papadopulos, Mara Krupp
Duração: 132 min.

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18 comentários

Luis Eduardo Bertotto 26 de janeiro de 2019 - 01:20

Leone já flertava com sequências mais longas e trabalhadas, e nesse processo é muito bacana ver Eastwood e Van Cleef conversando apenas com olhares e expressões faciais, em uma dinâmica excelente.
Há ainda espaço para pitadas de humor entre a dupla que traz momento impagáveis, como quando encontram seus olhares com o binóculo e a luneta.
Bela crítica para esse filmaço!

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Luiz Santiago 26 de janeiro de 2019 - 02:10

Obrigado, parceiro! E olha, esse tipo de toada que o diretor adota aqui é algo que eu sempre adorei. Dá um sabor diferente ao filme, esse humor num cenário meio improvável como este. Sem contar que a direção consegue faz isso tanto nos momento mais dramáticos como nos mais densos. É incrível mesmo.

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André Rodrigues 1 de abril de 2017 - 05:59

Filme maravilhoso,violência,traição protagonista machão.esses clássicos me dão arrepios te tão bons!

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Luiz Santiago 1 de abril de 2017 - 11:38

Pois é! Já viu os outros dessa trilogia?

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André Rodrigues 9 de agosto de 2017 - 06:23

Sim,amo os filmes do Clint Eastwood!

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Bruno 17 de julho de 2016 - 17:10

Uma das poucas sequências do cinema que conseguiram superar seu antecessor. Filme bom pra caramba! No mais, a crítica disse tudo.

Responder
Luiz Santiago 17 de julho de 2016 - 18:27

É um tipo MUITO RARO de sequência, não é? Dá pra contar nos dedos sequências que conseguem essa proeza.
Valeu, @disqus_JUyBBpDbfh:disqus! Agora é ver “Três Homens em Conflito”!

Responder
Luiz Santiago 17 de julho de 2016 - 18:27

É um tipo MUITO RARO de sequência, não é? Dá pra contar nos dedos sequências que conseguem essa proeza.
Valeu, @disqus_JUyBBpDbfh:disqus! Agora é ver “Três Homens em Conflito”!

Responder
Bruno 17 de julho de 2016 - 17:10

Uma das poucas sequências do cinema que conseguiram superar seu antecessor. Filme bom pra caramba! No mais, a crítica disse tudo.

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Diogo Maia 19 de fevereiro de 2016 - 23:57

Ainda prefiro Três Homens em Conflito, mas este aqui também é um filmão. Não é que o Lee Van Cleef vaz o protagonista? Eu achei que o Eastwood ficou meio à sombra do coronel interpretado pelo Cleef aqui. Curiosamente no longa seguinte os dois irão duelar entre si, em uma das cenas mais antológicas do faroeste.

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Luiz Santiago 20 de fevereiro de 2016 - 03:52

Os dois são realmente sensacionais. Até hoje eu tenho um pouco de dificuldade de apontar se prefiro este ou Três Homens em Conflito, porque ambos são incríveis.

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Wendell Santana 3 de janeiro de 2016 - 11:56

Muito superior ao primeiro filme da trilogia. Que filme magnífico. Desde a história bem contada até as cenas de ação, tudo encaixado direitinho. O vilão Indio é muito bem interpretado pelo ator Gian Maria Volonté e a dupla formada pelo Clint Eastwood e Lee Van Cleef é sensacional. Aquele mistério em torno da personagem do Lee Van Cleef é muito bom também. Enfim, o filme está recheado de cenas que ficam na sua mente como o assalto ao banco, o momento em que a dupla Clint Eastwood e Lee Van Cleef se conhecem no meio da noite na cidade de El Paso e, evidentemente, o confronto final. Amando o gênero western, mas nada superou “Era Uma Vez No Oeste” até agora!

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Luiz Santiago 3 de janeiro de 2016 - 16:08

Esse filme é maravilhoso demais! Aquela sequência final é clássica em todos os níveis, além de extremamente dirigida e com uma edição de tirar o chapéu.
Você está tendo contato com o western por agora? Temos um especial aqui no site, talvez possa pegar umas dicas lá, até de western spaghetti mesmo, se quiser ficar pelas produções italianas por um tempo… 🙂

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Wendell Santana 4 de janeiro de 2016 - 08:19

Sim, estou tendo um contato maior agora. Vou procurar essa seção especial. 🙂

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Elton Brasil 18 de dezembro de 2015 - 14:21

Meu favorito da trilogia ! Sem mais !

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Luiz Santiago 19 de dezembro de 2015 - 14:19

Esse filme é fantástico! Não sei se o prefiro mais que o terceiro filme… ainda fico dividido…

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Marcus Prado 18 de novembro de 2014 - 23:09

Esse filme consegue ser bem melhor que o antecessor e o fechamento da trilogia acaba sendo mais poderoso ainda! São filmes que precisam ser trabalhados com medidas de grandeza, porque é tudo muito bom.

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Luiz Santiago 19 de novembro de 2014 - 00:13

Com certeza! O primeiro filme já é muito bom, daí, quando chega nessa segunda parte, o Leone dá um show de direção. E sua obra-prima vem com o fechamento. Uma das trilogias mais interessantes do cinema, com certeza!

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