Crítica | Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo

“E esse pavê? É pavê ou é para comer?

O grupo de comédia Porta dos Fundos anualmente lança o seu especial natalino, que agora, ao invés de ser distribuído por meio do seu canal no Youtube, estreia na Netflix. Essa já tradição de fim de ano passou por tal mudança de espaço primeiramente com um média-metragem acerca da Última Ceia, que, sem surpresa alguma, contava com as doses ácidas e polêmicas do humor de sempre do grupo. Dessa vez, a trama parodia o retorno de Jesus Cristo (Gregório Duvivier) para casa em seu trigésimo aniversário, após passar 40 dias no deserto. Como de costume, por meio de uma abordagem bem iconoclasta, o enredo deturpará inúmeros conceitos e ideais do cristianismo, adaptados em prol das piadas do Porta dos Fundos. De modo controverso, porém, o filme mantém em paralelo questões clássicas da religião, como o embate entre o Bem e o Mal, ao mesmo tempo que coordena uma desmistificação de demais ao incorporá-las em meio a dinâmicas ordinárias, como a rixa entre os dois pais de Jesus, quase trivial. Nesse ponto, a obra sustentará uma clássica jornada do herói para o seu protagonista, que, no caso, precisa compreender a si mesmo antes de poder arcar com suas responsabilidades – a herança que carrega e o legado prometido ao mundo.

Em primeiro lugar, o mote da obra é Jesus Cristo recebendo a notícia de que seu pai não é realmente José (Rafael Portugal), mas Deus (Antonio Tabet). Embora essa informação caminhe de acordo com a religião, a separação acontece na maneira como tudo é executado, em que o contexto grandiloquente é revisado de uma forma mundana, como se Maria (Evelyn Castro) tivesse pulado a cerca e pronto. Porém, nesse caso em específico e em demais, a obra sempre deixa indícios de milagres, ao passo que igualmente sugestiona a inexistência deles, rejeitando qualquer confirmação de fato de um rompimento na conhecida história. Dentre tantas coisas que vão contra as narrativas sagradas, uma delas é Maria ter uma relação personificada com o Deus de Tabet, o que, por um lado, possui uma razão dentro da construção narrativa da obra. O especial está todo o tempo tentando trazer as grandes verdades bíblicas para dentro de um ambiente banal, que mistura o comum com o extraordinário. Esse ponto de contraste contribui pra fomentar um clima farsesco. Assim sendo, Jesus, uma pessoa interessada na área de humanas, repensa o seu futuro dada a necessidade de seguir os mandamentos de seu pai. Contudo, e os seus sarais de poesia?

No entanto, nem tudo – na verdade, bem pouco nesse aspecto a seguir – é um mar de rosas, visto que o cerne cômico da obra, justamente aquilo que a sustenta enquanto gênero, é extremamente desengonçado. Interpretando a pior das personagens coadjuvantes, Thati Lopes encarna uma prostituta sem qualquer razão de existir, por exemplo, enquanto os Três Reis Magos, que são a porta de entrada do espectador para esse universo, terminam desperdiçados, relegados ao papel de comentaristas do que acontece ao seu redor. Fora eles, o uso excessivo de uma piadinha com uma parente idosa e qualquer outra insinuação a elementos externos ao central acaba estagnando a narrativa. Nem José foge muito da exausta repetição, que cansa um personagem até mesmo interessante, em vista da sua retratação como alguém pouco especial. Em termos de piadas, mesmo as relacionadas aos personagens mais importantes, a obra se mostra uma decepção, que coleciona uma vasta quantidade de momentos pouco inspirados. Por outro lado, a parte de Fábio Porchat é uma grata surpresa no fim das contas, escapando de um estereótipo ambulante e readequando-se aos preceitos bíblicos mais básicos, logo impulsionando a farsa para o seu clímax.

Mesmo assim, esse personagem de Porchat cisma com as mesmas pontuações referentes a sua natureza e o seu envolvimento com Jesus, quiçá as mais polêmicas revisões da Bíblia pela obra. Jesus Cristo é visto como homossexual no média-metragem, o que não foge da teoria popular de que a figura histórica teve relações amorosas na sua vida. Contudo, é bobo o grupo não criar nada de concreto acerca disso, apenas reiterações sugestivas, até chegar ao final, quando por fim fornece uma razão por trás da primeira tentação do protagonista antecipada pelo nome da obra. Portanto, o especial atira incessantemente para muitos lados, mas ignora o melhor deles, aquele que estrutura toda a peça natalina e paródica, acerca da necessidade por se auto-descobrir, seja como miçangueiro ou como salvador da humanidade. A algumas das melhores criações com esse viés sarcástico, cabe um propósito discursivo surpreendente, mesmo que o Porta dos Fundos, ao menos no que tange a obras assim, esteja distante demais de Monty Python. Querer comparar A Vida de Brian com incursões como a em questão é constatar o quão errático pode acabar sendo o grupo, mesmo que bem talentoso e capaz de nos fazer rir até nos seus momentos mais irregulares.

Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo – Brasil, 2019
Direção: Rodrigo Van Der Put
Elenco: Gregório Duvivier, Antonio Tabet, Evelyn Castro, Rafael Portugal, Fábio Porchat, Gabriel Totoro, João Vicente de Castro, Thati Lopes
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.