Crítica | Porto da Minha Infância

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Filmei dentro do que era possível, pois a cidade estava completamente tapada nas praças e nos monumentos, limitando-me de todos os lados. Assim, recorri à Cinemateca para buscar o que encontrasse possível de ser utilizado, aos meus antigos filmes, a fotografias e a algumas encenações, para que este filme não fosse um álbum fotográfico.

-Manoel de Oliveira

Porto da Minha Infância, como o título precede, é um filme construído a partir da pessoalidade para montar um olhar sobre a cidade de Porto. Trabalho que muito nos lembra seus primeiros documentários, como Douro, Fauna Fluvial (1931), uma tentativa de experimentar as noções de imagem da metrópole que surgia em Porto, ou até mesmo trabalhos mais tradicionais como Famalicão (1941) ou O Pintor e a Cidade (1956).

Mas não há nada de tradicional no olhar de Manoel de Oliveira, já com setenta anos de carreira. Sua vontade de exprimir suas particularidades diante de uma cidade história para ele e para o mundo, não é dada a partir de um documentário, mas sim por encenações, imagens de arquivo, e depoimentos. A reconstrução se dá pelos tempos constituídos pelos registros, a imagem como fruto e prova da história erguida na cidade. Sobrepõem-se tempos e memórias, dando rosto à cidade, um espaço formado por lembranças pessoais mas também pelo popular, pelos mitos e por séculos de experiências dilatadas nesses 60 minutos.

Se há, em um primeiro plano, as primeiras descobertas de Manoel durante a juventude, seja a arte ou a paixão, o filme carrega por trás os rastros do cinema pela cidade, como nos trechos de Aniki-Bóbó (1942), seu primeiro longa-metragem, que mesmo sendo um filme de ficção, grandes coisas revela sobre Porto na primeira metade do século. Mais anterior à carreira do diretor, há a encenação do primeiro cineasta português, Aurélio Paz dos Reis, filmando a famosa saída dos trabalhadores de uma fábrica. Essa persistência em signos cinematográficos comprovam a parcialidade de Manoel nessa óptica secular de sua cidade.

Ainda por cima, trata-se de uma visão completamente desprendida de qualquer saudosismo, limitando-se apenas à honestidade de Manoel de Oliveira. A memória é dada como artifício cenográfico e histórico, uma jornada pelas ruínas da lembrança quase secular de Manoel diante de uma das cidades mais antigas do país. Sendo o diretor tão perseguido pela presença da morte (devemos lembrar que ele gravou seu filme póstumo quase vinte anos antes de Porto), sempre há essa tônica crepuscular em seus filmes mais recentes, algo que vai se agravando conforme sua idade avança.

No caso de Porto da Minha Infância, a imagem final é a mesma que começou seu primeiro longa-metragem: o Farolim de Felgueiras. Assim o diretor “encerrou” seu olhar na fundação de seu cinema, um farol piscando, dando indícios de que não voltaria a dar luz novamente.

Porto da Minha Infancia – 2001, Portugal
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Manoel de Oliveira, Maria de Medeiros, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Rogério Samora, José Wallenstein, Leonor Baldaque
Duração: 61 minutos

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.