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Crítica | Possessão (1981)

por Fernando JG
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A obra-prima de Zulawski é resultado de sua experiência pessoal, e é assim que ele descreve o seu próprio filme: “So it’s amazing how such a private thing became a kind of icon”. O que era um problema privado se tornou um clássico cult adorado por muitos, e não é difícil de entender o prestígio que esse filme ganhou logo após o lançamento, já que o horror surge da situação mais cotidiana: a crise intraconjugal. Uma leitura perturbadora da separação, do ciúmes, do desejo, da rejeição, e da necessidade narcísica e neurótica pelo outro, Possessão (Andrzej Zulawski, 1981) é o trauma de uma relação que não dá mais certo. O que fez Noah Baumbach com seu drama romântico História de um Casamento (2019), Andrzej explora este mesmo tema, com filho e tudo, quase 40 anos antes, de modo invertido, obscuro e psicológico. No entanto, foi depois de assistir Cenas de um Casamento (Ingmar Bergman, 1973) que Zulawski pensou a roteirização horripilante das suas próprias cenas conjugais. Uma grande influência estética para Luca Guadagnino em seu Suspiria (2018), Possession é um marco na história desse horror estético, e aposta na direção de arte como característica cinematográfica de destaque.  Uma trama construída dentro de um terror de linguagem difícil – como O Diabo (1972) e O Globo de Prata (1989),  o diretor polonês opta por deixar de lado o comum, e entra cada vez mais num terreno da narrativa complexa e alegórica para causar o incômodo e o estranhamento, caminhando do real para o fantástico, da sanidade para a loucura. O fato é que Possession sempre se renova e atinge novos públicos com a mesma intensidade. 

Ao voltar de uma viagem a trabalho, Mark (Sam Neill) só quer ver Anna (Isabelle Adjani) e o filho, Bob (Michael Hogben). Toda essa saudade se torna um pesadelo quando ele percebe que Anna mudou e quer se separar. Ela não está mais satisfeita com o casamento, já que o marido passa muito tempo fora, e as coisas foram mudando naturalmente. Mark, desconfiado de que foi traído e possuído de ciúmes, tenta salvar seu casamento, no entanto, quanto mais mexe na ferida, mais intensas as coisas vão ficando. A ideia do casamento vira uma obsessão. Irredutível na sua decisão, e decidida a deixar o marido, Anna se mostra uma mãe atenciosa no começo, no entanto, quando desliza um único dia, deixando a criança um pouco mais de tempo sozinha, Mark tenta a todo momento lhe colocar uma culpa e um peso sobre o filho que tiveram, e, então, ele ameaça pedir a guarda de Bob. A partir deste momento, Anna entra, definitivamente, num transe neurótico, causado pelo estresse do retorno do pai de Bob, que mexe com suas estruturas. Fragilizada, Anna está no momento perfeito para a possessão, e ela sucumbe. 

Em sua primeira noite juntos, desde a volta de Mark, o casal sabe que algo está diferente, mudado, e o fantasma do divórcio vai se tornando cada vez mais real, quase impossível de escapar, e aí todo aquele solo firme, de confiança, todo aquele chão que Mark pisou durante anos, qual construiu família e teve filho, começa a se desmanchar, e o casal inicia uma guerra de estranhamentos, como o Jack e a Wendy em O Iluminado (1980). Diferente da personagem da Shelley Duvall, Anna já demonstra visíveis sinais de fragilidade desde o início. O close-up na face dos personagens aprofunda cada vez mais esse sentimento de desespero e desamparo, e é com esse recurso que o diretor faz a gente imergir nessa condição opressiva que causa o horror. 

Junto dessa tensão que vai crescendo cena após cena, a gente entra junto deles numa alienação, onde é possível ver o pior de cada um. Não acho que cabe a defesa de um, ou de outro, quando visivelmente ambos se machucam. Ainda que o filme se sobressaia graças à manifestação monstruosa da psique de Anna, o primeiro ato é inteiro dedicado a desenvolver a face oculta de Mark. É neste primeiro momento que a gente acompanha o seu impulso de insanidade, assim como o segundo ato acompanha a vez da personagem de Isabelle. As coisas no mundo tem duas faces, e ela sabe disso, tanto sabe que ela diz para ele numa carta antiga, assim que chegaram a Berlim, e meses antes desta crise, o seguinte: “Aqui eu vi uma face de Deus, a outra era você”, ou seja, as coisas são ambíguas. O enredo inteiro é ambíguo: É uma Berlim dividida pelo muro; é uma não adequação entre capitalismo e socialismo; é Isabelle Adjani e Sam Neill interpretando dois personagens, Anna e Helen, Mark e o monstro; é um bem e um mal e assim por diante. É nesta ambiguidade, no duplo, que as personagens são construídas.

A câmera do diretor é impressionante, ele conduz o terror atmosférico com uma mão de mestre, e aos poucos tudo toma a forma e o clima que ele quer:  a paleta de cores composta por um azul gelado é responsável pela ambientação introspectiva. De mesmo modo, o apartamento claustrofóbico é o local onde as maiores crises vão acontecer, e o ambiente, enquanto cenário, reflete como um espelho a íntima desordem do casal.  Na medida em que o conflito se acentua, o local se torna cada vez mais caótico. A degradação dos cônjuges segue uma sequência linear, e quanto mais o filme avança, pior fica.  E então Mark descobre, enfim, o local do novo ninho de amor de Anna, e o resultado é perturbador e subversivo. O Outro, na verdade, é um monstro.  

Ainda que o diretor tenha extraído dos dois personagens uma instabilidade psicológica limítrofe, com bons arcos e boas atuações de ambas as partes, é em Anna que Zulawski aprofunda o seu olhar e se perde na grandiosidade da sua própria criação. Ela, que representa os aspectos do feminino grotesco e monstruoso, como uma mulher medusa, é a grande estrela e a grande possuída. Inclusive, o papel de Isabelle Adjani lhe garantiu uma das performances femininas mais aclamadas daquele ano, ganhando nada mais, nada menos, que a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes, e o prêmio de Melhor Atriz no César du Cinema, a premiação mais importante da França. Esse é o nível da atuação de Isabelle como Anna, em um filme de horror, que passa a nivelar por cima toda produção feita após Possession

O foco na psique feminina, e em suas neuroses sexuais, já explorado muito bem por Polanski no seu Repulsa ao Sexo (1965), expõe uma dualidade interna, transitando entre um bem e um mal inerentes da natureza humana. O horror não está na possessão demoníaca, como em O Exorcista (1973). Aliás, a possessão não é diabólica. Ou ainda que seja comum pensar no relacionamento possessivo, e esse é um dos olhares do filme, acredito que vá muito além, ou ainda, que se misture, então, nesta relação possessiva, uma coisa que é própria dela: a possessão, na verdade, é Anna estar embebida de si mesma, de sua culpa, do seu pior, de seus instintos e do seu horror. É a outra face das coisas que vem à tona. Com a volta de Mark, tudo desequilibra de vez. E aquilo que com a sua distância podia ser mantido de forma secreta, toma corpo, e Anna já não consegue mais esconder. É o seu duplo que aparece e a possui: “Fé e Acaso”, a sua grande batalha interna, já que ela mesmo entende que tem medo de si, porque ela causa o seu próprio mal. Ela é o mal. Não na narrativa, mas esse mal contido em todos. Ninguém é bom ou mau, as pessoas são o bem, e também o mal.

Com toda essa instabilidade, que só veio à luz no momento em que Mark passa a ficar obcecado com a ideia da rejeição, Bob passa a desenvolver transtornos psicossomáticos e sofre demais com todo esse processo do divórcio, que se torna uma ferida aberta. Ele é o mais danificado da história. E o primeiríssimo plano é quem dá conta de trazer esse expressionismo facial intenso, que conta a história do trauma a partir das mudanças expressivas no rosto, que muitas vezes beira o diabólico. 

Do ponto de vista social, o diretor também pensa a emancipação e a força do feminino. Anna é uma mulher visceral e inverte os papéis ao decidir, depois de muita briga, partir e deixar o filho e o marido, mas prometendo voltar de vez em quando para vê-los. Essa é uma situação comum nos divórcios, no entanto, o que acontece, num geral, é a mãe ficar com o filho e a casa, e o marido visitá-los frequentemente para ter parte do filho. Genioso e subversivo, Zulawski transgride a regra, e a ordem, e coloca Anna como uma mulher que não quer, e não vai, ocupar esses papéis comuns do feminino. O adultério em uma Berlim tensionada pela Guerra Fria mostra essa intenção de construir um feminino que é, sobretudo, insubordinado. 

Sublime, divino, obscuro e introspectivo, o longa do diretor polaco tem claras influências do cinema do leste-europeu, e constrói em cima de uma estética da destruição. Andrzej Zulawski faz de Possessão o filme da carreira de Isabelle Adjani, além de entregar essa pedra preciosa do horror psicológico, uma experiência singular e perturbadora. Apesar das atuações de Sam Neill e Isabelle Adjani dispensarem comentários, o longa conta, ainda, com a participação de Margit Carstensen, uma das estrelas do cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder, que a dirigiu em As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (1972) e Martha (1974). O longa oferece lindas fotografias germânicas, da Berlim Ocidental, além de uma trilha sonora de base intimista e atmosférica essencial para a ambientação. No mais, a direção acredita e sustenta o arco dramático até o final. O resultado de um trabalho tão autoral e dedicado sobre o fim de um casamento não podia ser diferente: uma obra-prima da década de 80, que sobreviveu aos anos e com a passagem do tempo se tornou um clássico. 

Possessão (Possession – Alemanha, França, 1981)
Direção: Andrzej Zulawski
Roteiro: Andrzej Zulawski, Frederic Tuten
Elenco: Isabelle Adjani, Sam Neill, Margit Carstensen, Henz Bennent, Carl Duering, Johanna Hofer, Shaun Lawton
Duração: 123 min.

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