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Crítica | Possuída – O Início

por Leonardo Campos
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Após trafegar pela tese sobre projeções da figura do lobisomem na literatura quando escrevi sobre Possuída e Possuída 2 – Força Incontrolável, resolvi retomar outras anotações anteriores, registros reservados para a oportunidade de interpretar a licantropia no cinema, agora pelo viés do terceiro e último momento da Trilogia Ginger Snaps, Possuída – O Início, filme que abandona as possibilidades narrativas após os estranhos acontecimentos com Brigitte (Emily Perkins) casa da enigmática Ghost, a menina aparentemente boazinha e tranquila que revelou ser mais esférica que a proposta plana inicial que nos foi apresentada enquanto design de personagem. Agora, a história se desenvolve no século XIX, numa região remota do território canadense ainda em expansão, uma numa narrativa que tal como o meu exercício de escrita, buscou mergulha na retrospectiva para ampliar os horizontes sobre a licantropia, tema que culturalmente possui relações com acontecimentos bélicos marcantes na trajetória ocidental. Um texto elucidativo para abordagem do assunto é o artigo O Lobisomem Como Símbolo da Alteridade, dos pesquisadores Jane Guimarães e Alexandre Meirelles da Silva. Ao ler Câmara Cascudo, Sabine Baring-Gould, Georges Duby, dentre outros especialistas em folclore e outras manifestações culturais, a dupla resgata algumas das várias vertentes que mapeiam a figura do lobisomem ao longo de nossa tradição narrativa.

Segundo o texto, um dos fatores que colaboraram com a cristalização da imagem do lobisomem está na recepção forçada dos europeus mediterrâneos, invadidos pelos nórdicos que na figura de seus guerreiros trajados com peles de feras abatidas durante a caça, representavam as barbaridades nas pilhagens, destruição de patrimônios, desrespeito com governadores e códigos religiosos, em suma, a manifestação do caos em sociedades aparentemente controladas por seus costumes. Esse “outro” vinha na figura de monstro, alegorizado pelos povos que oralmente retransmitiam os horrores desta época, ressignificados na posteridade. Acreditava-se que além de imbuir-se da força física destas feras, tais guerreiros também gozavam dos privilégios de suas respectivas formas físicas, para o espanto e pavor de quem os tinha como o “outro” em relações nada amistosas. Assim, essas histórias penetraram profundamente no imaginário europeu e se dissipou a cada geração, ganhando também outras culturas ao passo que o Velho Mundo se expandiu nos primeiros passos do que conhecemos pelo preâmbulo da globalização, isto é, as Grandes Navegações. Simbolizando pacto com o diabo e outros medos medievais, a figura do lobisomem serviu de representação para aquilo que é estrangeiro, não cristianizado, uma imagem demoníaca a ser temida e evitada, tal como fazem os personagens de Possuída – O Início.

Na trama, as irmãs Ginger (Katharine Isabelle) e Brigitte (Perkins) aparecem como as antepassadas da dupla gótica inseparável do primeiro filme. Elas estão perdidas numa floresta inóspita diante do inverno e das condições selvagens, haja vista a presença de animais e outros obstáculos traiçoeiros para humanos que ali, ocupam espaço de figuras incautas. Sem rumo, elas são resgatadas por um nativo, Hunter (Nathaniel Arcand), homem que as resgata e as deixam no Forte Bailey, uma liga comercial que é ponto de troca de mercadorias. O gesto não agrada os colonos, preocupados com a presença das indesejadas visitantes. O local, cheio de crucifixos e armadilhas para conter uma ameaça que elas ainda não sabem exatamente se tratar, aspectos visuais do eficiente design de produção de Todd Cherniaswsky, é um ponto de defesa ara aquelas pessoas que aguardam uma expedição que saiu há tempos e ainda não voltou, provavelmente atacada pela mesma criatura que ameaçou a vida de Ginger e Brigitte na floresta, antes da dupla ser salva por Hunter.

Como mencionado, sem muitas alternativas para avançar, Possuída – O Início buscou adentrar nas possibilidades narrativas da sequência prévia, numa viagem temporal que me fez lembrar bastante as escolhas de Sam Raimi para Evil Dead 3, lembra? Levar Ash para a Idade Média, etc. Uma viagem nada convencional, estranha e ousada. Sob a direção de Grant Harvey, as irmãs da franquia Ginger Snaps não fazem uma bitolada viagem no tempo, mas são realocadas para outro momento histórico. Com roteiro de Stephen Massicotte e Christina Ray, o filme utiliza as mesmas atrizes e padrões narrativos anteriores para situa-las numa condição contextual diferente, apesar de dominada pela presença de uma figura monstruosa, juntamente com a ameaça da licantropia como uma maldição iminente. Também lançado em 2004, o filme desenvolve os seus conflitos ao longo de 94 minutos, tendo como direcionamento, uma história mais genérica sobre humanos acossados por monstros, mas ainda assim, com desenvolvimento atraente, mais magnético que o equivocado segundo filme. As alegorias para puberdade e relações familiares deixam de existir aqui para que contemplemos apenas um grupo de pessoas em busca da sobrevivência dentro de algumas situações “limite”. Para contar a sua história, o cineasta Grant Harvey comandou Michael Marshall na direção de fotografia, funcional, setor apoiado pelos figurinos de Alex Kavanaugh e efeitos visuais de Chad Malbon para construção dos elementos visuais desta narrativa de horror épico.

Na trilha sonora, Alex Klaskin faz um trabalho relativamente interessante, partitura que acompanha a saga das irmãs, do caçador Hunter, além dos demais personagens que completam o feixe de subtramas de Possuída – O Início, dentre os destaques, Wallace (Tom McCamus), comandante do forte, figura militar que perdeu a esposa numa tragédia e esconde um filho que é bem possível que seja um lobisomem; Dr. Murphy (Matthew Walker), homem misterioso que utiliza sanguessugas para realizar um método de purificação de possíveis vítimas da licantropia; o padre Gilbert (Hugh Dillon), fanático em diante de suas crenças e criador de tensão no forte; o cartógrafo Finn (Brendan Fletcher); e os caçadores Claude (David La Haye) e Seamus (Adrien Dorval), dupla responsável pelos momentos mais misóginos da narrativa, extremamente agressiva no tratamento da figura feminina, tal como analisei na descrição de determinados comportamentos tóxicos em Vampiros de John Carpenter. Responsáveis por tornar as garotas cada vez mais inseguras dentro da história, eles agridem demais Ginger e forçam a barra em algo que hoje, seria mais problematizado. Ademais, acuados pela tensão maligna externa e sem provisões internas para garantir a sobrevivência, todos os personagens atravessam uma dura fase de incertezas, culminando no desfecho sangrento deste filme sobre licantropia que se estabelece bem acima da média para o que poderia ter sido se tivesse continuado os temas do segundo capítulo.

Possuída 3: O Início (Ginger Snaps Back: The Beginning /Canadá, 2004)
Direção:
Grant Harvey
Roteiro:
Christina Ray, Stephen Massicotte
Elenco:
Katharine Isabelle, Emily Perkins, Nathaniel Arcand, JR Bourne, Hugh Dillon, Adrien Dorval, Brendan Fletcher, David La Hay, Tom McCamus, Matthew Walker, Fabian Bird, Kirk Jarrett, David MacInnis, Stevie Mitchell, Edna Rain
Duração:
94 min

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